Com a lua cheia refletida no rio e velas e lamparinas dispostas ao redor da piscina e também nos jardins, um gongo tibetano sinalizava que a meditação noturna ao ar livre estava encerrada. Sob o luar intenso e um céu extremamente estrelado, subi em silêncio as escadarias centenárias em direção à casa principal, pronta para mergulhar em minha enorme cama – sabia que não haveria jet lag capaz de vencer o estado de profunda tranquilidade que eu tinha acabado de conquistar.
Rodeado por vinhedos, bosques centenários, montanhas e com o mais famoso rio português logo à frente, o Six Senses Douro Valley se converteu em um dos mais disputados hotspots para viajantes em busca de natureza e bem-estar.
Seu impressionante spa, de 4 mil metros quadrados, já dá conta do que o hóspede vai encontrar pela frente durante a estadia. Foi bem ali, na primeira construção europeia do grupo asiático Six Senses, que nasceu o conceito Alchemy Bar, hoje um grande case de sucesso aplicado em diversas outras propriedades da marca. É no Alchemy Bar que são produzidos diversos produtos utilizados no spa – e onde acontecem workshops nos quais os hóspedes aprendem a preparar esfoliantes, balms, óleos e outros cosméticos 100% naturais, geralmente criados com ingredientes colhidos nos jardins do local.
Ocupando um palacete do século 19 em uma bela quinta do século 15 de oito hectares, o hotel está rodeado por morros, bosques e vinhedos que descem sinuosamente até o Douro. Luxuoso e sustentável, ali os interiores minimalistas são também contemporâneos – mas sem abrir mão dos muitos elementos que valorizam a história da propriedade, incluindo obras de arte feitas com materiais antigos reciclados, de ferramentas convertidas em murais a luminárias produzidas com garrafas antigas de vinho do Porto.
Além dos quartos e suítes (71 no total, e repletos de mimos, como minibar incluído nas diárias) espalhados pela casa principal e pela área mais recente anexa, o hotel acaba de lançar exclusivas villas no edifício que já foi o armazém de vinhos da propriedade – algumas com jardins e piscinas privativas –, perfeitas para quem busca exclusividade, desconexão e anonimato completos.

Bolha de bem-estar
Aliando bem-estar ao prazer das coisas boas da vida e à natureza, o hotel funciona como uma espécie de wellness bubble à moda portuguesa: embora esteja em Lamego, um dos mais antigos vilarejos portugueses, e possamos dali avistar ao longe a cidade de Salgueiral, no Six Senses Douro Valley a gente realmente tem, o tempo todo, a sensação de estar em um lugar remoto e isolado – e assolado por beleza natural.
Nos milhares de metros quadrados do spa, que é puro deleite para corpo e alma, há uma ampla piscina interior com percurso aquático, jatos e banheiras de hidromassagem. Anexa, uma “Vitality Suite” com uma sucessão de salas de aromaterapia, hammam e saunas de todo o tipo – incluindo uma finlandesa com vista para os bosques e vinhedos.
A arquitetura e o décor se esforçam o tempo todo para trazer a natureza “para dentro” do spa, incluindo imensos jardins verticais, muitas plantas e flores, além de enormes janelas com vista para os arredores do hotel – inclusive das salas de tratamento.
Parte da produção do imenso jardim orgânico da propriedade (incluindo ervas, verduras, frutas, sementes) é a base para muitos dos tratamentos, rituais, massagens e terapias oferecidos. E, claro, estando em meio a uma das mais importantes regiões vinícolas do mundo, até uvas e vinhos se convertem em ingredientes para alguns deles.
No programa de atividades diárias, há aulas de yoga, tai chi, respiração, meditação e diversas outras práticas de wellness. Experimentar a cada dia pelo menos uma delas é um prazer imenso – e, por vezes, tão acostumados que estamos a pensar em mil coisas ao mesmo tempo, um gigante desafio pessoal.

O spa oferece ainda abrangentes programas personalizados de bem-estar, geralmente focados em equilíbrio físico e mental, qualidade do sono e envelhecimento saudável. E tem sua própria artista residente promovendo divertidos workshops de pintura de azulejos portugueses. Os azulejos pintados durante a atividade extremamente descontraída e relaxante são levados ao forno durante a madrugada e entregues com todo o capricho aos participantes no dia seguinte.
E, como a harmonia física nos leva ao bem-estar mental, a propriedade, com cenários de beleza natural singulares, oferece diversas rotas de caminhada, quadra de tênis, uma enorme academia, caiaque e SUP no Douro e empréstimo de bicicletas elétricas, entre outras atividades.
A idílica e enorme piscina externa, com borda infinita e vista panorâmica para os vinhedos e o Douro, está rodeada de flores e perfumadas árvores frutíferas – e é imperdível em qualquer estação, ganhando aquecimento nos meses mais frios.

