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Investimento de R$ 32 bi: Como os Jogos Estão Transformando a Economia da Itália

Grande parte do capital investido não se voltou para construção de centros esportivos, mas para ativos com valor econômico duradouro — como melhorias no transporte ferroviário e turismo inclusivo

7 min

Quando o histórico Stadio Giuseppe Meazza ficou lotado para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, o que se viu foi uma celebração da Itália. Em sintonia com a mensagem dos Jogos de 2026 — refletida na série de designs que combinam esportes de inverno com a culinária italiana — o espetáculo colocou o país no centro das atenções.

Realizados em um momento em que Giorgia Meloni consolidou a posição da nação mediterrânea na política europeia, mantendo uma das relações mais próximas entre líderes europeus e o presidente dos EUA, Donald Trump, os Jogos representam uma injeção de energia em todos os sentidos.

No plano moral, deram aos italianos um motivo para se orgulhar novamente. No aspecto financeiro, um estudo do Banca Ifis, apresentado pela Italian Embassy in London, aponta que os Jogos terão um impacto total de € 5,3 bilhões (US$ 6,3 bilhões; cerca de R$ 32,8 bilhões). Esse impulso chega em um momento em que as previsões de crescimento modesto da Itália podem se beneficiar de um estímulo como nenhum outro evento esportivo é capaz de proporcionar.

Crescimento sustentado por infraestrutura

Diferentemente de edições anteriores, a estratégia de Milano Cortina prioriza a modernização de estruturas já existentes e o uso de instalações temporárias, em vez da construção de complexos totalmente novos. Com isso, grande parte do capital investido é direcionada a ativos com valor econômico duradouro — como melhorias no transporte ferroviário e na acessibilidade regional, fortalecendo o turismo ao longo de todo o ano.

Por exemplo, a região da Lombardia passou por um amplo projeto de modernização em seus serviços de trem e metrô, enquanto o Vêneto investiu em turismo inclusivo e projetos culturais. O objetivo comum é que esses investimentos funcionem como catalisadores de longo prazo para o turismo doméstico e internacional, indo além do mês de realização do maior evento de esportes de inverno do mundo.

Segundo o ministro dos Transportes da Itália, Matteo Salvini, foram investidos US$ 4,1 bilhões (cerca de R$ 21,43 bilhões) antes dos Jogos, distribuídos por grande parte do norte do país. Isso, porém, faz com que esta não seja a edição mais conveniente da história em termos logísticos.

Percorrer todas as sedes pode levar cerca de 13 horas de carro, cobrindo mais de 800 quilômetros. As competições de gelo acontecem em Milão; o esqui alpino masculino em Bormio; o snowboard em Livigno; o esqui cross-country em Predazzo; o biatlo em Anterselva; e o esqui alpino feminino em Cortina — antes da cerimônia de encerramento em Verona, a mais de 160 quilômetros da abertura em Milão.

Com isso, o impacto econômico vai além de Milão, cidade já acostumada ao turismo de massa. As áreas montanhosas e destinos como Cortina, que normalmente dependem fortemente de receitas sazonais, devem sentir os efeitos mais significativos. Durante os 16 dias de competição, estima-se uma injeção de € 1,1 bilhão (US$ 1,3 bilhão; cerca de R$ 6,8 bilhões) na economia.

NurPhoto via Getty ImagesCartaz Milano Cortina 2026 na Piazza Duomo, em Milão

Benefícios para os negócios locais

Embora Milão já esteja habituada a grandes fluxos turísticos, regiões montanhosas como Cortina dependem fortemente da sazonalidade. A S&P Global afirma que dados da Visa indicam que as chegadas ao norte da Itália cresceram 160% em relação ao normal durante os 16 dias dos Jogos.

A expectativa é que a região receba 2,5 milhões de visitantes, com estadias médias superiores a três noites. O estudo do Banca Ifis aponta que os benefícios podem se estender por quase um ano. Além disso, estima-se que 3 bilhões de pessoas acompanhem o evento por transmissões ao redor do mundo.

A Reuters informa que o turismo de montanha triplicou nos últimos dez anos, em parte impulsionado por influenciadores que divulgaram experiências positivas nas redes sociais, gerando um efeito multiplicador.

Esse crescimento tende a ser ampliado pelos Jogos. O World Economic Forum cita um think tank segundo o qual até o fim da década mais 9 milhões de visitantes poderão ser atraídos às cinco províncias-sede.

Construindo um legado além dos Jogos

Com financiamento do International Olympic Committee e do governo italiano, o foco está na revitalização regional por meio de infraestrutura — e não apenas arenas esportivas — para gerar um impacto mais duradouro.

Nas cidades-sede, especialmente nas regiões montanhosas, o planejamento prioriza integração urbana. Em Milão, a vila dos atletas foi projetada por arquitetos locais para dialogar com os edifícios existentes e construída em uma antiga área ferroviária abandonada.

Após o evento, os 1.700 apartamentos serão convertidos em moradias estudantis acessíveis. O projeto também inclui uma praça pública e espaços culturais e comerciais integrados ao entorno, respeitando a mistura de construções históricas e áreas flexíveis para uso comunitário.

A sustentabilidade é um dos pilares centrais. Cerca de 20 mil peças de mobiliário serão reutilizadas das Olimpíadas de Paris 2024, e 100% da eletricidade utilizada virá de fontes renováveis certificadas. Além disso, a meta é reaproveitar 100% dos alimentos não vendidos e reciclar 80% das embalagens.

A missão dos Jogos inclui “proteger, cultivar e promover a beleza natural dos locais que sediarão as competições”, posicionando as regiões montanhosas do norte da Itália para crescimento sustentável e aumento do turismo — em vez de criar estruturas que se tornem obsoletas.

AFP via Getty ImagesA imagem mostra a antiga sede das competições de bobsled, luge e skeleton durante os Jogos Olímpicos de Inverno de 2006, em Turim, em 2023

A lição de Turim 2006

Poucos países têm a oportunidade de sediar duas Olimpíadas em 20 anos, mas a experiência com as Olimpíadas de Inverno de Turim 2006 permitiu à Itália aprender e aprimorar seu modelo.

O contexto era distinto: Turim buscava transformar sua imagem industrial sob o lema “Passion Lives Here”, enquanto Milão já simboliza elegância e busca agregar dinamismo com a missão de “oferecer às novas gerações oportunidades valiosas por meio do esporte”.

Embora Turim seja amplamente vista como exemplo positivo, nem tudo foi ideal. O arquiteto Carlo Ratti afirmou à Reuters que “os Jogos de 2006 foram muito positivos para a moral e visibilidade internacional de Turim, mas menos eficazes em termos de legado de infraestrutura de longo prazo”.

Algumas instalações se tornaram símbolo disso. A pista de bobsled em Cesana e as estruturas de salto de esqui em Pragelato foram abandonadas após o evento. O The Guardian relatou em 2016 que partes da vila dos atletas foram ocupadas anos depois por refugiados e migrantes sem moradia.

Segundo o Relatório de Sustentabilidade, Impacto e Legado do Milano Cortina 2026, o Comitê Organizador está deliberadamente construindo um legado que vá além das três semanas de competição, priorizando melhorias em estruturas existentes, engajamento comunitário e oportunidades econômicas inclusivas. O objetivo é criar infraestrutura duradoura que beneficie tanto a população local quanto os turistas muito depois do encerramento dos Jogos.

Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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