Durante algum tempo, a moda entrava nos museus como uma visita ilustre de fim de semana: recebida com entusiasmo, exibida com certo orgulho aos amigos, mas sempre sem desfazer a mala (já que não demoraria muito para ir embora). Hoje, a história parece ter virado o vestido do avesso: segundo dados do The Art Newspaper e balanços institucionais divulgados em 2024, exposições dedicadas à moda lideram os índices de engajamento e estão entre as que mais frequentemente operam em sua capacidade máxima de público, levando o termo sold out do vocabulário das vitrines para a bilheteria de museus e instituições culturais.
Boa notícia para nós. A roupa deixa de ser vista apenas como um objeto de consumo efêmero e passa a ocupar o espaço que sempre mereceu: o de obra, linguagem e documento do seu tempo. A seguir, listo 10 das melhores mostras atravessadas pelo universo fashion em 2026.
Costume Art
The Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA

A estátua Figure in Rotation (1917), com seu torso nu distorcido pela assimetria cubista de Max Ernst, repousa ao lado de um conjunto da Comme Des Garçons desfilado em 1997. Os diálogos entre representações artísticas do corpo e o corpo vestido são ponto de partida para a exposição do Costume Institute este ano. A mostra percorre 5 mil anos de história em 400 objetos do acervo do museu.
Dress code: para os convidados do Met Gala, o tema foi “Moda é Arte”. Para o visitante do museu, recomenda-se absolutamente tudo, menos salto alto: a mostra inaugura as novas galerias adjacentes ao Great Hall, com nada menos que 1,1 mil metros quadrados de exposição a mais.
Quando? De 10 de maio de 2026 a 10 de janeiro de 2027.
Rafael Pavarotti: Photographe
Musée des Arts Décoratifs, Paris, França

Pegando a câmera do pai emprestada, o paraense Rafael Pavarotti começou a fotografar aos 12 anos. Autodidata, passou por Rio de Janeiro, São Paulo e Londres antes de chegar a Paris, cidade em que vive hoje e que abre os salões de um de seus mais importantes museus para a exposição Rafael Pavarotti: Photographe. A mostra reúne 200 imagens, colocando a fotografia de moda de Pavarotti em diálogo com o acervo histórico do Musée des Arts Décoratifs. Não é pouca coisa: Henri Cartier-Bresson e Cecil Beaton são alguns dos nomes que tiveram o trabalho pendurado nas paredes do MAD.
É do Brasil: com raízes afro-indígenas, Pavarotti enfatiza o desejo de trabalhar para futuras gerações. “Ao dar protagonismo a corpos sub-representados na moda, seu trabalho questiona dimensões políticas e sociais da indústria”, escreve o curador da mostra, Sébastien Quéquet.
Quando? De 2 de outubro de 2026 a 2 de maio de 2027.
The Antwerp Six
MoMu, Antuérpia, Bélgica

Em um dia de 1986, a vanguarda fashion coube em uma van alugada que partiu da Antuérpia rumo a Londres. Dentro dela, estavam Ann Demeulemeester, Dirk Bikkembergs, Dirk Van Saene, Dries Van Noten, Marina Yee e Walter Van Beirendonck, recém-formados pela Royal School of Antwerp que jamais planejaram um coletivo, mas voltaram para casa chamados de “Antwerp Six” – improviso da imprensa britânica, incapaz de pronunciar seus nomes. Quarenta anos depois, o MoMu faz a maior e mais completa exposição sobre o grupo que colocou a Bélgica no mapa-múndi da moda.
Para além da roupa: sketchbooks, anotações, vídeos e fotografias nunca antes vistos estarão no museu, que recebeu a doação dos arquivos completos de Demeulemeester e Van Beirendonck.
Quando? De 28 de março de 2026 a 17 de janeiro de 2027.
Vivienne Westwood: Rebel, Storyteller, Visionary
The Bowes Museum, Durham, Inglaterra

Vivienne Westwood (1941-2022) conhecia perfeitamente as regras que decidiu quebrar. A visita que fez nos anos 2000 ao Bowes Museum – lar para uma das coleções de moda mais significativas do Reino Unido – comprova o interesse que a estilista britânica cultivava sobre trajes históricos e modelagens de séculos passados. Em 2026, o museu abriga uma mostra que evidencia o rigor técnico por trás do punk design de Westwood: protótipos em telas de algodão e peças desconstruídas digitalmente pelo Departamento de Moda da Universidade de Northumbria revelam a construção de suas peças; do corte em viés aos plissados.
Item de colecionador: looks de importância, de coleções como Harris Tweed (Inverno 1987) e Voyage to Cythera (Inverno 1989), estarão à mostra. Vieram da coleção particular do curador-adjunto e Westwood-expert Peter Smithson. God save the queen.
Quando? De 28 de março a 6 de setembro de 2026.
Many Shades of Grès
Kunstgewerbemuseum, Berlim, Alemanha

Germaine Émilie Krebs (1903-1993), imortalizada na moda como Madame Grès, desenvolveu uma técnica de drapeado inspirada em estátuas da Antiguidade que se tornaria sua assinatura. O museu alemão preservou 25 raridades da estilista, justapostas na mostra com o trabalho de estudantes de moda.
Hot take: a exposição argumenta como Grès era, antes de estilista, uma escultora. Ela rejeitava o desenho na mesa, preferindo a manipulação direta do tecido sobre o corpo das modelos.
Quando? De 15 de maio a 11 de outubro de 2026.
, JUERGEN TELLER/CORTESIA TATE BRITAIN.
Tim Wlaker’s Fairyland: Love & Legends
National Portrait Gallery, Londres, Inglaterra

