1. Início
  2. /
  3. Forbes Life
  4. /
  5. Médico do Sírio-Libanês se Prepara para Dar a Volta Ao Mundo em Regata
Forbes Life

Médico do Sírio-Libanês se Prepara para Dar a Volta Ao Mundo em Regata

José Guilherme Caldas parte neste final de semana e se dividirá até abril de 2026 entre consultas em São Paulo e a disputa da Globe 40, competição de veleiros

8 min

José Guilherme Caldas se desconcentrou por uns instantes. Sentado em um dos consultórios do Hospital Sírio-Libanês, onde é coordenador médico, ele falava sobre os valores gastos na compra do seu mais recente veleiro Classe 40 quando de repente parou a frase pela metade e ficou olhando para a tela do celular. Após alguns segundos em silêncio, retomou: “Desculpa, me distraí um pouco aqui, mas é que acabaram de chegar algumas fotos da França dos testes que fizeram com as velas novas”.

A vida de José Guilherme, de 64 anos (filho de portugueses, nascido em Angola e no Brasil desde a adolescência) tem sido assim, dividida entre a ocupada rotina profissional e a paixão por velejar. Ainda mais agora, que ele está prestes a participar da regata de volta ao mundo Globe 40, comandando o Barco Brasil, único representante do país na segunda edição da travessia – a primeira foi em 2022/2023.

O início da jornada será agora em setembro, em Cádis, na Espanha, e está prevista para terminar somente em abril de 2026, com a chegada em Lorient, na França. Nesse período, os velejadores farão cinco paradas em distintos portos pelo mundo. Primeiro, passarão por Cabo Verde, no Oceano Atlântico. Depois, vão cruzar o Cabo da Boa Esperança para chegar à Ilha da Reunião, no Oceano Índico, antes de seguir rumo a Sydney, na Austrália. Em seguida, atravessarão o Oceano Pacífico até Valparaíso, no Chile, e enfrentarão o desafiador Cabo Horn para contornar o extremo sul das Américas e ir até Recife, no Brasil. E, finalmente, vão navegar com destino ao porto francês de Lorient.

Apenas 10 barcos vão encarar o desafio, todos Classe 40 – daí o nome Globe 40. Oito são da categoria Sharp (com a proa mais pontiaguda e mais lentos) e dois da categoria Scow (proa mais arredondada). “Espero, no mínimo, chegar na frente dos Sharp”, confessa o comandante. “Entre os barcos da mesma geração e categoria, a expectativa é de ganhar”, reforça Carlos Campos Maia, parceiro do comandante na equipe do Barco Brasil (o grupo de atuação mais direta tem 10 pessoas, mas só dois vão a bordo). Entre os favoritos para vencer no geral, está o barco Credit Mutuel, do velejador francês Ian Lipinski.

DivulgaçãoRegata ao redor da terra, a Globe 40 terá pela primeira vez a participação de um barco brasileiro, liderado por José Guilherme Caldas

Entre barco e hospital

Em cada uma das cinco paradas da competição, o neurorradiologista José Guilherme vai enfrentar outra corrida. Ele aproveitará as curtas pausas para voltar ao Brasil por períodos de uma semana, para atender pacientes no Sírio-Libanês, em São Paulo. “Essa é a minha pretensão. Mas, se tiver qualquer problema na prova, se a gente demorar mais do que o esperado em alguma das pernas, minha semana no Brasil vai ficar comprometida. E já tenho todos os pacientes agendados, tudo certinho.”

A história não foi muito diferente com seu paciente presidencial. José Guilherme tinha acabado de chegar da Espanha, onde estava fazendo uma travessia obrigatória de qualificação para a Globe 40, quando recebeu um telefonema avisando que o presidente Lula estava embarcando de Brasília para São Paulo para fazer um procedimento cirúrgico. Precisava tratar um hematoma na parte de trás da cabeça, resultado de uma queda – e ele seria um dos médicos responsáveis.

Nada que ele já não esteja acostumado nessa vida entre mar e hospital. “Uma vez eu estava participando da Semana Internacional de Vela de Ilhabela e mandaram um helicóptero me buscar para eu ver um paciente em São Paulo. Fui e voltei no mesmo dia para continuar na competição.” Agora, com o avanço da tecnologia, José Guilherme não deixa de ser médico nem mesmo quando está velejando. Em julho deste ano, quando estava na Irlanda se preparando para participar da Rolex Fastnet Race, uma das regatas mais importantes do mundo, ele precisou se conectar para ver um procedimento médico. “No dia antes da largada, tive que acompanhar uma cirurgia, de dentro do barco”, conta. “Culpa do Elon Musk”, ele brinca. “Com a internet da Starlink, consigo fazer quase tudo de dentro do barco. Faço consulta, vejo exames… é incrível.”

