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Choque do Petróleo Provocado Pela Guerra com Irã Acelera Demanda por Rebocadores Elétricos

A Arc Marine começou vendendo barcos elétricos de luxo. Agora, com o conflito, a empresa mira o mercado de rebocadores e embarcações militares movidos a bateria

7 min

Os próximos veículos elétricos de destaque talvez não tenham portas estilo asa de gaivota, modo de condução autônoma ou capacidade de fornecer energia de reserva para uma residência. Eles podem ser rebocadores de 24 metros de comprimento, com altura equivalente a quase quatro andares, projetados para movimentar enormes navios cargueiros no Porto de Long Beach.

Essa é a aposta da Arc Marine. A startup de Los Angeles, cofundada pelo engenheiro de software Mitch Lee e pelo ex-projetista de foguetes da SpaceX Ryan Cook, lançou seu negócio de embarcações elétricas mirando o mercado de barcos de luxo, vendendo modelos elegantes e velozes por US$ 300 mil (R$ 1,51 milhão) para consumidores de alta renda.

Agora, com os preços do petróleo em níveis historicamente elevados, a empresa está avançando para o segmento marítimo comercial com rebocadores elétricos movidos a bateria avaliados em US$ 20 milhões (R$ 100,6 milhões), capazes de conduzir gigantescos navios cargueiros para terminais portuários.

Trata-se de uma mudança estratégica e oportuna, saindo de embarcações recreativas sofisticadas para máquinas industriais submetidas a ciclos de operação intensos, altos custos de combustível e crescente pressão regulatória.

Revolução elétrica dos portos

As primeiras embarcações comerciais da Arc, construídas em um estaleiro na região de Seattle, já estão se aproximando da fase de validação operacional. Sua tecnologia está sendo utilizada para equipar os primeiros rebocadores elétricos do mundo, que entrarão em operação no Porto de Long Beach por meio de um contrato de US$ 160 milhões (R$ 804,8 milhões), anunciado no fim de 2025.

Caso o desempenho corresponda às expectativas da Arc e de sua cliente inicial, a Curtin Maritime, a companhia pretende expandir para balsas elétricas, barcaças e até embarcações militares, afirmou Cook à Forbes.

“Temos uma forte convicção de que, nos próximos 10 a 15 anos, todos os segmentos da indústria marítima serão predominantemente elétricos”, disse. “Isso pode significar modelos híbridos, como sistemas diesel-elétricos, mas o fato é que a eletricidade é muito mais eficiente e econômica para movimentar cargas extremamente pesadas”.

Os automóveis ainda dominam as discussões sobre eletrificação, mesmo com a demanda por veículos elétricos nos Estados Unidos tendo desacelerado desde que o governo Trump eliminou os créditos tributários de US$ 7.500 (R$ 37.725) que ajudavam a compensar os preços mais elevados desses veículos. Ainda assim, outros segmentos de transporte começam a se eletrificar.

A Tesla iniciou a produção regular do aguardado caminhão elétrico Semi, tendo a Califórnia como seu primeiro grande mercado, apoiado por generosos incentivos estaduais. Por isso, não surpreende que os rebocadores elétricos também estejam sendo implementados inicialmente na Califórnia, onde rígidas normas ambientais pressionam operadores portuários, especialmente em Los Angeles e Long Beach, a reduzir as emissões provenientes de embarcações movidas a diesel e óleo combustível marítimo.

Petróleo caro, baterias em alta

A guerra com o Irã transformou os custos de combustível em uma questão central. O preço do diesel aumentou em torno de 50% desde o início do conflito, há três meses. Isso fortaleceu os argumentos econômicos em favor da tecnologia da Arc em um setor marítimo altamente fragmentado.

Afinal, por que permanecer exposto à volatilidade dos combustíveis quando é possível utilizar baterias de fosfato de ferro-lítio, que se tornam mais baratas ao longo do tempo?

“Com a volatilidade dos preços dos combustíveis — somada ao fato de já estarmos trabalhando no projeto da Curtin —, o interesse que temos visto no lado comercial cresceu exponencialmente nos últimos meses”, afirmou Cook. “Estamos participando de licitações e mantendo conversas com operadores de balsas, barcaças e praticamente qualquer tipo de embarcação. Estamos recebendo uma enxurrada de consultas para avaliar como podemos eletrificar ou hibridizar operações.”

