1. Início
  2. /
  3. Forbes Life
  4. /
  5. Diária de R$ 110 Mil: Conheça a Vila Italiana nas Dolomitas Que Ficou Abandonada por 40 Anos
Forbes Life

Diária de R$ 110 Mil: Conheça a Vila Italiana nas Dolomitas Que Ficou Abandonada por 40 Anos

Erguido sobre as ruínas de um sanatório abandonado nos Alpes italianos, o Forestis Villa combina restauração histórica e arquitetura silenciosa em um dos retiros mais exclusivos das Dolomitas

7 min

Em 1912, médicos dos Habsburgo identificaram uma encosta no norte da Itália com quatro condições que consideravam superiores às de outras estações alpinas de saúde para o tratamento da tuberculose: água pura de nascente artesiana filtrada por rocha dolomítica a cerca de 1.860 metros de altitude; aproximadamente 300 dias de sol por ano em uma encosta protegida dos ventos do norte; ar de montanha limpo, onde correntes do Adriático encontram massas alpinas; e um microclima ameno produzido pela convergência desses fatores na altitude ideal. Eles encomendaram a construção de um sanatório.

A Primeira Guerra Mundial interrompeu as obras. Pouco depois, o Tratado de Saint-Germain transferiu o Tirol do Sul para a Itália, em 1919. O complexo foi usado brevemente como estação climática para veteranos, depois como retiro para clérigos até os anos 1950, antes de ser completamente abandonado. A floresta passou quatro décadas retomando o lugar.

Quando o hoteleiro sul-tiroles Alois Hinteregger encontrou o terreno tomado pela vegetação por volta de 2000, ao notar uma linha de telhado misteriosa a partir de uma cabana familiar próxima, ele escalou uma cerca, atravessou a vegetação densa e entrou em um edifício de madeira escuro que havia permanecido invisível de todos os caminhos ao redor por décadas.

Seu filho Stefan e a parceira Teresa Unterthiner passaram oito anos desenvolvendo o que viria a ser o Forestis, um retiro com 62 suítes inaugurado em 2020, com três torres revestidas de larício que se elevam verticalmente através das copas das árvores, projetadas pelo arquitetoArmin Sader, do estúdio ASAGGIO, com sede em Brixen, para evitar o corte de qualquer abeto adulto.

As torres se voltam para fora. Todas as suítes são orientadas para o oeste, em direção à cadeia montanhosa Odle e ao isolado pico Peitlerkofel, o ponto mais ao norte das Dolomitas propriamente ditas. Não há obras de arte nas paredes. A paisagem é a obra de arte.

ForestisUma ilha monolítica de pedra, esculpida em dolomita local, repousa sobre as tábuas originais numeradas da vila — a única inserção contemporânea em uma cozinha que, de resto, é marcada por armários de pinho não tratado e paredes com acabamento em reboco de cal

A Forestis Villa, inaugurada em fevereiro de 2025 a cerca de 90 metros da estrutura principal, faz algo diferente com esse legado. A residência de cinco quartos e quase 1.200 metros quadrados ocupa a casa original dos médicos, construída em 1912 para atender o sanatório planejado.

Enquanto as torres são verticais e transparentes, a vila é baixa, fechada e parcialmente protegida por uma floresta antiga. Suas tradicionais janelas Kastenfenster de vidro duplo em formato de caixa, típicas da arquitetura alpina austro-húngara interrompem a vista das Dolomitas em vez de enquadrá-la. O patamar entre os andares é irregular. O piso range. A ornamentação entalhada na entrada carrega a linguagem visual do Jugendstil regional. Nada disso era um problema a ser resolvido. Tudo isso foi o material que Sader decidiu preservar.

ForestisCada detalhe segue o princípio orientador de Sader para a vila: todos os elementos foram projetados para parecer como se sempre tivessem estado ali

“A abordagem de design da vila é bem diferente da do hotel principal”, diz Sader. “Neste caso, o foco não foi enquadrar vistas, mas preservar e celebrar o caráter do edifício histórico.” Teresa Unterthiner e Stefan Hinteregger obtiveram os planos originais desenhados à mão no arquivo da cidade de Viena e lideraram a restauração em estreita colaboração com o órgão de patrimônio da província de Bolzano.

