A indústria de tecnologia financeira está polarizada. O ambiente é marcado por uma divisão entre empresas que concentram crescimento, capital e avaliações bilionárias — e outras que enfrentam dificuldades para sobreviver.
Um dos principais exemplos é a Stripe, empresa de pagamentos com sede em São Francisco que atende milhões de comerciantes ao viabilizar a aceitação de cartões de crédito, o processamento de transações com stablecoins e a gestão de faturamento.
Em 2025, a companhia registrou US$ 6,9 bilhões (R$ 36,64 bilhões) em receita líquida e US$ 1,2 bilhão (R$ 6,37 bilhões) em lucro, segundo uma fonte familiarizada com suas finanças. A receita cresceu mais de 30% em relação a 2024.
Trata-se de uma escala e um crescimento de nível global, mas sua avaliação recente de US$ 159 bilhões (R$ 844,29 bilhões) — que garantiu a cada um dos irmãos Collison uma fortuna de US$ 17,5 bilhões (R$ 92,93 bilhões) — indica que seus investidores privados acreditam que a empresa vale quase cinco vezes mais que a Adyen, fintech holandesa e concorrente direta.
Diferentemente da Stripe, a Adyen é listada em bolsa. No ano passado, processou US$ 1,6 trilhão (R$ 8,50 trilhões) em pagamentos, contra US$ 1,9 trilhão (R$ 10,09 trilhões) da Stripe.
Bilhões no setor
Defensores da Stripe destacam que a empresa possui mais linhas de negócio e cresce mais, mesmo partindo de uma base maior. Ainda assim, é pouco provável que a companhia conseguisse sustentar uma avaliação de US$ 159 bilhões (R$ 844,29 bilhões) caso abrisse capital hoje.
Investidores avaliam a plataforma de e-commerce Shopify em US$ 165 bilhões (R$ 876,15 bilhões), que cresceu quase no mesmo ritmo da Stripe no último ano e apresentou mais que o dobro do lucro. Um porta-voz da Stripe preferiu não comentar.
A Ramp, empresa de cartões corporativos com sede em Nova York, é outro exemplo de “vencedora” entre as fintechs que carrega uma avaliação difícil de justificar. Em setembro de 2025, anunciou US$ 1 bilhão (R$ 5,31 bilhões) em receita bruta anualizada e, dois meses depois, atingiu uma avaliação de US$ 32 bilhões (R$ 169,92 bilhões).
O que muitos não percebem é que esse valor bruto não desconta as taxas de intercâmbio das transações com cartão nem as recompensas que a Ramp repassa a bancos, parceiros e clientes. Assim, sua receita líquida — o principal indicador de vendas utilizado por empresas de pagamentos listadas em bolsa — provavelmente é ao menos 40% menor que a receita bruta.
Isso significa que o múltiplo de avaliação sobre receita líquida era provavelmente próximo de 50 no final do ano passado, nível semelhante ao observado durante a bolha das fintechs em 2021. A diretora de comunicação da Ramp, Lindsay McKinley, não comentou a receita líquida da empresa, mas afirmou que ela cresce mais de 100% ao ano e já apresenta fluxo de caixa positivo.
Fora da realidade?
A concorrente da Ramp, a Brex, tinha uma receita 30% menor que a da rival em setembro de 2025. Quatro meses depois, em janeiro de 2026, a Brex foi avaliada em US$ 5,15 bilhões (R$ 27,35 bilhões) quando o Capital One anunciou sua aquisição. Mesmo com crescimento expressivo, a Ramp vale seis vezes mais que a Brex?
Michael Gilroy, ex-sócio geral da gestora Coatue e fundador da Marathon, afirma que as avaliações das principais fintechs privadas “ultrapassam o absurdo”. Ele acrescenta que “nem chegam perto do nível em que seriam negociadas como empresas de capital aberto”.
Segundo a Caplight, startup de São Francisco que monitora negociações no mercado secundário de empresas de tecnologia, o valor de mercado agregado das dez maiores fintechs privadas cresceu 164% nos últimos 12 meses, enquanto as dez maiores fintechs listadas em bolsa avançaram apenas 2%. Ou seja, a diferença entre as avaliações públicas e privadas reflete uma mudança estrutural em direção ao capital privado.
Décadas atrás, abrir capital era visto como o auge para startups, maximizando o valor para empresas e investidores. Hoje, há milhares de fundos de private equity e venture capital competindo por oportunidades em mercados privados que crescem muito mais rápido que os públicos. Isso tem inflado as avaliações, especialmente em áreas aquecidas como a inteligência artificial.
