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Experiências Olfativas e Minimalismo Estão Redefinindo o Mercado de Fragrâncias

Casas de fragrância, marcas de nicho e grandes maisons reposicionam a perfumaria de luxo com vivências sensoriais e composições mais suaves

9 min

O luxo, na perfumaria, já não se resume a possuir um frasco assinado por uma maison tradicional. O segmento vive uma transformação silenciosa: fragrâncias passam a ser encaradas não apenas como símbolos de status, mas como experiências capazes de ativar sentidos, despertar memórias e traduzir identidades.

Nesse contexto, as casas de fragrância, antes restritas aos bastidores, assumem um papel estratégico. A International Flavors & Fragrances (IFF), uma das gigantes do setor, tem desenvolvido plataformas que unem ciência, tecnologia e arte olfativa. Sua mais recente inovação, a Science of Wellness, utiliza inteligência artificial e neurociência para mapear emoções e orientar a criação de perfumes capazes de transmitir sensações como energia, calma ou confiança.

“O olfato influencia fortemente nossas emoções e memórias porque está diretamente conectado ao sistema límbico, nosso cérebro emocional. Isso explica por que o uso de fragrâncias se tornou tão poderoso na criação de conexões entre marcas e pessoas”, explica Thayonnan Miranda, perfumista da IFF. “O desafio do perfumista atual é pensar além do perfume: é ser um designer de experiências.”

Da vitrine ao bastidor: como o consumidor mudou

Segundo a Statista, o mercado global de fragrâncias deverá gerar uma receita de US$ 62,1 bilhões (R$ 372,6 bilhões) em 2025, com uma taxa de crescimento anual estimada em 3,31% entre 2025 e 2030. Mundialmente, as fragrâncias ganham popularidade à medida que os consumidores buscam expressar sua individualidade e aprimorar seu estilo pessoal.

Neste mercado cada vez mais promissor, a demanda por narrativas olfativas mais complexas reflete uma mudança clara no perfil do consumidor de luxo. Se antes o prestígio estava associado à exibição de status, hoje ele se materializa na busca por exclusividade, personalização e autenticidade. “Há uma mudança evidente”, analisa Luis Jordão, especialista em perfumaria. “O consumidor de luxo no Brasil migrou de uma lógica de exibição para experiências mais sensoriais e significativas. O perfume deixou de ser apenas um símbolo de sofisticação ou poder aquisitivo para se tornar uma extensão da identidade pessoal.”

Duas frentes se destacam, inclusive internacionalmente: o bem-estar olfativo, presente em spas, academias boutique e produtos para o lar; e a perfumaria de nicho, que aposta em ingredientes raros e narrativas culturais. “Com nossa Science of Wellness, conseguimos direcionar precisamente os benefícios de bem-estar conforme a demanda dos consumidores”, explica Miranda. “Já a perfumaria de nicho foca em produção artesanal, personalizada e com storytelling cultural.”

Tainá BernardLuis Jordão e Thayonnan Miranda

Dentro do mercado de luxo, vê-se cada vez mais marcas oferecendo notas olfativas exclusivas, afirma Jordão. “A variedade e a qualidade dos ingredientes permitem que o consumidor embarque em uma jornada para encontrar algo que se conecte verdadeiramente à sua personalidade”.

No Brasil, a qualidade das marcas nacionais acompanha. “Elas apostam em matérias-primas nobres, muitas delas sustentáveis e de origem nacional, e já oferecem linhas com preços comparáveis aos de perfumes internacionais de prestígio”, afirma o especialista.

Exclusividade como diferencial

A busca por experiências seletivas é visível em exemplos recentes: a Creed, com sua boutique exclusiva em São Paulo, oferece atendimento sob medida e acesso a criações raras; a Guerlain aposta em sua coleção L’Art & La Matière, tratando perfumes como obras de arte; já a Dior trouxe ao Brasil o Coffret de Descoberta de Fragrâncias, convidando consumidores a explorar o olfato de forma interativa. A Felisa convida os consumidores a conhecerem suas novas linhas de perfumaria por meio de imersões sensoriais em sua primeira loja-conceito, que fica também em São Paulo.

Reprodução/Instragram CreedBoutique da Creed em São Paulo

No cenário nacional, marcas independentes como Felisa, Amyi e Lenvie apostam em composições autorais e sofisticadas. Outra opção vem da marca Tânia Bulhões, que oferece ao comprafor a possibilidade de conhecer todos os eau de parfum em miniatura da marca com o kit Galeria Olfativa. “O consumidor tem opções. Dentro do mercado de luxo, vemos cada vez mais marcas chegando oferecendo experiências e notas olfativas exclusivas. A perfumaria de nicho foca em qualidade de ingredientes e na variedade e exclusividade, o que possibilita uma jornada a fim de encontrar algo que se conecte verdadeiramente com a sua personalidade e identidade”, avalia Jordão. “Esse ecossistema criativo molda uma nova geração de perfumaria no Brasil — autoral, sensorial e com potencial global”.

SIte da marca Tânia BulhõesKit Galeria Olfativa, da Tânia Bulhões

Neste sentido, São Paulo se consolida como epicentro da alta perfumaria na América Latina. “A capital paulista já reúne boutiques exclusivas, spas de luxo e coleções privadas de maisons globais, como Dior, Chanel e Creed, com atendimento altamente personalizado”, destaca Jordão. “Lugares como a boutique Neeche, a Louis Vuitton do Cidade Jardim ou o spa Guerlain no Rosewood colocam a cidade no mesmo patamar de polos globais como Paris e Dubai.”

