O athleisure – tendência de moda que usa peças esportivas como ponto central – já não cabe apenas na definição de roupas confortáveis e de alta performance para atletas. Hoje, a categoria já se transformou em símbolo de estilo, atravessando o fitness, o streetwear e o luxo e, no Brasil, caiu especialmente nas graças dos consumidores de alta renda. Nos guarda-roupas desse público, o tênis de corrida, a calça de compressão e os tecidos inteligentes, por exemplo, deixam de ser meros detalhes da ativida física para ganhar espaço nos encontros sociais, em busca de peças capazes de unir performance técnica, sofisticação visual e exclusividade.
Os números provam que a expansão da moda esportiva é expressiva. Em 2024, só o mercado brasileiro de athleisure movimentou US$ 4,28 bilhões e deve alcançar US$ 6 bilhões (R$ 31 bilhões na cotação atual) até 2033, de acordo com o “Relatório de Mercado de Roupas Esportivas” do IMARC Group. No mundo, as vendas globais de roupas athleisure devem mais do que dobrar e alcançar US$ 900 bilhões (R$ 5,11 trilhões) até 2033, segundo a Dimension.
Esse momento traduz uma conversão dos esportes para além de práticas de saúde. A corrida de rua, as academias boutique, o yoga e o pilates não são só atividade física – eles tornaram-se expressões de pertencimento cultural e estilo de vida. Daí a junção natural com a moda: tecidos inteligentes, cortes arquitetônicos e colaborações exclusivas posicionam o athleisure premium como escolha de distinção, justificando cifras elevadas e criando identidade de marca.

Na prática, as fronteiras entre esporte e lifestyle de luxo então cada vez mais estreitas. O movimento tomou conta até das passarelas internacionais, onde a estética esportiva chegou a ocupar um papel central em certas maisons. A Dior, sob Maria Grazia Chiuri, inspirou-se nas Olimpíadas de Paris e na linha Dior Sport por Marc Bohan, de 1962, para criar a coleção primavera “ready-to-wear” de 2025. Já a Balenciaga reforçou sua narrativa ao lado da Under Armour em uma parceria que resultou em peças de ginástica que podem alcançar o valor de R$ 14 mil.

Off-White, Lacoste e PANGAIA seguem a mesma trilha, com leituras que unem couture e inovação sustentável. A ideia é clara: o luxo contemporâneo incorpora a performance como linguagem estética. Peças técnicas deixam de ser utilitárias para se tornarem objetos de desejo — tão relevantes quanto uma bolsa icônica ou um relógio.
As grandes maisons reforçam esse reposicionamento ao apostar em produtos ligados a esportes específicos: pranchas de surfe da Fendi, raquetes customizadas da Gucci, halteres da Celine. Mais do que itens funcionais, são artefatos de distinção e exclusividade.
Performance e estilo andam lado a lado
Com uma população jovem, conectada às tendências globais, e uma gama de consumidores disposta a investir em lifestyle de luxo, o Brasil oferece um terreno estratégico. Marcas internacionais ampliam sua presença no país, como a chegada, em 2024, da canadense Alo Yoga, famosa pelas roupas, acessórios e tênis esportivos, e da espanhola Loewe, que conta com uma coleção de calçados que imita sapatilhas de balé (que custam R$ 10 mil) e óculos de sol especiais para corrida (vendidos por R$ 5 mil).

Enquanto isso, criadores locais exploram unir tecnologia esportiva, acabamento artesanal e matérias-primas regionais. A Bad Running, por exemplo, se posiciona como uma marca de “roupas extraordinárias para corredores ordinários”. Lançada no final de 2024, a marca foca em um “design que funciona tanto para a corrida quanto para outros momentos do dia”, como afirma Bruno Bocchese, cofundador da marca, em entrevista para o Projeto Draft.
O Brasil também se destaca na criação de tecidos tecnológicos. A Insider é uma das líderes do segmento, com foco em conforto e minimalismo. São mais de 1 milhão de clientes em mais de 40 países, faturamento de R$ 400 milhões em 2024 e previsão de crescer mais 50% neste ano.
O Ateliê Beauty também é outro exemplo, com o lançamento da calça para exercício feita com cristais bioativos. De acordo com a marca, as leggings estimulam a circulação sanguínea e proporcionam benefícios como a redução da fadiga muscular, a melhora da firmeza e elasticidade da pele.
Mas não é só o terreno brasileiro que dá abertura para a chegada de marcas de athleisure. O investimento em tecnologia textil será, muito em breve, um diferencial: em entrevista à Forbes, Matthew Drinkwatter, Head of Fashion Innovation Agency na London College of Fashion, afirma que essas inovações têm o potencial de transformar a percepção do consumidor.

No mundo todo, marcas estão investindo nesse tipo de novidade. A Vollebak, marca inglesa de vestuário futurista, cria seus tecidos em laboratório: usando princípios da engenharia molecular, a startup desenvolveu uma tecnologia capaz de imitar fibras provenientes de plantas e animais. Em 2022, eles lançaram uma coleção de camisas e jaquetas para esporte feitas com grafeno, material que armazena e redistribui o calor, ajudando a regular a temperatura e reduzir a umidade do corpo durante o exercício. A peça pode ser usada tanto no contexto do exercício quanto fora dele.

Outro item muito importante para um look athleisure é o tênis de corrida, que, para muitas fashionistas, pode ocupar no guarda-roupa o mesmo espaço de destaque que um acessório de moda tradicional. E o retorno dessa tendência tem um nome: Lady Di. Segundo a W Magazine, 2025 marca o ano em que o investimento em tênis de corrida para o dia a dia volta a ser tendência, mas que, antes do athleisure existir, a Princesa Diana já mirava a aposta.
Os modelos mais usados para recriar looks inspirados pela princesa são os lançamentos da New Balance, que podem chegar a R$ 1,1 mil. Outro exemplo é o Adidas Adizero, lançado em 2025, que chega como a versão de corrida do Adidas Samba, vendido pelo valor de R$ 4 mil.