1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. Como a Cerveja Sem Álcool Está Transformando a Indústria Cervejeira Brasileira
Forbes Money

Como a Cerveja Sem Álcool Está Transformando a Indústria Cervejeira Brasileira

Transformação cultural e investimentos bilionários tiraram a cerveja sem álcool do nicho e a transformaram na nova aposta de expansão das gigantes globais

6 min

A indústria cervejeira sempre travou batalhas comerciais focadas em atributos como o teor alcoólico ideal, o peso da tradição de suas receitas e a robustez de suas identidades de marca. Contudo, uma nova disputa surgiu no mercado: a corrida para capturar o consumidor que deseja socializar de forma ativa, mas sem consumir álcool. 

O fenômeno reflete uma transformação estrutural no varejo de bebidas, impulsionada por novos hábitos geracionais, pela ascensão do movimento sober curious (aqueles que buscam diminuir o consumo de álcool voluntariamente, sem necessariamente abster-se por completo) e por um foco na saúde e no bem-estar físico e mental.

A força por trás desse movimento de consumo tem nome e idade definida: a Geração Z e os Millennials mais jovens. O público tem demonstrado sistematicamente um comportamento de consumo muito mais moderado do que as gerações anteriores. Dados consolidados da Mintel, Agência Global de Inteligência de Mercado, mostra que aproximadamente 30% dos consumidores estão diminuindo ativamente o seu consumo de álcool no dia a dia. 

O que antes era visto como um nicho restritivo agora dita o ritmo de crescimento do setor. O Anuário da Cerveja de 2025 publicado pelo MAPA, o Ministério da Agricultura e Pecuária em parceria com entidades como o SINDICERV e a CervBrasil, mostra que o volume de produção nacional da cerveja sem álcool ou desalcoolizada saiu de 118,9 milhões de litros em 2023 para 757,4 milhões de litros em 2024. 

Os números sustentam o investimento feito pelo Ambev nesse segmento, de acordo com  Anna Paula Alves, diretora de categoria cervejeira. “Nos últimos 3 anos, a gente consegue trazer que em capex e inovação, a somatória dos nossos investimentos está girando em torno de 10 bilhões”. 

Atualmente, o segmento já detém aproximadamente 5% do volume total do mercado brasileiro de cervejas, com projeção oficial de que ultrapassará a barreira dos 7% até o ano de 2030, de acordo com as estimativas da CervBrasil.

A resposta das gigantes: Ambev e Heineken

Retirar o álcool de uma bebida sem comprometer seu perfil sensorial, corpo e textura exigiu o redesenho de processos industriais.

Historicamente, as cervejas sem álcool sofriam com o estigma de terem sabores excessivamente adocicados e aromas insatisfatórios, mas a realidade mudou com o aprimoramento da tecnologia de desalcoolização, realizada majoritariamente por meio de processos complexos como a destilação a vácuo em baixas temperaturas, que evapora o etanol sem submeter o líquido a altas temperaturas de cozimento, preservando os compostos voláteis do lúpulo e o dulçor correto do malte.

Esse avanço exigiu e continua a exigir investimentos vultosos. Rafael Rizzi, Vice-Presidente de sustentabilidade e assuntos corporativos do Grupo Heineken, revela o nível do comprometimento industrial da companhia no país. “O processo produtivo das nossas cervejas zero é exatamente igual ao das cervejas regulares, mas com uma etapa extra ao final. Nós produzimos a cerveja normalmente e, então, retiramos o álcool por destilação a vácuo”. 

O investimento no segmento também revela a aposta da empresa no setor. “Para dar escala à categoria no Brasil, nós já investimos cerca de R$ 180 milhões exclusivamente nas linhas de produção de cervejas zero nas cervejarias de Araraquara (SP) e Ponta Grossa (PR)”.

A Heineken 0.0 consolidou-se como líder absoluta de mercado e vetor crucial de “premiumização” para o portfólio da marca holandesa, com o Brasil despontando hoje entre os dez maiores mercados do planeta para o grupo neste segmento, e o que cresce em ritmo mais acelerado globalmente.

Rizzi explicou a importância dessa categoria para a Heineken. “Podemos dizer que a categoria de cerveja zero álcool é extremamente estratégica para a companhia, atuando como um poderoso vetor do nosso negócio ao novo contexto de mercado e de comportamento do consumidor”.

Para Ambev, Alves analisa a rápida aceitação e o apetite por essas inovações. “A gente tem essa avenida de crescimento como algo muito relevante e que nos traz muito otimismo. Em 2025, a gente registra um crescimento de cerca de 30% no volume de cerveja zero, mas quando a gente amplia para o portfólio de escolhas equilibradas como um todo, o avanço vai para 67%”.

Para além do aspecto puramente cultural, a ascensão da cerveja zero álcool altera profundamente a dinâmica de rentabilidade do setor. Na ótica corporativa, a categoria desponta como um canal de altíssima margem de contribuição.

Embora o custo de fabricação seja ligeiramente superior devido à etapa adicional de desalcoolização e ao uso de máquinas especializadas, esses custos são amplamente neutralizados no balanço de resultados. 

Duas frentes sustentam essa rentabilidade: em primeiro lugar, a cerveja zero é vendida em canais premium por preços superiores ao da categoria alcoólica convencional; em segundo lugar, a categoria desfruta de menores encargos de natureza regulatória e tributária, dada a baixa incidência de impostos específicos que recaem sobre as bebidas com teor alcoólico elevado no sistema tributário nacional.

A cerveja comum paga, em média, entre 25% e 37% de ICMS, dependendo do Estado em que é produzida. Já a cerveja sem álcool, fica sujeita à alíquota interna geral, que costuma girar entre 17% e 21%.

O avanço do segmento de cervejas saudáveis e low carb

Paralelamente ao avanço do patamar zero, surge um mercado de vigorosa relevância econômica dedicado às cervejas classificadas como “ultra light” e funcionais, que mantêm um teor alcoólico reduzido aliado a um baixíssimo nível de calorias e carboidratos.

O maior exemplo mundial desse fenômeno é a Michelob Ultra, marca que lidera de forma absoluta esse segmento nos Estados Unidos e que agora recebe maciços investimentos de posicionamento da Ambev no Brasil. 

“A gente teve um crescimento de cerca de 30% no volume de cerveja sem álcool e 67% de crescimento no portfólio é de escolhas equilibradas, que é uma super inovação. Essa segunda fatia envolve Michelob Ultra e Stella Pure Gold, que tiveram esse crescimento de dois dígitos”, explicou Alves sobre o conjunto de opções além da cerveja zero álcool para o público de alta performance e do estilo de vida fitness.

A popularidade do segmento reflete muito mais do que uma tendência passageira. O amadurecimento tecnológico do setor e as transformações sócio comportamentais profundas estão pavimentando um caminho no qual as bebidas sem álcool e de baixíssimo impacto calórico redefinem os pilares de crescimento de faturamento, captação de novos clientes e desenvolvimento tecnológico de toda a cadeia cervejeira nas próximas décadas.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.