“Ainda não estive em todos os lugares, mas todos estão na minha lista”, escreveu Susan Sontag — em uma frase que virou quase um mantra entre os amantes da estrada. Poucos, no entanto, chegaram tão perto de cumprir essa promessa quanto Harry Mitsidis, um dos viajantes mais experientes do planeta. Fundador da NomadMania, plataforma dedicada a viajantes independentes, ele faz parte de um clube raríssimo — estimado em apenas algumas centenas de pessoas — que já visitaram todos os 193 países soberanos reconhecidos pela ONU. E mais: muitos desses lugares, ele fez questão de conhecer mais de uma vez.
A seguir, ele compartilha curiosidades e reflexões de uma vida dedicada a explorar o mundo — com o olhar treinado de quem transformou o ato de viajar em uma verdadeira arte.
Forbes: Na infância, você viajava com frequência?
Harry Mitsidis: Nasci em Londres, cresci em Atenas e, sim, viajávamos bastante em família porque minha mãe é sul-africana inglesa, então íamos para a Inglaterra e para a África do Sul. Também temos parentes nos Estados Unidos. Fui uma criança e um jovem que viajava com certa frequência, especialmente naquela época, no início dos anos 1980.
Em que momento surgiu a ideia de alcançar esse objetivo extremo de viagem?
No início dos meus vinte e poucos anos, percebi que a ideia de uma vida normal, das 9h às 17h, não era para mim — e aí o desejo de viajar tomou conta.
E como foi possível tornar isso realidade? Como conseguiu bancar as viagens pelo mundo?
Estudei administração e sociologia e depois comecei a dar aulas sobre liderança e gestão. Quem leciona costuma ter muito tempo livre. Aproveitava cada oportunidade para ir a algum lugar e, com o tempo, já havia conhecido cerca de 100 ou 120 países. Então pensei: agora preciso visitar todos. Foi uma combinação de planejamento financeiro cuidadoso, agrupamento de países para visitar vários de uma vez, e abrir mão de certas coisas que muitas pessoas consideram indispensáveis. Nunca fui ligado em tecnologia, por exemplo. Tenho o mesmo carro há 20 anos.
Você viajava sozinho ou acompanhado?
Por ser filho único, aprendi a ser independente. Muitas vezes escolhi viajar sozinho, mesmo sendo casado e podendo ir com amigos. Sozinho, consigo realmente explorar e descobrir a cultura do lugar, além de ter encontros únicos com moradores locais. Quando se está com alguém conhecido, acho que a experiência fica diluída.
Você costuma passar mais tempo nos países ou apenas visita rapidamente?
Antigamente, às vezes eu visitava apenas a capital e já seguia para o próximo destino. Mas hoje percebo que é preciso explorar com mais profundidade para entender as diferenças regionais. Atualmente viajo de forma mais lenta. Agora, por exemplo, estou em uma viagem de seis semanas pelo Japão — algo que, há vinte anos, eu provavelmente não consideraria.
Como é seu estilo de vida? Costuma comer comidas locais?
Levo uma vida que mistura aventura com cautela. Evito situações de risco. Não costumo consumir comida de rua em lugares onde isso pode causar problemas, mas sim, busco alimentos locais. A hospedagem varia. Uma das lições de viajar é não ter regras fixas. Às vezes fico em hotel cinco estrelas, outras em albergue, Airbnb ou na casa de amigos e conhecidos.
O que viajantes extremos têm em comum?
Acho que é a curiosidade de ver e vivenciar mais, uma espécie de inquietação, a dificuldade de permanecer em um só lugar por muito tempo.
Já fez cruzeiros?
Não no sentido clássico. Participei mais de expedições, que são viagens difíceis. O barco oferece algum conforto e serviço, mas não é luxuoso. Viagens ao Ártico, às ilhas do norte da Rússia ou à Antártica exigem preparo físico, e o percurso costuma ser desafiador. Fiz apenas alguns poucos cruzeiros recreativos, como os tradicionais pelo Caribe.
Quais são alguns dos seus países favoritos?
Costumo me interessar mais pelos destinos menos óbvios. A Coreia do Norte foi uma das experiências mais peculiares, onde tudo parece encenado — como no filme do Jim Carrey — e é difícil saber o que é real. Ruanda enfrentou uma tragédia grave e conseguiu se reconstruir. No oeste da África, há lugares como Benim, com muita história. O Japão também é um destaque: os moradores são extremamente corteses e o país surpreende em cada detalhe. Lá, é possível deixar dinheiro em um local público e encontrá-lo no mesmo lugar no dia seguinte.
Também gosto do Irã, onde é importante separar o povo da política. As pessoas não deixam ninguém passar fome, convidam para suas casas. E há ainda a história e a cultura. Em Persépolis, ainda se veem marcas deixadas pela destruição provocada por Alexandre, o Grande.