Amantes da fotografia de moda já se depararam com uma imagem de Tim Walker. Decididamente na contramão da realidade, seus cliques contam histórias; são fábulas fashion marcadas pela imaginação. Para a nova exposição, o image-maker olha para a identidade queer através de uma lente que é lúdica, mas também política. Ao colocar ativistas e ícones contemporâneos diante de sua câmera, Walker prova que a fantasia não trata somente da fuga, mas pode ser ferramenta de afirmação para a autoexpressão.
Imagens que falam: entre as fotos, você encontrará o rosto de Sir Ian McKellen, lendário ator inglês cujo compromisso com a causa LGBTQIA+ é conhecido desde 1988, quando revelou sua orientação sexual à rádio BBC em protesto contra a Seção 28 (legislação que proibia a “promoção” da homossexualidade pelas autoridades locais).
Quando? De 8 de outubro de 2026 a janeiro de 2027.
The 90s
Tate Britain, Londres, Inglaterra

A década de 1990 está de volta à moda e, agora, entra no museu. Faz sentido: mais do que uma trend que passou ligeira pelo seu feed no TikTok ou a estética da série de streaming que evidencia a obsessão americana pelo it-couple da vez, estamos falando do momento em que surgiu a ideia de que arte e a cultura pop influenciam uma à outra, em igual medida – um fluxo criativo ininterrupto até os dias de hoje. Por essa razão, a curadoria de Edward Enninful entende a imagem (capturada por Juergen Teller, Corinne Day e David Sims) como algo tão poderoso quanto as obras de Damien Hirst, Sarah Lucas, Steve McQueen e Yinka Shonibare.
Moda em protagonismo: na mostra, a roupa não se torna mero acessório. Peças de criadores que alcançaram o estrelato no Reino Unido, como John Galliano, Alexander McQueen e Vivienne Westwood, dividirão a cena com o mesmo peso de obras de arte contemporânea.
Quando? De 8 de outubro de 2026 a 14 de fevereiro de 2027.
Irving Penn Photographs, 1939-2007
Centro Della Fotografia, Roma, Itália

O recém-inaugurado Centro della Fotografia, em Roma, abriu os trabalhos com uma retrospectiva de respeito: sete décadas da produção artística de Irving Penn (1917-2009). São 109 tiragens do acervo da Maison Européenne de la Photographie, fruto de décadas de colaboração direta entre o fotógrafo americano, sua fundação e a instituição francesa. O conjunto inclui retratos, naturezas-mortas e imagens de moda que revelam o interesse e o conhecimento profundos de Penn sobre as roupas.
Ponte aérea: a Maison Européenne de la Photographie também prepara uma mostra dedicada ao fotógrafo, batizada de Penn & Fashion, que tem previsão de abertura em outubro de 2026, em Paris.
Quando? De 30 de janeiro a 29 de junho de 2026.
Schiaparelli: Fashion Becomes Art
Victoria & Albert Museum, Londres, Inglaterra

“Criar vestidos, para mim, não é uma profissão, mas uma arte”, escreve Elsa Schiaparelli (1890-1973) na autobiografia A Shocking Life. Para a estilista italiana (e uma das únicas mulheres do núcleo que deu origem ao movimento Surrealista), trabalhar ao lado de artistas como Jean Cocteau, Salvador Dalí, Man Ray, Bébé Bérard, e Hoyningen-Huene foi uma maneira de ir além da “crua e entediante realidade de simplesmente fazer um vestido”. Por isso, essa grande exposição sobre Schiap — como ela gostava de ser chamada — não faz uma pergunta, mas uma afirmação ao se autointitular Schiaparelli: Moda se Torna Arte.
É surreal: estarão à mostra itens avant-garde como o “Skeleton Dress” e o “Tears Dress” (ambos feitos em 1938, em colaboração com Dalí), em um percurso que parte dos anos 1920 rumo às criações contemporâneas de Daniel Roseberry, atual diretor criativo da maison.
Quando? De 28 de março a 8 de novembro de 2026.
Catwalk: The Art of the Fashion Show
Victoria & Albert Museum, Dundee, Escócia

Os desfiles de moda foram de apresentações íntimas nos salões de maisons a espetáculos de apelo global. Se em 2019 Alexander McQueen uniu-se com Nick Knight para a primeira transmissão de desfile live da história (chegou a sair do ar, tamanho o volume de acessos), hoje dá para assistir a um show ao vivo pelo Instagram dentro de um vagão de metrô. O que nunca mudou: o poder absoluto que um desfile detém. “Desfiles de moda são muito mais do que momentos na passarela; são marcos culturais que refletem o espírito de seu tempo, reunindo uma infinidade de disciplinas criativas, como cenografia, iluminação, fotografia, cabelo e maquiagem”, escreve a cocuradora da exposição, Kirsty Hassard.
Backstage pass: a mostra percorre 100 anos de passarelas por meio de vídeos, fotos, peças de desfiles emblemáticos e fragmentos de cenários, criando uma experiência imersiva para o visitante. Um acesso privilegiado para um mundo que, ainda hoje, segue exclusivo.
Quando? De 3 de abril de 2026 a 17 de janeiro de 2027.
*Reportagem publicada na edição 10 da ForbesLife Fashion, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.