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Estamos Vivendo uma Recessão Amorosa Global?

O mundo tem mais autonomia, mais liberdade — e menos casais. Especialistas analisam por que amar ficou mais difícil

6 min

É possível que o mundo esteja atravessando um novo tipo de recessão, não econômica, mas afetiva. Uma análise recente do The Economist aponta que há hoje ao menos 100 milhões de pessoas solteiras a mais do que haveria se as taxas de formação de casais tivessem permanecido estáveis desde 2017. Nos Estados Unidos, 50% dos homens e 41% das mulheres entre 25 e 35 anos não vivem com um parceiro — uma proporção que dobrou ao longo dos últimos 50 anos.

No Brasil, o movimento segue a mesma direção. Dados do IBGE mostram que o número de divórcios atingiu patamares historicamente elevados na última década e que o país já soma 81 milhões de pessoas solteiras, contingente que supera o de casados. Em 2023, foram registrados mais de 440 mil divórcios no país. Ainda assim, pesquisas indicam que a maioria dos solteiros brasileiros afirma desejar estar em um relacionamento estável.

A análise do jornal britânico chama atenção para um fator central nesse desencontro, a transformação do papel feminino. Nos países da OCDE, 51% das mulheres entre 25 e 34 anos tinham diploma universitário em 2019, contra 39% dos homens. Embora esse avanço educacional pudesse indicar mais casais em que elas fossem mais escolarizadas, o efeito observado tem sido outro. Muitas mulheres deixaram de depender economicamente de um parceiro, mas continuam confrontadas por imaginários afetivos antigos, enquanto parte dos homens ainda encontra dificuldade em se adaptar a essa nova dinâmica.

O paradoxo é evidente, nunca houve tanta autonomia, liberdade de escolha e discurso sobre amor-próprio, e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil sustentar vínculos. Para o psicólogo de relacionamentos Thomas Shultz-Wenk, mais conhecido como Thomy Talks nas redes sociais, esse cenário revela uma verdadeira recessão amorosa, marcada por frustração acumulada, baixa tolerância ao risco emocional e um recuo coletivo diante da dificuldade de se conectar. Já para a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, o diagnóstico é outro, o que está em colapso não é o amor, mas o modelo do amor romântico, baseado em exclusividade, fusão e controle, que deixou de dialogar com os desejos contemporâneos de autonomia e individualidade.

Entre desistência emocional e libertação afetiva, o amor parece atravessar um período de ajuste profundo. É a partir dessa tensão que se desenha o debate sobre o futuro dos relacionamentos.

Frustração, defesa emocional e o recuo do afeto

Na leitura de Shultz-Wenk, a recessão amorosa nasce menos da falta de interesse e mais do cansaço emocional. “As pessoas estão desistindo de se relacionar porque não encontraram parceiros que valessem o investimento. A paciência diminuiu, o limiar de frustração está muito mais baixo”, afirma. O resultado é um movimento de retração, menos tentativas, menos vínculos e mais ressentimento, especialmente nas relações heterossexuais.

Para ele, a cultura do “não me apego” funciona como um mecanismo de defesa. Depois de sucessivas decepções, próprias e alheias, fechar-se parece mais seguro do que se expor novamente. “Se apegar é uma das experiências mais gostosas que existem quando há reciprocidade. O problema é o medo de se machucar de novo.” Esse medo, diz, é amplificado por uma narrativa coletiva pessimista, relatos ruins circulam, reforçam a crença de que “ninguém está dando certo” e tornam a desistência uma escolha quase lógica.

Nesse cenário, quem mais perde são justamente aqueles que desejam vínculos profundos. “Relacionamentos dão trabalho, envolvem frustração e risco. Mas poucas coisas oferecem uma recompensa tão grande quanto um relacionamento saudável. O que vejo são pessoas que querem a recompensa sem aceitar o risco.”

O colapso do amor romântico e o peso sobre as mulheres

Regina desloca completamente o eixo do debate. Para ela, falar em recessão amorosa é insistir em um modelo que já não faz sentido. O amor romântico, diz, prega a fusão de duas pessoas em uma só, a ideia de que um parceiro deve suprir todas as necessidades do outro, uma promessa impossível que gera sofrimento. “É um tipo de amor extremamente prejudicial”, afirma.

Outro ponto central de sua análise diz respeito às mulheres e à confusão recorrente entre independência e autonomia. Ganhar dinheiro, ocupar cargos de liderança ou ser financeiramente bem-sucedida não garante, necessariamente, autonomia afetiva. Para a psicanalista, ser autônoma implica libertar-se dos padrões de comportamento historicamente impostos às mulheres, o medo de desejar, de tomar iniciativa, de expressar sexualidade, de ser julgada. Sem essa ruptura, muitas seguem ajustando sua imagem e suas escolhas às expectativas masculinas e sociais, mesmo em um contexto que aparenta maior emancipação.

Na sua leitura, o aumento de solteiros e divórcios representa uma libertação afetiva, não uma crise. Durante décadas, o casamento foi sustentado por controle, possessividade e ciúme, e a separação vista como fracasso moral ou tragédia familiar. Hoje, cresce a percepção de que só faz sentido viver a dois quando a relação contribui para o crescimento individual, e não o contrário.

Menos modelos, mais escolhas, e mais conflito

Ao contrário da ideia de que exclusividade seja sinônimo de profundidade emocional, Regina defende que desejar outras pessoas não invalida o amor. A crescente busca por relações não monogâmicas refletiria menos superficialidade e mais honestidade. O que torna o momento atual delicado é a transição, antigos valores ainda pesam, enquanto novos acordos estão sendo negociados sem parâmetros claros.

Aqui, o contraste entre as duas visões se acentua. Onde Shultz-Wenk enxerga uma sociedade que se fecha por medo de sofrer, Regina vê indivíduos tentando desaprender padrões herdados para construir novas formas de intimidade. Para um, estamos desistindo cedo demais, para a outra, estamos finalmente resistindo a um ideal que produziu sofrimento.

Talvez a chamada recessão amorosa não seja uma escassez de afeto, mas um período de reorganização. Como escreveu o sociólogo britânico Anthony Giddens, citado por Regina, milhares de pessoas estão tentando, consciente e deliberadamente, desaprender e reaprender a amar. Entre o medo da frustração e a recusa de se encaixar, o amor atravessa uma transformação profunda, ainda sem respostas prontas, mas cheia de perguntas inevitáveis sobre como, afinal, queremos nos vincular daqui para frente.

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