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Entre Dunas e Design: Casa Oiá Traz Novo Luxo Ao Cenário Surreal dos Lençóis Maranhenses

O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses ganha nova perspectiva com uma das hospedagens mais charmosas e originais do Brasil

7 min

Ao rodar o longa Duna (EUA, 1984), David Lynch deixou Hollywood de cabelos em pé com a primeira versão para o cinema inspirada nos best-sellers de Frank Herbert que se desenrolam no fictício planeta Arrakis. Até então, o chroma key, recurso cenográfico inventado nos anos 1940 para a inserção de montagens póstumas, era artifício dos filmes B. Avesso a recursos mambembes, o cineasta norte-americano torrou cerca de US$ 40 milhões em mais de 80 cenários criados com toneladas de areia amontoadas em estúdio, sem qualquer pós-produção – tão cult quanto controverso, o longa amargou um fiasco de público.

Fast forward para 2020-2025: na era da inteligência artificial, em que fotografias como a do papa Francisco trajando Balenciaga confundem nossa percepção entre a verdade e o hiper-realismo digital, o segundo volume do remake, dirigido pelo canadense Denis Villeneuve, que custou US$ 190 milhões e já arrecadou sete vezes a bilheteria, valeu-se muito mais das locações orgânicas – em Wadi Rum e Al Siq, na Jordânia; nos desertos de Abu Dhabi; em Altivole, na Itália; e nas areias vermelhas da Namíbia – do que dos efeitos especiais.

No sci-fi e na vida, as definições de luxo vão aos poucos se reconfigurando. A Casa Oiá, primeira hospedaria-design do TP Group (e uma das únicas do Brasil), inaugurada em 2023 às portas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, no município de Santo Amaro, extrai o elixir mais autêntico da sofisticação com sua identidade regional, mobília nacional, as pequenas preciosidades locais e experiências rústicas que estão na contramão de hotéis high-tech com vista para o mar. Tão tangível quanto os cenários que Lynch levantou em estúdio com insumos naturais ou os que Villeneuve cooptou in loco, sem mover um grão de areia do lugar.

Lençóis Maranhenses: Da topografia cinematográfica à ilusão de ótica

A 260 quilômetros de São Luís, capital do Maranhão, com quase 156 hectares de dunas que coreografam paisagens diferentes a cada estação devido à ação dos ventos e das chuvas fortes que despencam de janeiro a julho, subindo o volume dos dois lagos perenes (o da Esperança e o do Peixe) e desenhando nada menos do que outras 36 mil lagoas sazonais, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses plasma os biomas Costeiro Marinho e Cerrado, entre mangues, restingas e dunas.

ALEXANDRE SUPLICYQuase embaralhando o olhar, feito uma tela de pop art, vista aérea dá uma dimensão das 36 mil lagoas sazonais que se aninham entre as dunas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses entre junho e setembro

Inaugurado em 1981, atraiu cerca de 410 mil viajantes (20% deles, estrangeiros) em 2023 – e contando. Além dos Lençóis, festas populares, como as de São João, movimentaram no aeroporto maranhense quase 1 milhão de viajantes só no primeiro semestre de 2024. Os números devem subir exponencialmente: no ano passado, a Unesco declarou o Parque como Patrimônio Natural da Humanidade, ao lado de “tombados” da estirpe do Grand Canyon, de Machu Picchu, da Grande Muralha da China e das Pirâmides de Gizé.

Tal e qual uma miragem, a paisagem é difícil de descrever – e até de ilustrar. Mesmo com imagens impressionantes em alta resolução, é só in loco, com os matizes de verde e azul das águas aninhadas entre as montanhas em tons nude emendando no horizonte, que a gente enxerga, de fato, o quão surreal é a topografia – é como juntar o Saara, a Tailândia e uma pintura de optical art no mesmo frame. Foi lá que Fernanda Montenegro e a filha, Fernanda Torres, protagonizaram a película Casa de Areia (Andrucha Waddington, Brasil, 2005) e que a Marvel rodou cenas importantes de um dos seus blockbusters mais rentáveis: Vingadores: Guerra Infinita (Joe e Anthony Russo, EUA, 2018), que abocanhou US$ 1 bilhão em 10 dias.