As embarcações desenvolvidas para a Curtin são maiores do que os barcos esportivos da Arc. Elas possuem 24 metros de comprimento, quase quatro andares de altura e serão capazes de rebocar cargas de até 100 toneladas. Os primeiros modelos contarão com baterias de 6 megawatts-hora — o equivalente à capacidade de aproximadamente 75 SUVs Tesla Model Y — para alimentar um sistema de propulsão de 4 mil cavalos de potência.

Quem vai financiar a mudança?

A Arc, que captou aproximadamente US$ 150 milhões (R$ 754,5 milhões) desde sua fundação em 2021, fornece mais do que apenas baterias. A empresa também desenvolve o sistema de gerenciamento das baterias e todo o software operacional, oferecendo o que considera ser o único sistema completo de eletrificação da indústria marítima.

Isso é relevante no segmento comercial, onde a integração não é apenas um diferencial, mas parte do negócio. Os rebocadores desempenham um papel crítico nas operações portuárias, particularmente no sul da Califórnia, região responsável pelo maior volume de carga importada da América do Norte.

Martin Curtin, CEO da Curtin Maritime e capitão de rebocadores, buscava há anos uma forma de eletrificar sua frota para atender às exigências ambientais da Califórnia. Mas, até encontrar a Arc, as alternativas eram limitadas.

“Existem pouquíssimas opções de baterias e integração para o mercado comercial”, disse à Forbes. “Há empresas que fornecem baterias, mas não cuidam da integração, e isso é bastante complicado para nós. Quando decidimos desenvolver o programa de rebocadores elétricos, sabíamos que queríamos uma integração vertical completa, desde o planejamento inicial até o projeto, a construção e a operação final.”

O desafio, porém, não é apenas tecnológico. Também envolve recursos financeiros. A Califórnia não oferece para embarcações comerciais os mesmos incentivos generosos disponíveis para frotas de caminhões pesados que desejam migrar para modelos elétricos mais limpos.

“Esperávamos uma adesão muito maior do que a que tivemos até agora. Estamos aguardando pacientemente que o mercado acompanhe essa evolução, ou pelo menos que a Califórnia consiga apoiar aquilo que está exigindo”, afirmou Curtin. “Vimos isso acontecer na indústria de caminhões, mas, para a construção de novos rebocadores, ainda não observamos o volume de financiamento necessário para impulsionar esse mercado.”

Mesmo assim, Curtin acredita que os rebocadores elétricos se encaixam na realidade de Long Beach. O trabalho portuário é intenso, mas ocorre em uma área limitada, facilitando o carregamento das baterias em comparação com embarcações que passam dias navegando em mar aberto.

“Quando analisamos as demandas operacionais, a manutenção e todos os componentes envolvidos, acreditamos que utilizar sistemas elétricos e armazenamento de energia em baterias é uma solução muito mais simples e muito mais econômica.”

A aposta, contudo, continua sendo exatamente isso: uma aposta. As primeiras embarcações são caras, construídas sob encomenda e chegam a uma indústria em que os equipamentos costumam permanecer em operação por 40 a 50 anos. Demonstrar a vantagem econômica da eletrificação levará tempo.

“Acho que, no longo prazo, vai funcionar. Estamos construindo os primeiros barcos, então o tempo dirá, mas estou disposto a apostar US$ 160 milhões (R$ 804,8 milhões) nisso”, disse Curtin.

O mercado de rebocadores não é grande. Segundo Curtin, apenas algumas dezenas de novas unidades entram em operação a cada ano. Isso ocorre porque essas embarcações normalmente permanecem em serviço por quatro ou cinco décadas. Ainda assim, são projetos personalizados, construídos sob medida e com valores elevados, como os modelos de US$ 20 milhões (R$ 100,6 milhões) fornecidos pela Arc.

“Se eu estivesse no lugar da Arc, estaria focado no mercado comercial, e acredito que eles estão fazendo exatamente isso. Esse mercado é gigantesco”, afirmou. “Quando você encontra a fórmula certa para os sistemas de propulsão marítima comercial nos Estados Unidos, o potencial de crescimento é enorme.”

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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