Duas vezes vencedora do Oscar, Geena Davis criou um instituto de pesquisa que leva seu nome há cerca de 20 anos. A lendária atriz de “Thelma & Louise” e “Uma Equipe Muito Especial” fundou o Geena Davis Institute após o nascimento de sua filha, quando percebeu a falta de diversidade e de representatividade feminina em programas e filmes infantis.
No site do Instituto, Davis defende mais atenção à diversidade de gênero, raça, LGBTQ+, idade, corpos e pessoas com deficiência, não apenas em produções infantis, mas também em filmes e séries.
A atriz acredita que pode causar um impacto positivo e duradouro por meio dele, desde que a indústria também se comprometa. O trabalho inclui pesquisas rigorosas e parcerias estratégicas, com o objetivo de influenciar a mídia, os estúdios e, principalmente, os líderes do setor – aqueles que têm poder real para colocar a representatividade como prioridade em Hollywood. “Cada pessoa com quem falei (e foram dezenas) dizia: ‘Isso já não é mais um problema, já foi resolvido’. Eles me contavam como tinham feito mudanças em seus estúdios ou produtoras”, disse Davis.
“Isso me fez perceber que se tratava de um viés totalmente inconsciente. Então pensei: se eu reunisse dados, poderia voltar até eles e mostrar que não era verdade e que havia, sim, uma enorme disparidade de gênero. Foi isso que fiz no começo, há mais de 20 anos.”
Conversei com ela sobre seu trabalho no Instituto que leva seu nome, suas pesquisas mais recentes e o momento atual da indústria do entretenimento.
Quando mostrou os resultados de suas pesquisas, a reação dos líderes foi de choque. “Muitos achavam que, se houvesse uma protagonista feminina, já era o suficiente e o resto podia ser todo masculino. Isso começou a mudar tudo, e desde então fizemos grandes progressos.”
“Nosso objetivo é que o que vemos nas telas reflita a população real. As mulheres representam uma diversidade enorme em muitos aspectos. Ainda não alcançamos essa meta, mas é nisso que trabalhamos.”
Geena Davis
Falta de representatividade na indústria
Hoje, o Instituto expandiu suas pesquisas além da representação feminina. Um dos levantamentos mais recentes, feito em junho de 2025, analisou a representatividade de pessoas asiáticas e das ilhas do Pacífico na indústria, dando continuidade a um estudo iniciado em 2021. Os resultados apontaram algum progresso: “De 2010 a 2024, houve um aumento estatisticamente significativo, embora modesto, no número de personagens do Pacífico em todos os tipos de papéis (protagonistas, coadjuvantes e secundários).”
Entre os profissionais das ilhas do Pacífico que responderam à pesquisa, 38,9% disseram sentir que os esforços da indústria para apoiar a representatividade nas telas melhoraram nos últimos cinco anos. Pouco mais de 60% afirmaram sentir que sua voz é valorizada no trabalho – um aumento expressivo em relação a 2021, quando apenas 43,5% disseram o mesmo.
Alguns dos entrevistados citaram personagens da produção da Netflix “Eu Nunca…”, “Moana” (Disney) e “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” (A24) como inspirações.
Ainda há muitas mudanças necessárias para alcançar igualdade e representatividade. Durante a conversa, citei para Davis uma declaração feita pela atriz Ambika Mod, estrela da série “Um Dia”, em entrevista à GQ em maio. Mod falou sobre a dificuldade de conseguir novos papéis como mulher não branca após o sucesso da série da Netflix, especialmente em comparação ao seu colega branco e homem. “Acho que vamos ter carreiras muito diferentes. Se eu me comparar com alguém como o Leo [Woodall], sempre vou sair perdendo, porque ele tem um privilégio ao qual não tenho acesso.”
Segundo Davis, não existe um estudo sobre a probabilidade de grupos sub-representados não serem contratados novamente, mas seria um tema bastante interessante. “Certamente acontece, porque sabemos que pessoas não brancas ainda têm muito menos personagens do que a proporção que ocupam na sociedade.”
“Ser uma mulher não branca não é nada fácil nessa indústria. Você não recebe as mesmas oportunidades, não tem a mesma ascensão. Já fui protagonista de duas séries muito bem-sucedidas e aclamadas pela crítica, e ainda assim sinto que preciso continuar me provando. Muitas das minhas colegas brancas não enfrentam isso.”
Ambika Mod
Mulheres em STEM
O Instituto também tem estudado a representação nas telas de mulheres em carreiras de STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática). “Um dado fascinante que encontramos foi que, quando há personagens femininas trabalhando em STEM, elas frequentemente são retratadas como tendo que abrir mão da vida pessoal pela carreira.”
A maioria das mulheres que responderam a essas pesquisas do Instituto citou Dana Scully, de “Arquivo X”. “Cerca de 63% das mulheres que hoje trabalham em STEM disseram que Dana Scully foi sua inspiração.” Isso mostra, ao mesmo tempo, o impacto de um único exemplo e a escassez de personagens femininas nesse campo. “Se acontece na tela, acontece na vida real.”
“Imagine o que aconteceria se tivéssemos muitos personagens femininos nessa área. Avançaríamos de forma impressionante. Mas é isso: se você pode ver, você pode ser. Esse é o nosso lema.”
Geena Davis
Para encerrar a conversa, perguntei a Davis se há algum papel em STEM ou em um gênero de filme tradicionalmente masculino que ela gostaria de interpretar. “Adoro papéis de cientistas. Quando fiz ‘A Mosca’, Jeff Goldblum interpretava um cientista incrível, e eu era a namorada dele. Mas eu amo o conhecimento científico, então talvez ainda consiga fazer esse tipo de papel um dia.”
*Maelle Beauget-Uhl é colaboradora da Forbes USA. Ela é jornalista com experiência em entretenimento e cultura.