Como preservar o otimismo, a esperança e também o desejo em tempos de guerra? O diretor criativo da casa italiana, Alessandro Michele, recorreu ao cineasta e poeta Pier Paolo Pasolini para falar sobre esse assunto no desfile da Valentino para o verão 2026. Convém começar explicando o cenário, que ajuda a contar a história.
A passarela central tinha luzes penduradas, como um enxame de vaga-lumes em movimento. Os vaga-lumes são os insetos citados em uma carta de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, enviada por Pasolini a um amigo de infância, em que ele reflete sobre como o desejo se mantém mesmo em tempos tão duros, e relata como invejou o voo amoroso e iluminado desses insetos na noite escura.
Nas roupas, isso se traduziu em cores fortes, como um elemento statement, seja em look total, seja quebrando o preto, ou o branco. É o que está fora da ordem, o respiro no cotidiano, a alegria e também a busca da beleza como forma de resistir ao peso dos acontecimentos. As roupas têm brilhos, drapeados, transparências, rendas. Saias-lápis com camisas de mangas bufantes e laços, vestidos festivos, tecidos acetinados, paletós bem cortados vão deixar as mulheres muito bem vestidas – é como se a gente precisasse se arrumar para esperar por tempos melhores, que virão.
A proposta de Michele é exercitar a habilidade de desarmar o olho para enxergar a beleza. E a moda não é uma ótima ferramenta para isso? Foi um desfile poético e intenso, que mexeu com a plateia. Na prática, foi também um desfile de roupas desejáveis. Vai marcar a temporada.
Com Antonia Petta e Milene Chaves
Donata Meirelles é consultora de estilo e atua há 30 anos no mundo da moda e do lifestyle.
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