Quando vi a seleção de obras proposta por Agnaldo Farias para “O fascínio e o afeto”, percebi que a exposição falava menos sobre uma trajetória profissional e mais sobre as relações humanas que a sustentaram. Era como ver, reunidas em um mesmo espaço, as pessoas com quem construí não apenas projetos, mas intimidade e memória.
Cada obra tem por trás a vida do artista, conta uma história. Ao longo dos meus 50 anos trabalhando com arte, percebo que representar artistas nunca foi apenas um trabalho para mim, mas sim escuta, cuidado e amizade. Sou movida a afeto. A galeria é minha casa. Gosto da troca, da construção contínua feita junto.

“O fascínio e o afeto”, em cartaz na galeria de São Paulo, é a segunda deste ciclo comemorativo dos meus 50 anos de trajetória. Agnaldo Farias é um dos curadores com quem mais trabalhei na vida e também um amigo de décadas, então tudo faz muito sentido. É uma curadoria que nasce de convivência, interlocução e acompanhamento contínuo das trajetórias de artistas como Abraham Palatnik, Amelia Toledo, Artur Lescher, Brígida Baltar, Julio Le Parc, Tomie Ohtake, Rodolpho Parigi, Vik Muniz e José Cláudio da Silva.
Logo na entrada da exposição está um retrato meu pintado por José Cláudio em 1979, justamente o artista que me despertou a vontade de ser galerista. Foi aos 23 anos que comecei a mostrar seus quadros na minha própria casa, convidando pessoas para vê-los. Percebi cedo que só sei apresentar aquilo que me encanta profundamente. Acho que é justamente desse encantamento que nasce a capacidade de encantar o olhar do outro.

José Cláudio foi fundamental para que eu entendesse algo que me acompanha até hoje: representar um artista não é apenas organizar exposições ou aproximar obras de colecionadores. É acreditar e encantar-se com uma visão de mundo e desejar compartilhá-la.
E foi assim que Tomie Ohtake e Amelia Toledo, por exemplo, se tornaram minhas amigas queridas. Conviver com artistas durante tantos anos significa acompanhar não apenas seus grandes momentos públicos, mas também as dúvidas, os impasses, os períodos de reinvenção, os entusiasmos inesperados e até os silêncios.
Penso que existe algo muito particular no vínculo entre artistas e galeristas quando ele é construído ao longo de décadas. Há uma camada de confiança que não se estabelece rapidamente. É preciso tempo, presença e escuta. Muitas vezes, o trabalho do galerista é também perceber caminhos antes mesmo que eles estejam completamente claros para o próprio artista.
Há uma frase do Agnaldo no texto da exposição que fala em acompanhar “êxitos e impasses, certezas desmontadas, desalentos e descobertas magníficas”. É uma síntese precisa do que vivi ao longo desses anos. Porque trabalhar com arte nunca foi apenas lidar com obras — foi lidar com pessoas extremamente sensíveis, complexas, intensas e profundamente comprometidas com suas visões.
Essas relações também me ensinaram sobre o tempo. Quando se convive durante tanto tempo com um artista, a passagem do tempo ganha outra espessura. Não se acompanha apenas uma carreira; acompanha-se uma vida. Escrevo este texto atravessada pelo luto. Julio Le Parc nos deixou recentemente. Conheci Julio pessoalmente em 1999 e construímos, ao longo dos anos, uma relação de enorme admiração e afeto.
E talvez seja justamente isso que esta exposição revela para mim com mais força: ao final de tantas décadas, o que permanece não são apenas as obras, as exposições ou os projetos realizados. O que permanece são os vínculos construídos no tempo. Minha prática como galerista nasceu do fascínio, mas é sustentada pelo afeto.
Nara Roesler fundou a Galeria Nara Roesler em 1989. Com a sociedade de seus filhos Alexandre e Daniel, a galeria em São Paulo, uma das mais expressivas do mercado, ampliou a atuação inaugurando filial no Rio de Janeiro, em 2014, e no ano seguinte em Nova York.
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