Adoro o mar! Uma amiga dos meus dias embalados por Rita Lee e rock’n’roll se jogou em uma aventura naquele final de era hippie de paz e amor. Embarcou em um catamarã com uma turma e velejaram do Rio à Martinica, no Caribe. Uma das razões que mergulhei na arte é a atração que sempre senti por ideias arrojadas.
Em uma bonita tarde em Paris, Xavier Veilhan, me revelou o projeto para sua individual em São Paulo: montar seu estúdio no catamarã oceânico de 60 pés, We Explore, pilotado por seu amigo, o premiado velejador Roland Jourdain, e produzir todas as obras da exposição em nossa galeria durante a travessia no Atlântico. Como Veilhan é ambientalista ainda fez parcerias com a Fondation Explore e o Musée National d’Histoire Naturelle, em Paris, que enviou o oceanógrafo, Matthias Colin, para coletar amostras de plâncton marinho. Também na equipe, o capitão assistente Denis Juhel, o filho do artista, Antoine Veilhan, especializado em marcenaria náutica, e a assistente de escultura, Carmen Panfiloff.
O We Explore partiu de Concarneau, na Bretanha, em 5 de outubro, e aportou em Santos, em 30 de outubro, percorrendo em 25 dias 4.999 milhas náuticas, o equivalente a 9.260 km. Durante a travessia, o artista e sua equipe desenvolveram as esculturas da individual “Xavier Veilhan: Do Vento” em compensado naval e embuia, com equipamentos de marcenaria sem uso de energia elétrica. O projeto pioneiro quebrou barreiras pelo escopo ao reunir arte, ciência e navegação, e ainda abre front para novos debates e possibilidades.
Veilhan é conhecido na Europa por suas esculturas, instalações na Bienal de Veneza e no Palácio de Versailles, e suas colaborações com a Chanel, todas baseadas na questão que move sua obra: a relação entre a segunda e a terceira dimensões. Imaginando o projeto no ateliê flutuante durante a velejada, pensei no fascínio dos franceses pelo mar.

Foi o mestre Claude Monet, já sinalizando o caminho para a abstração na pintura, quem mais retratou meios aquosos até se retirar em sua idílica Giverny, onde produziu a antológica série de 250 pinturas sobre os lírios d’água no lago de seu jardim para solucionar o desafio central do Impressionismo, pintar a luz. Na aurora do século 20, inspirado na obra do amigo pintor, Debussy compôs “La Mer”, com suas imagens sonoras vívidas do mar, que introduziu o movimento impressionista musical. E como não mencionar a outra “La Mer” francesa, a canção de Charles Trenet, composta no pós-guerra, regravada no doce sotaque de Caetano?
E o poeta maldito, o simbolista Rimbaud? Ah! Rimbaud! Nosso Leminski, poeta maldito dos trópicos que também se foi cedo demais, dizia que ele seria um roqueiro tivesse o belo enfant terrible vivido em nossos dias. O fascinante francês, que enlouqueceu Verlaine, e bravamente não escondia a homossexualidade, prenunciou o surrealismo nos versos embriagantes de “O Barco Bêbado”, ou melhor, “Le Bateau Ivre”, traduzido por Augusto de Campos:
“Ah! se as crianças vissem o dourar das ondas,
Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes…
– As espumas em flor ninaram minhas rondas
E as brisas da ilusão me alaram por instantes”.

Que os bons ventos tragam mares de ideias a Xavier Veilhan! Mergulhemos em suas palavras enviadas por email durante a travessia de volta à França:
La mer. O mar.
“Tudo o que se move na água sem motor me interessa”.
Paris/Estocolmo
“Há um ano fizemos Paris/Estocolmo, saindo da Alemanha, levando obras que criamos a bordo. A travessia durou cinco dias. Mas, agora, no We Explore, foi bem melhor, o catamarã tem mais espaço e tivemos mais conforto para trabalhar”.
Travessia atlântica – We Explore
“Nos 25 dias em alto mar houve momentos em que pudemos trabalhar, outros em que era impossível com o mar muito agitado”.

Chegada no Porto de Santos
“Chegamos em Santos atrasados com a produção de alguns objetos, mas terminamos tudo em terra, já em São Paulo. Finalizar em terra, confesso, ajudou bastante”.
Oceano Atlântico – espécies marinhas
“Dizem que Cristovão Colombo avistou três sereias quando cruzou os mares, não vimos nenhuma sereia, nem monstros marítimos, mas vimos golfinhos, baleias, peixes voadores, alguns animais bem grandes, três tubarões gigantescos, até morcego! Às vezes seguiam o barco dias seguidos. Muitas vezes não conseguimos identificar a espécie. Também vimos albatrozes, atobás, robalo, tubarão-martelo. Quanto a barcos houve dias em que não avistamos nenhum”.
O trabalho do artista
“Colocar em prática ideias que tantas vezes me passaram pela cabeça, que me pareciam impossíveis, e realizá-las foi o maior sucesso da travessia. Claro, tivemos de fazer escolhas, algumas até bem radicais. Mas o importante foi colocar as ideias em prática. É nisso que consiste o trabalho do artista: realizar coisas movidas pela imaginação”.

“Xavier Veilhan: Do Vento”
Até 20 de dezembro de 2025
Galeria Nara Roesler, São Paulo
Com colaboração de Cynthia Garcia, historiadora de arte, premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) [email protected]
Nara Roesler fundou a Galeria Nara Roesler em 1989. Com a sociedade de seus filhos Alexandre e Daniel, a galeria em São Paulo, uma das mais expressivas do mercado, ampliou a atuação inaugurando filial no Rio de Janeiro, em 2014, e no ano seguinte em Nova York.
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Instagram: @galerianararoesler
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