O prazer da boa mesa
Com tanto relax e opções para exercitar o corpo, nada mais natural que a gastronomia fosse também um dos mais importantes pilares do Six Senses Douro Valley. Tudo ali é focado no mais orgânico possível, e no mais local e sazonal. Priorizando o consumo responsável, a água mineral oferecida, com e sem gás, é captada ali mesmo, e muitos ingredientes da cozinha são provenientes de pequenos produtores do vale.
O hotel possui distintos restaurantes, cada qual com menu, chef e proposta culinária diferente. Alguns deles são sazonais, para que ambientes e cozinha se adaptem sem problemas às distintas estações do ano e às preferências dos hóspedes. Os invernos não costumam ser rigorosos por ali, mas é nos meses mais quentes que a variedade de espaços para comer e ser feliz ao ar livre se intensifica – inclusive à noite, com inesquecíveis jantares à luz da lua, velas e bucólicas lamparinas.

Muitos dos pratos servidos têm como base ingredientes colhidos no mesmo dia, diretamente da espetacular horta orgânica do hotel. Para o hóspede, cada opção é um deleite distinto, uma nova explosão de sabores – a gente passa tranquilamente uma semana inteira ali sem o menor risco de se entediar gastronomicamente.
Em comum, todos os menus da casa procuram fazer uma grande imersão na culinária portuguesa e, sobretudo, regional; e sempre com pratos muito saborosos e leves – afinal, o equilíbrio em tudo, como eles mesmos pregam, é a chave para o sucesso. Mas, é claro, os paladares menos abertos a experimentações vão encontrar sempre opções de pratos internacionais.
E é preciso dar destaque especial ao café da manhã – sem dúvidas, um dos melhores e mais completos que já experimentei. Servido até tarde tanto no restaurante Vale de Abrão quanto no adorável terraço debruçado sobre a piscina, os jardins e os vinhedos, é a refeição mais esperada do dia pela maioria dos hóspedes – e oferece um extenso menu à la carte que muda diariamente.
Algumas das delícias especiais do dia são entregues diretamente à nossa mesa assim que sentamos; outras, como ovos e outros tantos pratos quentes, escolhemos quando desejarmos. Spoiler: a grande sacada é aproveitar que o menu muda todos os dias para tentar provar o máximo de pratos – e sucos! – diferentes que puder ao longo da estadia.
Você é do tipo que não abre mão de buffet? Calma, que eles pensaram nisso também. Todos os dias, é montado um enorme buffet com diversas estações diferentes na cozinha aberta do restaurante, com todas as frutas, pães, bolos, saladas e tortas que você possa imaginar – inclusive pastéis de nata quentinhos, é claro!

Entre taças e vinhedos
O Vale do Douro, em Portugal, é uma das regiões vinícolas mais conhecidas e prestigiosas do mundo. Para muitos estudiosos, é oficialmente a mais antiga, demarcada ainda em 1756, época em que o vinho do Porto já era produzido em grandes escalas.
Mas foi somente após a região ser declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, em 2001, que o enoturismo começou a se desenvolver por ali e que os grandes vinhos DOC Douro começaram a ser de fato produzidos. Hoje, qualquer visita mais atenta às suas vinícolas nos revela interessantes diferenças e contrastes entre as produções de suas próprias microrregiões – Cima Corgo, Baixo Corgo e Douro Superior.
Para harmonizar com tantas opções dia e noite, há estações de kombuchas, shots de imunidade e chás cortesia espalhadas pela casa principal. E, é claro, estando no Vale do Douro, deliciosos vinhos locais – inclusive alguns produzidos pelo próprio hotel – são abundantes nos restaurantes, na excelente loja da casa e nas imperdíveis degustações semiprivativas que acontecem diariamente no espaço Wine Library.
Para total liberdade dos hóspedes, alguns rótulos selecionados pelo sommelier estão disponíveis 24 horas por dia em máquinas enomáticas que funcionam com um cartão similar ao que abre a porta do quarto, servindo taças de três tamanhos diferentes, ao gosto do freguês.
Mas vale a pena tirar um dia – ou, pelo menos, meio – para aproveitar o privilégio de estar hospedado literalmente entre vinhedos para visitar algumas das mais cativantes “quintas” abertas à visitação pública nos arredores (reservas prévias sempre mandatórias).
Preciosidades como as quintas Ventozelo, do Seixo, do Crasto ou do Vallado, por exemplo, costumam constituir passeios regados a história e belas degustações, é claro. Uma manhã tardia de tour com degustação na bucólica e bela Quinta do Crasto, seguido de almoço na impecável Quinta Nova, de chancela Relais Chateaux, é passeio infalível. E ainda dá para aproveitar o resto da tarde conhecendo os sítios de arte rupestre pré-histórica no Vale do Côa.
Ou, quem sabe, celebrar a boa vida com charmosos e impecáveis piqueniques montados ao pôr-do-sol, entre vinhedos, com vista para o Douro? Em tempos de cada vez maior procura pelo chamado wellness tourism, eis aí um local onde a gente naturalmente se sente bem, todos os dias, todas as horas.