Restauradores especializados, familiarizados com técnicas artesanais tirolesas do início do século XX, supervisionaram o trabalho. A fachada de madeira de pinho foi desmontada, restaurada e remontada tábua por tábua. Cada tábua de larício e abeto foi numerada, removida, limpa, seca e recolocada em sua posição original. Portas com maçanetas antigas de ferro fundido passaram pelo mesmo processo. Os tetos de madeira com caixotões foram preservados. A imponente escada original foi restaurada no próprio lugar.

ForestisO lounge do spa subterrâneo

A verdadeira intervenção, no entanto, acontece onde não se vê. Um spa privativo de cerca de 400 metros quadrados ocupa o subsolo, com piscina aquecida interna e externa, sauna finlandesa, banho de vapor, piscina fria, sala de tratamentos e um lounge de relaxamento com lareira a lenha e um painel de vidro que se abre diretamente para a neve.

“A área do spa, que é uma adição totalmente nova, foi deliberadamente colocada no subsolo”, explica Sader. “Isso nos permitiu atender a todas as exigências técnicas e espaciais sem afetar o caráter histórico da vila acima.” A mesma lógica orientou o aquecimento de piso, os sistemas elétricos e os cinco novos banheiros suítes. Enquanto a infraestrutura desce, o patrimônio permanece ao nível dos olhos.

ForestisO cinema no nível do sótão ocupa a estrutura original de madeira do telhado

O grupo de carpintaria Frener, sediado em St. Leonhard, a poucos quilômetros dali, executou o trabalho em madeira sob a direção de Robert Eisenstecken e do mestre carpinteiro Albin Frener. O escopo foi de vigas estruturais a tigelas e colheres entalhadas à mão, todas feitas de madeira maciça local não tratada. O carpinteiro Manuel Moling contribuiu com acabamentos personalizados em pedra, combinando técnicas tradicionais tirolesas com aplicações contemporâneas. A paleta de materiais segue o conceito dos “quatro elementos” do estúdio ASAGGIO: pedra representa a água, vidro representa o ar, madeira não tratada representa o clima, e tecidos de linho natural, produzidos em uma fábrica no Trentino, representam o sol. Materiais sintéticos não são utilizados no edifício.

ForestisAs tábuas do piso abaixo foram numeradas e recolocadas em suas posições exatas durante a restauração de 5 anos

O mobiliário revela de forma mais clara o que diferencia as duas estruturas. No hotel principal, as peças de Sader são contemporâneas e discretas, pensadas para não competir com a paisagem. Já na vila, cada novo elemento foi criado como se sempre tivesse estado ali.

“Uma linguagem contemporânea teria soado deslocada aqui”, admite Sader. “Todos os novos elementos, incluindo o mobiliário, foram desenvolvidos para dialogar com o existente, muitas vezes com aparência deliberadamente tradicional.” Um berço infantil foi reduzido à madeira bruta. Vigas do telhado original foram reaproveitadas como mesa de degustação de vinhos na adega de pedra. Cerâmicas de um artista de Brixen convivem com detalhes arquitetônicos preservados. Enquanto isso, o único objeto decorativo do hotel um fóssil de 130 milhões de anos não tem equivalente na vila. “O próprio edifício histórico, com seus materiais, artesanato e detalhes arquitetônicos, torna-se a obra de arte”, diz Sader.

ForestisUm dos cinco novos banheiros suítes inseridos sob os beirais da vila

A vila acomoda até dez hóspedes, com chef, mordomo e concierge dedicados e, pela primeira vez no Forestis, aceita crianças menores de 14 anos. Um jardim privativo de cerca de 1.000 metros quadrados se abre para o sul, em direção às Dolomitas, com piscina aquecida, horta de ervas, cozinha externa e um caminho que leva diretamente às pistas de esqui de Plose. A floresta já havia retomado esse edifício uma vez. O feito de Sader foi fazer com que pareça que ele nunca deixou de estar ali.

As diárias começam em aproximadamente US$ 20.700 (R$ 113.850).

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.