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Com Quase 45 Anos de Vida, Anselmi Já Não É Mais Somente uma Marca de Moda

Com atenção meticulosa a processos sustentáveis e às pessoas envolvidas neles, a família expande seu universo de experiências para outros segmentos, equilibrada entre a alta tecnologia e o artesanal

6 min

Quando uma marca já tem identidade bem definida, produto de qualidade bem posicionado, canais de venda, comunicação, logística e financeiro bem estruturados, o que mais ela pode querer? Essa seria uma boa pergunta para a Anselmi, que se aproxima dos 45 anos de vida preservando tudo isso e expandindo para outros segmentos. Ou seria criando novas experiências?

Para usar um termo da moda, tive uma experiência imersiva no universo do grupo Anselmi, com direito a moda, arte e gastronomia. Voei para Porto Alegre, segui por 90 minutos de estrada passando pela bela serra gaúcha, em direção a Farroupilha, onde fica o QG da marca e onde toda a família Anselmi tem residência: Maria, a fundadora; a filha mais velha e diretora criativa Sandra; o CEO Eduardo; e a caçula e diretora de marketing Patricia.

O clima, as vinícolas, a comida, a paisagem e, mais do que tudo, a maneira como a família Anselmi enxerga seu negócio e interage com a comunidade local, me lembraram a viagem que fiz ao QG da marca Zegna, empresa também familiar, na região do Piemonte, na Itália. Entre os projetos sociais e ambientais da marca masculina de luxo, é emocionante passar pelo Oasi Zegna, uma floresta pública fruto do reflorestamento que começou há quase cem anos de uma área de 100 quilômetros quadrados e mais de 500 mil árvores plantadas.

Depois de um delicioso almoço na casa de Sandra, com direito a “Chico Balanceado” (mais conhecido como merengue de banana), fomos à Casa Anselmi, um imóvel restaurado dos anos 1930 que se tornou um espaço de arte, aberto gratuitamente aos visitantes. A instalação site specific Natureza Tecida é obra da própria Sandra e ocupa todos os ambientes da casa.

Sandra cresceu entre rocas e cones, vendo fios se transformarem em peças de roupas. Em sua obra, ela conecta sobras e fios remanescentes dessa produção, ressignificando-os e criando cogumelos que vão brotando pelas salas até chegar a uma verdadeira floresta em tons terrosos: o espaço Fio Vivo, mágico e misterioso, que ativa o inconsciente e memórias de infância.

Divulgação

O encantamento com os micélios vem de uma pesquisa com fungos feita com um biólogo e do hábito de caçar cogumelos nas terras da família em Cambará do Sul, em uma região de cânions e parques nacionais. “Eu descobri a beleza do micélio e uma relação com o tricô que me surpreendeu. Afinal ele nada mais é do que um filamento que guarda memórias ancestrais, assim como a prática do tricô”, conta.

Sandra passou mais de dois anos tricotando essas esculturas com suas mãos, um processo intuitivo e catártico que começou na pandemia e fez irromper de vez sua expressão artística. Nasceu ali Sinestesia, a primeira sala dessa grande instalação, com cores e sentimentos intensos. “Ao ver esse espaço pronto, tive uma sensação de paz tão grande… Às vezes, a gente guarda coisas por muito tempo e não tem coragem de se expressar. Eu gostaria de falar para as mulheres terem coragem de ser o que quiserem, de se permitir vários papéis, mesmo que haja preconceito do outro.”

O micélio forma uma rede subterrânea hiperconectada entre si e com a natureza ao seu redor, em uma relação simbiótica com troca de nutrientes e de energia — um “ajuda” o outro. Assim também foi a educação de Sandra. A matriarca Maria ensinou para os filhos o que aprendeu com os avós: o espírito de comunidade. Descendente de italianos, Maria cresceu trabalhando na roça, onde conheceu o marido, caminhoneiro. Um dia ele decidiu mudar para a cidade. Ela, sem emprego e sem poder sair de casa porque, aos 20 anos, já tinha dois dos três filhos, resolveu costurar “para fora” e fazer tricô.

“Eu gostaria de falar para as mulheres terem coragem de ser o que quiserem.”

— Sandra Anselmi

Desde criança Maria gostava de bordar e fazer crochê. Sem recursos, ela desmanchava escondida as peças da mãe para poder ter linha para seus “modelos”. Graças a essa determinação, ela conseguiu produzir peças para as malharias locais, logo comprou sua primeira máquina e o resto são mais de 40 anos de história.

Hoje, Anselmi é um grupo que tem a marca homônima como âncora, com mais de 20 lojas próprias, além de marcas menores como Nori e Amb, fábricas em quatro cidades no Rio Grande do Sul e fornecedores pelo mundo e pelo Brasil — como o Instituto Casaca de Couro, que eles apoiam, garantindo a compra do algodão agroecológico que gera renda a 600 famílias da Paraíba. Enquanto em novembro as lojas recebem coleções de alto verão, a Anselmi resolveu lançar uma coleção de alto inverno, après ski, que performou tão bem que ganhou uma pop-up na virada do ano no shopping paulistano Pátio Higienópolis. E acaba de entrar no mix da Mata Lab, multimarcas supercool do complexo Cidade Matarazzo, também em São Paulo.

Divulgação

A Anselmi adota o processo verticalizado, que vai da fiação própria à peça final, muitas vezes feitas em máquinas 3D, de onde a roupa sai pronta, sem costura. Ao mesmo tempo que investe em tecnologia de ponta, valoriza a tradição mantendo em atividade algumas máquinas de mais de 50 anos. O tingimento também é interno, feito a partir da peça em algodão cru (também de produção própria), com o devido tratamento de resíduos.

A família é inquieta e pensa além da moda. Entre investimentos em criação de trufas e de cabras, os Anselmi estão restaurando uma edificação histórica de 1920, que foi sede da Cooperativa Vitivinícola Emboaba, onde os imigrantes italianos se organizaram para produzir os primeiros vinhos na região. Não por acaso, o distrito se chama Nova Milano. Ali, além de um laboratório de criação ao lado de um hub de maquinários de alta tecnologia, eles pretendem resgatar a história local da colonização italiana e promover sabores tradicionais, como uma boa polenta com galeto.

Ou seja, Anselmi hoje não fala só de moda. Fala de continuidade e comunidade. De futuro ancorado em memória, inovação e práticas regenerativas, vestindo corpos e sustentando boas histórias.

*Reportagem publicada na edição 10 da Forbes Life Fashion, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.

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