O futuro da perfumaria

Os especialistas concordam que o futuro da perfumaria será marcado pela tecnologia, mas sem perder de vista a experiência física. “Veremos perfumes projetados para evocar emoções específicas, fragrâncias sem gênero, novas texturas e até testes virtuais antes da compra”, aposta Miranda. “Mas a experiência presencial continuará insubstituível.”

A valorização de ingredientes naturais e sustentáveis também é central. “Com a LMR Naturals, trabalhamos com extratos exclusivos cultivados com técnicas agrícolas conscientes”, reforça o perfumista. “Essa valorização reflete uma cultura olfativa mais consciente e alinhada às tendências globais”. Na IFF, diz ele, investe-se em embalagens recicláveis e em cadeias produtivas responsáveis.

Para Jordão, o Brasil tem tudo para liderar esse movimento: “Nossa biodiversidade única, diversidade cultural e consumidores receptivos são diferenciais globais. Mas precisamos valorizar perfumistas brasileiros, investir em pesquisa e apostar em um DNA olfativo genuíno, que não seja apenas uma réplica do europeu. A chave é unir originalidade, sustentabilidade e tecnologia.”

Perfume minimalista?

Enquanto experiências olfativas ganham força mundialmente, outra demanda também cresce no mercado da perfumaria: perfumes de luxo minimalistas, limpos e frescos, que priorizam simplicidade e pureza.

Aitana López de Carrión, gerente global de desenvolvimento de fragrâncias finas da CPL Aromas, afirma que há uma valorização crescente das fragrâncias minimalistas, desenvolvidas para permanecer próximas à pele — composições suaves e discretas que realçam o aroma natural, em vez de se sobreporem a ele.

Almíscares suaves, flores transparentes e notas moleculares criam um efeito de “segunda pele” e dialogam com o movimento do “luxo silencioso”. Aitana destaca que, atualmente, os consumidores não sentem a necessidade de escolher entre fragrâncias extremas, refletindo uma mudança na expressão pessoal, em que o perfume pode ser sutil ou marcante, conforme o momento.

Cortesia da Les Eaux PromordialesLes Eaux Promordiales

Entre os destaques desse segmento estão Couleur Primaire, da perfumaria independente francesa Les Eaux Primordiales, uma fragrância fresca e leve, inspirada na memória de infância do fundador aos domingos lavando roupas com a mãe; Steamed Rainbow, da D. S. & DURGA, com notas delicadas, úmidas, terrosas e limpas de violeta, flor de amêndoa e tangerina; e 312 Saint-Honoré, da BDK Parfums, um perfume floral suave com notas doces de jasmim e almíscar, evocando a elegância parisiense.

Fragrâncias minimalistas geralmente utilizam menos ingredientes, mas com maior qualidade, aplicados de forma precisa e intencional. A clareza — tanto na formulação quanto na emoção que transmitem — é o que as torna contemporâneas.

Por sua leveza, os sprays corporais e faciais se encaixam naturalmente nessa tendência minimalista. Os Cheirosa Perfume Mists, da Sol de Janeiro, são fragrâncias íntimas, frescas e discretas; especialmente o número 63 da linha, indicado para o verão. As águas faciais perfumadas também são uma alternativa aos perfumes tradicionais, pois suas composições delicadas nutrem a pele e oferecem um leve toque aromático.

Cortesia da Sol De JaneiroSol De Janeiro

Os perfumes sólidos também estão em ascensão, oferecendo uma forma discreta de expressão pessoal, com embalagens minimalistas. A Lush disponibiliza uma linha de fragrâncias formuladas com base de óleo de jojoba orgânico e óleos essenciais.

Essa tendência também se reflete no aumento dos desodorantes sólidos de luxo, que passam a ser utilizados como perfumes. Natalie Guselli observa que essa tendência vem crescendo, com marcas emergentes como Rollr e To My Ships se destacando. Essas marcas aplicam a filosofia das fragrâncias minimalistas a itens do cotidiano, utilizando ingredientes limpos e perfis aromáticos refinados, semelhantes aos de linhas de perfumaria de luxo.

Cortesia da LushPansy

Guarda-roupa de fragrâncias

Muitos consumidores estão se afastando das fragrâncias intensas em favor de perfumes mais suaves e discretos. Natalie Guselli, chefe de beleza da Liberty, em Londres, confirma essa mudança, relatando que a loja observa mais clientes abordando a escolha de fragrâncias da mesma forma que montam seu guarda-roupa — construindo uma coleção que reflita diferentes estados de espírito, ocasiões e aspectos do estilo de vida. “Assim como não se usa a mesma roupa todos os dias, as pessoas estão mais intencionais em combinar a fragrância com o que desejam sentir”, afirma.

O crescimento do “guarda-roupa de fragrâncias” está relacionado à versatilidade e à construção de narrativas pessoais. Guselli explica que fragrâncias minimalistas representam um luxo mais discreto e pensado, geralmente formuladas para aderir à pele, realçando-a sem dominar. “Em um mundo cada vez mais barulhento e acelerado, há uma elegância na contenção”, diz.

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