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St. Barth Além do Óbvio: Dicas para Aproveitar a Ilha

Entre hotéis pé na areia, restaurantes icônicos e um festival gastronômico exuberante, a ilha mais hedonista do Caribe revela sua versão mais íntima

8 min

Em St. Barth, comer, hospedar-se e simplesmente estar fazem parte da mesma experiência sensorial. A ilha tem algo de magnético: um equilíbrio raro entre sofisticação e simplicidade, hedonismo e natureza, elegância e pés descalços. E justamente por isso exige um olhar atento – há uma St. Barth óbvia, de vitrines luxuosas e beach clubs concorridos, e outra mais íntima, quase secreta, que só aparece quando você vive seus dias sem pressa. Foi o que aproveitei para fazer nesta viagem.

Viver St. Barth sem pressa passa, inevitavelmente, por escolher bem onde se hospedar. Entre os destaques, começo pelo Le Barthélemy Hotel & Spa, na baía de Grand Cul-de-Sac – um semicírculo perfeito de águas rasas, calmas e transparentes, um berçário natural de tartarugas marinhas. Foi ali que me hospedei pela primeira vez: pé na areia, com uma suíte que se abria para um mar de 50 tons de azul. Acordar e mergulhar entre dezenas de tartarugas, ainda com o sol nascendo atrás das colinas, é uma daquelas experiências que deslocam qualquer referência de beleza possível. Com interiores assinados por Sybille de Margerie, o hotel une herança parisiense chic e leveza caribenha – luxo silencioso, sem esforço, sem pose.

Meu segundo hotel foi o Gyp Sea Hotel, nas colinas de Colombier. Ali, a ilha aparece em outra perspectiva: a vista ampla, entre palmeiras e jardins tropicais, é de tirar o fôlego. Não é pé na areia; é um refúgio elevado, íntimo, que mistura décor plantation com uma estética boho-chic irresistível – conchas, rattan, bambu, peças vintage e explosões de cor. No Gyp Sea Beach Club, em St. Jean – vizinha ao famoso aeroporto onde jatinhos pousam diante dos olhos dos banhistas –, a vibração muda: colchões à beira-d’água, snorkel, paddleboard, gamão na sombra, um Coconut Bar que serve drinques no coco e um novo bar de crudos ultrafrescos. É o tipo de lugar onde as horas escorrem sem que você perceba.

À mesa, dois clássicos justificam sua longevidade. O Tamarin, escondido em um jardim tropical tomado por palmeiras centenárias, é quase um cenário cinematográfico. Lanternas, mesas românticas, tartarugas passeando entre bananeiras e ylang-ylang. O chef Jérôme Lebeau apresenta uma cozinha delicada, generosa e criativa, cruzando terroir francês com exotismo caribenho em pratos que parecem ter sido moldados pela ilha. Já o Bonito, de frente para a baía de Gustavia, preserva desde 2009 seu charme de casa de praia elegante. Coquetéis impecáveis, atmosfera acolhedora e a cozinha autoral de Laurent Cantineaux – influenciada por sua década na Venezuela – resultam em ceviches, tiraditos e pratos marinhos que já se tornaram uma assinatura local.

DivulgaçãoA entrada do Le Tamarin

Fora dos hotéis e restaurantes, a ilha também se revela no ritmo de suas ruas e vitrines. Nas compras, St. Barth brinca com contrastes. Ao lado das ultraluxuosas Hermès, Louis Vuitton e Chanel, surgem endereços que capturam o espírito criativo da ilha. A Clic, presente em Nova York e nos Hamptons, reúne fotografia, arte, moda e décor com uma curadoria afiada que reflete essa mistura de estética global com alma de destino praiano sofisticado. A Capuccino, marca francesa artesanal, entrega peças boho-chic feitas à mão no sul da França – leves, fluidas e perfeitas para vestir a ilha. Já a Bijoux de la Mer, de Maryvonne, transforma pérolas e conchas em joias que carregam a poesia do oceano. Vestir uma delas é vestir St. Barth.

E, quando a noite chega, ela quase sempre termina no Le Café, o nightclub que se tornou parte da rotina da viagem. A banda residente não só embala os visitantes como, em uma dessas noites, entregou versões em português para celebrar os brasileiros que estavam por lá. Foi o lembrete perfeito de que St. Barth, apesar do glamour internacional, continua sendo uma ilha calorosa, que recebe com charme, humor e música. Um raro equilíbrio entre sofisticação e simplicidade, hedonismo e natureza, elegância e areia nos pés. Uma ilha que, década após década, continua ditando seu próprio dialeto de luxo. E é justamente nesse cenário — onde prazer, tempo e sensibilidade caminham juntos — que o St. Barth Gourmet Festival encontra seu sentido mais profundo.