Sururus e guarás

A alta temporada do Parque Nacional dos Lençóis vai de maio a setembro, estação intermediária entre a seca e as chuvas. A viagem à Casa Oiá Lençóis leva algumas horas, mas compensa – e recompensa. Descendo do carro, monta-se em um quadriciclo para, 10 minutos depois, embarcar em um barquinho e, em outros 10 minutos, você estará a dois passos do paraíso. A programação de passeios é vasta: inclui piquenique e ski-bunda entre dunas, stand up paddle e mergulhos mornos nas lagoas fugazes, além de visitas a destinos como Trevosa, município das catadoras de sururus (entre outros mariscos e crustáceos) e das revoadas dos guarás, um dos pássaros mais coloridos da nossa fauna.

ALEXANDRE SUPLICYPiquenique na praia

O Hotel Marina quando acende

O que a designer de interiores Marina Linhares e o cineasta David Lynch têm em comum? A paixão pelo design – e pelas dunas.

Em abril de 2024, durante o Salão do Móvel de Milão, maior Design Week do calendário global, Lynch apresentou a instalação Thinking Room, uma ode à forma como usa a arquitetura na narrativa de seus longas. Quando conheceu o Maranhão, Marina Linhares, uma das principais grifes do décor classe “A” no Brasil, reescreveu o roteiro junto com o marido Tomaz Perez, CEO do TP Group, e imaginou uma pousada-design despretensiosa, brasileiríssima e absolutamente cool em seu aspecto sertanejo, emoldurando a paisagem.

Debruçada sobre a antiga Fazenda Boca da Ilha, em uma área de 52.500 metros quadrados de vegetação natural, o endereço foi renovado com uma cuidadosa ocupação com o entorno, incluindo consultoria socioambiental. Com o objetivo de criar um selo de hospitalidade brasileira, a Oiá (nome que remete ao sotaque local para “ver”, “olhar”, “cuidar”) conjuga cultura, natureza e vivência personalizada no mesmo tempo verbal.

“Essa é uma marca que reflete a trajetória do TP Group, que se traduz em conceito ímpar em hospedagem de alto padrão no Brasil”, explica Perez sobre o primeiro empreendimento próprio da patente.

Caiada de branco, buscando mais a identidade nordestina do que a mediterrânea, a Oiá surpreende pela classe brejeirinha. Tem apenas quatro acomodações, divididas em quatro bangalôs externos, além da casa-sede, com mais duas acomodações para hóspedes e área social com lounges indoor/outdoor e mesa para refeições compartilhadas na varanda.

O mobiliário, elegante, foge da estética caiçara alegórica e ousa com peças como as cadeiras atribuídas a Lina Bo Bardi e Zanine Caldas.

“Foi uma busca por materiais e artistas que tivessem a ver com nosso Norte-Nordeste. Desejamos contar uma história muito maranhense”, explica Marina. “A escolha dos materiais foi pautada pela regionalidade: tons de areia brincando com as dunas, toques de cor para trazer alegria e cerâmicas e palhas que traduzem o artesanato local. Trabalhamos com o modernismo e com peças de design bem brasileiro. Usamos artesanato da região misturado com arte, como o Cupinzeiro, da artista plástica Lídia Lisboa”, conclui sobre a paragem, que, além da audiência nacional, pleiteia alta performance com os públicos da França, Inglaterra, Alemanha e Suíça.

Para agradar a paladares díspares, à mesa, prazeres em clima “raiz” estimulam produtores vizinhos e ganham releituras que incluem o camarão da Malásia, pescado ali mesmo e servido com arroz de coco fresco. A caipirinha de caju colhido no quintal e macerado na tiquira – destilado da mandioca herdado dos povos originários desse pindorama brasileiro – é outra tentação.

Não que você vá enjoar do cenário, mas, em todo caso, setups idílicos são armados à sombra de cajueiros ou angelins gigantescos, arrancando suspiros dos comensais. E, quando você achar que já atingiu o ápice da experiência, a Oiá vai armar um luau dentro do parque, entre dunas vertiginosas que quase tocam as estrelas. Para eles, nem o céu é o limite.

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