O número 151

Enquanto ajusta os últimos detalhes para sair para o mar com o seu veleiro Bavaria 55, atracado no Yacht Club de Ilhabela, José Guilherme fala sobre o barco Classe 40 que usará na volta ao mundo. “Eles foram bolados para serem rápidos, resistentes e para tripulações pequenas”, ensina. “Cada Classe 40 produzido recebe um número. Existem aproximadamente 211 no mundo – somente um está aqui no Brasil. O meu que está na França é o 151, feito pelo estaleiro francês JPS Production.”

Para comprar o barco, José Guilherme investiu aproximadamente 450 mil euros. Precisou refazer três velas, o que custou US$ 70 mil. E, além disso, ele estima que vai precisar de outros US$ 350 mil para a logística da volta ao mundo. Por enquanto, todo esse investimento sai do próprio bolso, mas ele espera conseguir um patrocínio em breve.

DivulgaçãoBarco Brasil Classe 40, que participa da regata deste ano

Para ajudar com toda a logística da prova e com a organização financeira, José Guilherme conta com o apoio de Carlos Eduardo de Campos Maia, experiente velejador e um dos fundadores da Semana Internacional de Vela de Ilhabela no início dos anos 1970. “Começamos a preparar o barco e a estratégia para a competição no começo do ano passado”, ele diz. “Cada detalhe tem que ser calculado. O barco é espartano, principalmente porque o peso é muito importante. Se alguém quiser levar uma caneta a bordo, vai ter que justificar.”

A fala não é tão exagerada. Na parte interna, não existe banheiro nem cama. Para dormir, José e Luiz Bolina, paulistano de 60 anos – o co-skipper, que também estará a bordo na volta ao mundo – se revezarão em pequenas macas, em etapas que podem durar até 30 dias no mar.

A comida para manter os velejadores durante tantos dias na água também precisa ser muito bem pensada. De dentro do veleiro Bavaria 55, em Ilhabela, José Guilherme mostra a tela de seu laptop. “Esse aqui é um site de comida liofilizada na França”, diz. “Estava bem agora comprando o que vamos levar na volta ao mundo. Sei mais ou menos quantas calorias preciso por dia, então compro a quantidade exata. No barco, já fica tudo separado e organizado por dia, de acordo com o aporte calórico.”

Na parte tecnológica, o barco conta com equipamentos que medem em tempo real as condições meteorológicas e de mar para sugerir as melhores rotas e até mesmo as velas que devem ser usadas para alcançar a velocidade máxima em cada situação. “Estou experimentando um software sofisticado de otimização de rota de navegação chamado Adrena Pro. Ele usa modelos matemáticos para dar sugestões para melhorar a performance do barco de acordo com as condições do momento”, conta José. “Mas o que ele recomenda não é definitivo. Nós, seres humanos, temos que ter a sensibilidade para tomar a decisão final do que fazer. Se você for ver, é muito parecido com a medicina. Interessante, não?”

Crioula domina Semana de Vela de Ilhabela

Marivaldo OliveiraO percurso de 30 mil milhas que será navegado entre setembro deste ano e abril de 2026

A preparação para a regata de volta ao mundo Globe 40 impediu que José Guilherme, Carlos Campos Maia e Luiz Bolina participassem este ano do maior encontro da vela oceânica na América Latina, a Semana Internacional de Vela de Ilhabela Daycoval (SIVI), em julho. Participantes frequentes do evento nacional, os três estiveram juntos na Europa competindo na Rolex Fastnet Race.

Por aqui, a SIVI reuniu 120 veleiros e contou com a participação de atletas olímpicos como Robert Scheidt, Lars Grael, Samuel Albrecht e Alex Welter. O destaque do evento ficou com o barco Crioula, um TP52 que ganhou o tricampeonato na classe ORC Geral. O veleiro de 52 pés comandado por Eduardo Plass teve Samuel Albrecht como tático e venceu 6 das 8 regatas da classe. “Já estamos há três ou quatro anos com os TP52, e a ideia agora é ir para fora disputar com um pessoal ainda mais qualificado”, diz Eduardo.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.