“As pessoas não precisam de bancos, elas precisam de banking”, diz Otavio Farah, do Fitbank

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Otavio Farah, CEO e cofundador do FitBank: o banco como serviço é uma tendência irreversível

Em meados de julho, a fintech brasileira FitBank, que atua no segmento de banking as a service, recebeu um aporte do J.P. Morgan considerado estratégico – embora nenhuma das duas empresas tenha revelado o valor da operação. “Estamos ativamente aconselhando o mercado sobre as melhores soluções digitais para solucionar demandas de pagamentos e estamos ansiosos em continuar a apoiar nossos clientes na região”, disse, na época, Renata Vilanova Lobo, diretora de Wholesale Payments do banco, que vai ocupar no conselho a cadeira a que tem direito a partir da conclusão do negócio, que deu ao J.P. Morgan uma fatia minoritária da empresa.

Desde que iniciou suas operações, em 2015, a startup vem ampliando sua oferta às empresas que querem oferecer meios de pagamento digitais para sua base de clientes. Atualmente, provê conectividade, escalabilidade e rastreabilidade para mais de 180 mil contas digitais.

Forbes Insider conversou com Otavio Farah, CEO e um dos fundadores do FitBank, que acumula mais de duas décadas de experiência em tecnologia no mercado financeiro, sobre os próximos passos, tendências no setor, internacionalização, open banking e mais. Veja, a seguir, os melhores momentos da entrevista:

Forbes Insider: Vocês acabaram de receber um investimento do J.P. Morgan, o primeiro do banco na indústria de pagamentos na América Latina. Como eles chegaram até vocês?

Otavio Farah: A partir de um contato absolutamente comercial do dia a dia, nós na prospecção de mercado e eles na procura de soluções para suas demandas, percebemos que o FitBank não só conseguiria resolver a demanda objetiva de sistemas que eles procuravam, como também tinha a possibilidade de criar uma série de sistemas e produtos em parceria. Somando nossas forças, poderíamos alinhar o porte de uma instituição como o J.P. Morgan à agilidade, flexibilidade e tecnologia de ponta do FitBank. A partir daí, passamos a conversar mais e concluímos que um acordo comercial talvez fosse menos interessante para as duas partes e que a sociedade seria o melhor caminho para que pudéssemos explorar as inúmeras possibilidades que essa união poderia representar.

FI: Qual será o destino desse aporte?

OF: Ele vai financiar o crescimento do FitBank principalmente no desenvolvimento de novas funcionalidades e ferramentas para o sistema da empresa. Vamos viabilizar nossa entrada no SPB (Sistema de Pagamentos Brasileiro) e criaremos uma plataforma banking as a service open source aliada a uma série de soluções que são do backend do mercado financeiro, ou seja, soluções business to business de liquidação e pagamentos que permitirão que o FitBank consiga processar grandes volumes em grande escala. A ideia é termos desde soluções que o mercado vai enxergar, como a plataforma de banking as a service open source, como também aquelas que só o mercado financeiro enxerga, para o backend. Teremos uma série de novidades nesse sentido.

FI: Parte desses recursos pode ser destinada a uma internacionalização? Quais mercados estão no radar?

OF: Sim, estamos estruturando a nossa internacionalização, que inicialmente começará pela Américas, onde algumas empresas já demandam os serviços que oferecemos. Em um período de seis meses, até o final deste ano, será uma fase de desenvolvimento de soluções sob demanda, principalmente no setor de pagamentos, como fazer payout para carteiras e outros. Também ofereceremos ferramentas para o mercado internacional a partir do ano que vem.

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FI: O mundo todo está presenciando uma explosão de fintechs, que oferecem os mais diversos serviços. Existe mercado para tudo isso ou em breve veremos uma saturação desse modelo?

OF: Temos visto, realmente, uma série de fintechs aparecendo e uma coisa que percebemos é que elas são muito especializadas. Elas são extremamente competentes e muito mais eficientes que a maior parte dos grandes bancos, mas, ao mesmo tempo, existe uma pulverização. Sob o ponto de vista do mercado de capitais, consideramos natural que exista alguma consolidação destas soluções, para que o cliente seja atendido por uma plataforma que ofereça mais opções.

Como o FitBank está posicionado no B2B, nossa posição é justamente de enablers [facilitadores]. Nós viabilizamos a criação das fintechs, e, por isso, entendemos que o mercado bancário em si tende a evoluir de uma forma extremamente representativa. Então, o crédito continuará sendo uma necessidade, assim como todos os processos de pagamento e cobrança das empresas. No entanto, o que notamos hoje, globalmente, é todos esses processos são muito manuais – e acreditamos numa intensificação da automação, que é justamente onde entram as fintechs. O mercado de crédito também tem muito a evoluir, principalmente no B2B, assim como o mercado de cash management.