A maioria das fintechs que abriram capital viu suas ações estagnarem ou caírem. O banco digital Chime, avaliado em US$ 25 bilhões (R$ 132,75 bilhões) no pico do setor em 2021, abriu capital em junho de 2025.
Nos últimos seis meses, a empresa sido negociada com valor de mercado entre US$ 7 bilhões (R$ 37,17 bilhões) e US$ 11 bilhões (R$ 58,41 bilhões), abaixo dos US$ 16 bilhões (R$ 84,96 bilhões) atingidos no primeiro dia de negociação. Das onze fintechs que abriram capital no ano passado, apenas três estão sendo negociadas acima do preço do IPO, segundo Rocio Wu, sócia da F-Prime Capital.
Estamos em uma bolha?
Um dos fatores que pode sustentar a valorização das fintechs “vencedoras” é a habilidade dessas empresas em construir narrativas convincentes em torno da inteligência artificial. Stripe e Ramp têm insistido para os investidores de que a onda da IA impulsionará seus negócios, divulgando novidades sobre agentes de IA e outras funcionalidades centradas nessa tecnologia.
A Klarna, empresa de “compre agora, pague depois” sediada em Estocolmo e listada em bolsa, tentou adotar estratégia semelhante. Seu cofundador e CEO, Sebastian Siemiatkowski, chegou a afirmar que a empresa já utiliza IA para substituir softwares corporativos da gigante Salesforce.
Ainda assim, os investidores permanecem céticos. Atualmente, a Klarna está avaliada em US$ 6 bilhões (R$ 31,86 bilhões), uma queda em relação tanto ao preço do IPO quanto à avaliação privada de US$ 46 bilhões (R$ 244,26 bilhões) em 2021.
Com a inteligência artificial dominando a narrativa de investimentos, uma avalanche de capital privado está sendo direcionada a um número cada vez menor de empresas consideradas vencedoras da revolução da IA.
Especialistas observam que os retornos do mercado acionário nos últimos 10 anos foram impulsionados por apenas sete empresas, afirma Annie Lamont, cofundadora e sócia-gerente da Oak HC/FT. Esses investidores querem apostar na próxima “Meta” ou “Google”. Por isso, fundos soberanos e fundos de pensão estão começando a investir em empresas como OpenAI e Stripe, elevando ainda mais as avaliações.
Immad Akhund, fundador e CEO do Mercury, banco digital voltado para empresas, tem uma visão privilegiada sobre o desempenho das startups de tecnologia. Segundo ele, enquanto o dinheiro flui para negócios ligados à IA e se afasta de empresas consideradas vulneráveis à disrupção tecnológica, investidores ignoram um terceiro grupo: aquelas que não são nem impulsionadas nem prejudicadas pela IA. “Sou investidor em várias empresas que não atuam diretamente com IA e, mesmo indo muito bem, simplesmente não conseguem captar recursos no momento”, afirma.
Steve McLaughlin, fundador e CEO do banco de investimento FT Partners, especializado em fintechs, diz que, nos últimos meses, expectativas e preocupações em torno da IA “se intensificaram como nunca, criando um ambiente nebuloso para investidores e empresas avaliarem oportunidades e riscos”.
O mercado teme que, a qualquer momento, empresas como a Anthropic lancem funcionalidades capazes de tornar fintechs obsoletas. Para captar recursos, fundadores do setor precisam apresentar uma narrativa convincente envolvendo inteligência artificial, afirma Matt Streisfeld, sócio da Oak HC/FT.
Enquanto isso, as fintechs de elite passaram a se comportar como bens de luxo escassos, cujo prestígio e demanda aumentam à medida que suas avaliações sobem, segundo Michael Tannenbaum, CEO da fintech de crédito Figure, que abriu capital no ano passado.
Quais são as implicações dessa tendência? As ofertas públicas iniciais (IPOs) tendem a se tornar mais raras, e investidores do mercado acionário nos Estados Unidos terão menos oportunidades de participar da criação de riqueza gerada por empresas de tecnologia, como ocorreu no passado.
Há também o risco de uma correção abrupta quando a bolha da inteligência artificial se desinflar. A investidora Annie Lamont resume: “Existe claramente uma suspensão da descrença, porque muitos desses investidores privados não recebem dados trimestrais das empresas. É como investir em uma caixa-preta.”
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com