DivulgaçãoAmbiente do Le Café

É nesse espírito que St. Barth também se afirma como palco de um dos festivais gastronômicos mais sofisticados do Caribe

No início de novembro, a ilha mais hedonista do Caribe francês troca de pele: entre praias de água turquesa, enseadas silenciosas onde a liberdade é regra e aquele savoir-faire francês que permeia tudo, do café da manhã ao último gole de rosé, Saint-Barth se transforma em um palco sensorial absoluto. Há experiências gastronômicas que encantam, e há aquelas que deslocam, que tiram o paladar do eixo e o colocam em outra latitude emocional. O St. Barth Gourmet Festival pertence, sem hesitar, a esse segundo grupo.

É uma semana em que o prazer assume múltiplas camadas: chefs estrelados tomam cozinhas à beira-mar, conversas se estendem sem pressa, o perfume de manteiga quente se mistura ao de baunilha caribenha e o tilintar das taças parece coreografar o próprio ritmo da ilha. Ali, comer não é apenas degustar – é habitar. É sentir o tempo desacelerar entre garfadas.

Entre tantos encontros gastronômicos da programação, foi nesse cenário que conheci o menu de Manu Ferraz, primeira brasileira a ser convidada oficialmente pelo festival. Dona do A Baianeira, restaurante que conquistou São Paulo com sua cozinha afetuosa e autoral, incluindo uma charmosa unidade no Masp, Manu levou para o Caribe a mesma combinação de precisão e brasilidade que se tornou sua assinatura. E, embora eu tenha provado outros menus da programação, o dela se impôs de forma incontornável: não por patriotismo, mas por sabor.

DivulgaçãoManu Ferraz em ação na cozinha do Nikki Beach ao lado do chef residente Antoine Durand

O Brasil entra na conversa

Em plena Saint-Barth, no Nikki Beach, onde Manu comandou os almoços de 5 a 8 de novembro ao lado do chef residente Antoine Durand, a cozinha parecia respirar outra frequência. Havia técnica, claro – mas havia também gesto, território, lembrança. “Foi épico e especial”, ela me disse, enquanto repousava a taça de rosé sobre a mesa. “Levei comigo não só receitas, mas uma história inteira. A identidade gastronômica do Brasil precisava estar ali.”

E estava. Literalmente. Dentro da mala, Manu transportou tucupi preto, feijão-manteiguinha, azeite de dendê e cachaça – ingredientes com a densidade afetiva de um país inteiro. “Eles despertaram surpresa, curiosidade e, principalmente, emoção. Esses sabores carregam memória.” A logística da ilha – aonde muitos ingredientes chegam apenas uma vez por semana da França – exigiu precisão e improviso. “Essas travessias tiram a gente do automático. Elas nos obrigam a exercitar a essência da gastronomia: transformar o que se tem em algo bom, verdadeiro.”

DivulgaçãoA moqueca de ostra, um dos pratos do menu criado pela chef mineira para o St. Barth Gourmet Festival

Mineira de Almenara (perto da divisa com a Bahia), Manu leva no corpo o cruzamento de culturas que define sua cozinha. E foi exatamente esse encontro que criou uma ponte inesperada em Saint-Barth. “A culinária caribenha e a brasileira compartilham raízes africanas profundas. Pimentas, frutas, coco, quiabo, técnicas… Em muitos momentos, percebia que sabores brasileiros eram imediatamente familiares ao público local.” Esse reconhecimento silencioso aparecia no salão, entre expressões curiosas, sorrisos, encantamentos. O público – exigente, habituado à gastronomia francesa – parecia absorver cada camada com naturalidade.

Entre todos os pratos do menu, um se tornou quase uma assinatura emocional da chef na ilha: a moqueca de ostra com farofa de Minas. “É memória pura. Tem as cores do Brasil, o tempero da minha origem e a textura de quem sabe de onde veio.”

DivulgaçãoO ambiente do beach club

Criado em 2013, o St. Barth Gourmet Festival acolhe chefs estrelados como Eugénie Béziat (Ritz Paris), Beatriz Gonzalez (Neva Cuisine e Coretta, Paris) e Alexandre Koa (Le Pressoir d’Argent Gordon Ramsay, Bordeaux). Entre beach clubs, hotéis e restaurantes lendários, o festival é um laboratório onde tradições francesas, latinas, mediterrâneas e caribenhas se cruzam. Este ano, porém, algo mudou: o Brasil entrou para a conversa. “Cozinhar nessa interseção – França, Caribe, Brasil – foi mergulhar em uma dualidade deliciosa. Volto com mais técnica, mais sensibilidade e ainda mais certeza de que a gastronomia brasileira precisa ocupar o lugar que merece no mundo.”

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