No B2C, há muitas oportunidades que, de certa forma, já estão sendo endereçadas por empresas como Nubank, C6 e BS2, que são carteiras digitais fortes e ainda têm muito potencial de crescimento. Eles talvez já tenham preparado uma proposta de valor interessante para o mercado, mas ainda têm um ciclo de crescimento muito grande pela frente e enxergamos que o mercado B2B ainda tem um apelo muito grande.

Todas essas câmaras de liquidação, o que chamamos de settlement and clearing, também precisam passar por uma evolução tecnológica. E neste campo estamos preparados para processar volumes financeiros enormes, em grande escala, com um custo baixíssimo e alta eficiência.

FI: Qual é, na sua opinião, a evolução do banking as a service?

OF: Este é o futuro do mercado financeiro, como prega Bill Gates já há muitos anos. Segundo ele, as pessoas não precisam de bancos, elas precisam de banking. Ou seja, precisam realizar transações com dinheiro da forma mais eficiente possível. E, quando eu digo eficiente, quero dizer rápido, barato e em uma experiência de usuário positiva. A nossa visão é de que a empresa que domina o ecossistema tem uma capacidade muito interessante de poder oferecer para o consumidor uma experiência imbatível, justamente por dominar determinadas características daquele negócio que um banco que está “fechado para si mesmo” não consegue.

Nossa proposta é justamente poder importar toda essa inteligência que é gerada ao longo da cadeia de valor de um determinado produto e trazer isso para dentro da nossa plataforma, com todas as informações sem, necessariamente, ter que gerá-las de novo. Acreditamos que essa é a tendência, um processo irreversível. A tecnologia está evoluindo e seguindo nessa direção. Eu acho que, no futuro, os bancos terão problemas.

FI: Essa operação com o J.P. Morgan já foi suficiente para entender um pouco o mercado financeiro internacional ou o histórico do Brasil em tecnologia bancária é suficiente para prestar serviços lá fora?

OF: Algo interessante da tecnologia é que ela está disponível no mundo inteiro, então a que é usada nos principais países do mundo não difere muito da que temos aqui no Brasil. Nossa plataforma já foi pensada e construída endereçando o assunto da internacionalização. O que precisa ser feito é uma customização para as peculiaridades de cada mercado específico. No entanto, em vez de depender de muitos sistemas, para nós isso passa a ser um apêndice do sistema da empresa e, por isso mesmo, já estamos preparados para fazer esses novos plugues internacionais e criar um ecossistema e um ambiente internacional para atender nossos clientes. Cerca de 80% do sistema do FitBank é internacionalizável e 20% é customizado por país.

FI: Que oportunidades você enxerga por aqui com o open banking?

OF: Acreditamos que esse seja o futuro. As operações, principalmente do B2B, serão profundamente impactadas. A partir do momento que é possível dominar informações gerenciais que acontecem no processo financeiro, muda-se a regra de risco da operação. Isso muda muito em operações de crédito, de garantia, de fianças etc. E temos uma presença forte nesse setor que beneficiará o usuário. Ele conseguirá ter uma experiência muito mais adequada àquela demanda específica e não estará mais sujeito a um processo genérico que trata todos os tipos de mercado ao mesmo tempo.

FI: Que conselhos você daria para outras fintechs que querem receber aportes e se internacionalizar?

OF: Elas devem ter isso em mente desde o primeiro dia em que começarem a construir seus sistemas. Ao mesmo tempo, também precisam ter a tranquilidade de que, se não conseguirem dominar um determinado ecossistema, não vale a pena querer partir para o próximo. Estamos fazendo esse movimento depois de cinco anos de desenvolvimento e quatro de mercado. Trabalhamos todo esse tempo para levar uma solução completa para um mercado específico, que é o brasileiro, onde começamos. A partir disso, será possível criar outras oportunidades em torno dessa plataforma, que já foi pensada desde 2015 que um dia seria internacional.

O conselho para internacionalização é pensar nisso desde começo, mas saber a hora certa de fazer. Na verdade, esse é meio que um mantra de todas as startups, não necessariamente das fintechs. É preciso começar e dominar um determinado mercado ou nicho para partir para um próximo. Não necessariamente dominar o mercado, mas a tecnologia que atende esse mercado e, a partir daí, abrir uma nova frente de crescimento, que é o que estamos fazendo hoje.

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