Existe algum país que não tenha agradado?
Todo lugar tem algo interessante. Mesmo experiências negativas ensinam sobre os próprios limites, sobre o que se consegue enfrentar. Isso também é parte do sentido de viajar. Não há país onde eu definitivamente não voltaria. A Gâmbia, por exemplo, não me marcou muito, mas talvez eu precise dar uma nova chance.
E quanto à beleza?
A beleza se manifesta de muitas formas. Há vilarejos e cidades pequenas com arquitetura impressionante, como nas regiões centrais da Europa — na República Tcheca e na Hungria, por exemplo. Há também a beleza natural: praias, como a da ilha Rodrigues, que fica a uma hora e meia de viagem de Maurício, na costa africana. Há montanhas no norte do Paquistão, lagos e regiões acidentadas no Tajiquistão, e toda a cadeia montanhosa do Himalaia.

Há algum costume que tenha considerado estranho ou curioso? Um festival, talvez?
Existem práticas inusitadas por toda parte. Recentemente, comi caranguejo no Japão. No fim da refeição, restou um caldo, e uma mulher recolheu tudo, adicionou arroz e cozinhou novamente. Não entendi bem o propósito.
Festivais também são um atrativo. Gosto muito dos festivais na Papua-Nova Guiné e também do Gerrelwald, no Níger. E, claro, os da América Latina, com máscaras e tradições marcantes. Nos Estados Unidos, ao sair do roteiro comum, é possível encontrar celebrações como a da maior batata do mundo — o que é curioso.

Você já esteve em lugares considerados perigosos, como Somália, Líbia, Síria, Coreia do Norte, Ucrânia e Afeganistão. Qual foi a situação mais assustadora?
Quando estava lecionando em Omã, tive a ideia de ir ao Iêmen. Um aluno se ofereceu para me levar, e isso foi positivo, pois serviu como intérprete. Acabamos presos — eu e ele — e ele ficou em choque. Não havia conforto algum: havia baratas, mosquitos, e não sabíamos exatamente o que queriam. No fim, era o óbvio. No dia seguinte, tudo foi resolvido de forma relativamente amigável e até houve um grande almoço dentro da área da prisão. Hoje é uma boa história, mas foi muito assustador se sentir tão vulnerável. Nesses momentos, só se pensa nas pessoas queridas.
Imagino que queriam dinheiro.
Sim.
Você já esteve na ilha Pitcairn. Estive em um cruzeiro pela região, mas por causa das ondas, os moradores embarcaram no navio.
Pitcairn é o menor território habitado do mundo, com cerca de 50 moradores, e um navio passa por lá apenas três ou quatro vezes por ano. Já estive lá duas vezes. A primeira foi a partir da Polinésia Francesa, em um iate com outras oito pessoas, e passamos três dias. Como não há hotéis, os visitantes se hospedam na casa de moradores, que recebem uma renda importante com isso. Tive sorte e fiquei na casa de uma senhora com bastante espaço, uma boa vista e que me contou muitos detalhes da vida local.

Vale lembrar que os moradores são descendentes dos amotinados do navio britânico HMS Bounty.
Minha anfitriã era descendente direta de Fletcher Christian.
Qual é a responsabilidade social de viajantes como você? Existe um propósito além de acumular experiências?
É importante viajar com a mente aberta. Sempre que possível, é recomendável contratar agentes locais confiáveis, pois essas pessoas realmente precisam dos recursos.
Se a pessoa for exigente, rude ou intolerante, os moradores vão acabar tendo uma má impressão do país de origem do visitante. Também é importante estudar sobre o lugar antes da viagem, porque é comum que as pessoas façam perguntas, e é necessário saber responder. Além disso, conhecer os costumes e modos de vida ajuda a evitar equívocos.
Se fosse para escolher um lugar fora do seu país para viver, qual seria?
Não consigo imaginar isso com facilidade, mas, se tivesse que escolher, gosto de lugares com céu claro. A região do Mediterrâneo me agradaria.
Pode compartilhar uma lembrança especial?
Estava indo de Freetown, em Serra Leoa, para Monróvia, na Libéria — uma longa viagem por terra, com travessias de rios em balsas. Em uma dessas paradas, havia uma vila local e, como não é comum aparecerem pessoas caucasianas por lá, os moradores estavam vestidos com roupas coloridas, dançando e brincando. Decidi dar um dólar (R$ 6). Parecia que tinham recebido um milhão. Quando a balsa chegou, ainda era possível ouvir as comemorações. A lição é que, com um gesto simples de generosidade, é possível causar grande impacto. Ser gentil faz diferença.