Em tempos em que o noticiário ambiental costuma ser dominado por urgências, tragédias e protestos, o Earthshot Prize 2025, realizado no último domingo no Museu do Amanhã, trouxe algo raro: um sopro coletivo de esperança. Criado por Sua Alteza Real, o Príncipe William, o prêmio que hoje é considerado o mais prestigioso e transformador reconhecimento ambiental do mundo fez do Rio o epicentro global de uma nova linguagem: a do otimismo como força de ação.
Mais do que uma cerimônia, foi uma celebração do que já está dando certo – uma mudança de tom essencial num mundo que precisa voltar a acreditar na capacidade humana de criar soluções. A esperança, quando bem aplicada, pode se tornar uma estratégia poderosa.
Em poucos dias no Brasil, Príncipe William demonstrou em cada gesto a mesma coerência entre discurso e ação que sustenta o projeto desde sua criação. Sua agenda cuidadosamente planejada incluiu encontros com lideranças indígenas, visitas a pontos históricos do Rio e experiências genuinamente locais. Nada parecia protocolar. Tudo foi pensado para gerar conexão real.
“Buscamos enfrentar os desafios ambientais de frente e promover mudanças reais e duradouras que protejam a vida na Terra”, declarou o príncipe. “O trabalho desses inovadores é a prova de que o progresso é possível.”
Na noite anterior à cerimônia, um espetáculo silencioso e deslumbrante tomou conta do céu carioca. Em parceria com a Eleven Eleven Foundation, um show de drones iluminou a orla de Ipanema, mais precisamente em frente ao Hotel Fasano, onde aconteceu um coquetel intimista para os founding partners e conselheiros do Earthshot (entre eles, o brasileiro Eduardo Mofarrej).
No céu, os drones desenharam com precisão impressionante o logotipo do prêmio, os símbolos de cada uma das cinco categorias (os cinco Earthshots) e uma mensagem que sintetizou o espírito da semana: “Urgência + Otimismo = Ação.”
Foi um prelúdio poético e tecnológico que antecipou o tom das próximas 24 horas. Na quarta-feira, o palco do Museu do Amanhã, à beira da Baía de Guanabara, se transformou em símbolo de um novo diálogo entre ciência, cultura e propósito. Sob a condução de Luciano Huck, a cerimônia reuniu líderes globais, artistas, cientistas e inovadores que vêm provando, com resultados concretos, que é possível restaurar o planeta.
A sequência musical foi um espetáculo à parte. Gilberto Gil emocionou o público ao cantar Garota de Ipanema, acompanhado por Anitta, que logo emendou uma performance vibrante de Girl From Rio. Em seguida, Shawn Mendes, apenas com voz e violão, trouxe uma interpretação intimista de Youth. Mas foi Seu Jorge quem protagonizou um dos momentos mais arrebatadores da noite: sua versão poética e inesquecível de Heroes, de David Bowie, transformou o museu em um templo de esperança. A interpretação, ao mesmo tempo contida e poderosa, ecoou como um tributo aos finalistas do prêmio – os verdadeiros heróis do nosso tempo.
Após um discurso poderoso do Príncipe William, que destacou a importância do otimismo como ferramenta de transformação: “o progresso é possível e começa com a crença de que podemos mudar”, afirmou. Kylie Minogue encerrou a cerimônia em clima de festa com seu hit dançante La La La (Can’t Get You Out of My Head), preparando os cerca de 300 convidados mais seletos para o after party da Uber na Ilha Fiscal, um cenário cinematográfico à altura do espírito vibrante da noite.
Confira imagens dos presentes no evento:
Os vencedores de 2025: soluções que inspiram o mundo
Selecionados entre quase 2.500 indicações de 72 países, os cinco vencedores de 2025 representam o que há de mais inovador em ação climática global:
- Proteger e Restaurar a Natureza: re.green (Brasil)
- Purificar o Ar: Cidade de Bogotá (Colômbia)
- Reviver os Oceanos: The High Seas Treaty (Global)
- Construir um Mundo sem Desperdício: Lagos Fashion Week (Nigéria)
- Combater a Crise Climática: Friendship (Bangladesh)
Entre eles, o orgulho brasileiro: re.green, uma startup carioca que está transformando a restauração florestal em um novo setor econômico sustentável. Com sede no Rio, a empresa combina inteligência artificial, dados ecológicos e impacto social para restaurar florestas tropicais em escala industrial. Já atua em 30 mil hectares e planeja chegar a 1 milhão até 2040.
“Por séculos, construímos progresso destruindo a natureza. Agora é hora de reconstruir a própria natureza como base do nosso futuro”, afirmou o CEO Thiago Picolo, ao receber o prêmio.
Houve também simbolismo em realizar a cerimônia no Rio, cidade que, em 1992, foi palco da Eco-92, a conferência que moldou as bases da diplomacia climática moderna. Trinta e três anos depois, o Prêmio Earthshot trouxe o clima de volta “para casa”, como destacou Christiana Figueres, presidente do Conselho do prêmio e arquiteta do Acordo de Paris:
“O espírito de ação coletiva nascido aqui no Rio continua mais forte, determinado e urgente do que nunca.”
O que torna o Earthshot tão relevante é o que ele não é: não é uma conferência de alerta, nem um protesto. É uma convocação à esperança ativa, à ideia de que celebrar conquistas também move o mundo.
E talvez esse seja o maior impacto do Earthshot: mostrar que otimismo e pragmatismo não são opostos, mas sim aliados poderosos.
Atualmente radicada em Miami, a carioca Paula Bezerra de Mello é empresária e relações públicas. Com a Ello Agency, ela lidera conexões entre a indústria de entretenimento global e empresas e iniciativas sociais no Brasil.
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.