“Nós queremos que 10% da soja produzida em sistemas regenerativos no Brasil tenha o selo Reg.IA.” A meta traçada até 2028 por Aline Locks, cofundadora e CEO da Produzindo Certo, vai além da expansão de um protocolo agrícola. Ela resume uma estratégia que busca transformar a saúde do solo em um ativo econômico para o produtor rural e em um diferencial competitivo para a soja brasileira.
Aline abriu, pela primeira vez, o valor do reforço internacional que a Produzindo Certo recebeu, durante um evento que a agtech promoveu sobre o mercado para a agricultura regenerativa, na quinta-feira (16), na capital paulista. A agtech recebeu um aporte inicial de £ 100 mil (R$ 690 mil) do programa Partnerships for Forests (P4F), financiado pelo governo do Reino Unido, e poderá acessar outros £ 500 mil (R$ 3,45 milhões) para ampliar o Reg.IA, primeiro consórcio de agricultura regenerativa da América Latina.
O investimento integra a estratégia do P4F de mobilizar recursos privados para negócios capazes de proteger florestas tropicais, fortalecer comunidades locais e estimular cadeias produtivas sustentáveis.
No Brasil, a Produzindo Certo foi escolhida por desenvolver um modelo que combina rastreabilidade, inteligência socioambiental e incentivos econômicos para ampliar a adoção de sistemas regenerativos de produção.

“O investimento chega em um momento importante para consolidarmos o modelo e ampliarmos sua escala. Queremos transformar a agricultura regenerativa em uma realidade cada vez mais presente nas principais regiões produtoras de soja e milho”, afirma Aline.
Fundada em 2019 como uma spin-off da ONG Aliança da Terra, a Produzindo Certo desenvolve soluções de inteligência socioambiental para o agronegócio e lidera a execução do Reg.IA. O consórcio reúne Bayer, BrasilSeg, GAPES, InPlanet, Milhão Ingredients, Mina Mercantil e Proforest em uma estratégia colaborativa para acelerar a recuperação da saúde do solo e criar um mercado para grãos produzidos sob práticas regenerativas.
O apoio do governo britânico reforça uma estratégia de crescimento que também vem sendo financiada pelo mercado. Depois de abrir uma rodada pré-série A de R$ 10 milhões, em 2024, a Produzindo Certo captou outros R$ 20,7 milhões em outubro de 2025, em operação liderada pelos fundos Arar Capital e SP Ventures para ampliar sua plataforma de monitoramento socioambiental e acelerar a expansão do Reg.IA.
Os números mostram que a iniciativa começa a ganhar escala. No primeiro ciclo, em 2025, o Reg.IA reunia 38 produtores e 37,6 mil hectares manejados sob o protocolo regenerativo nos Estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo. Em 2026, passou para 41 produtores e 54,1 mil hectares.
Os resultados consolidados de safra foi da 2024/25. A produtividade média de soja nas propriedades do Reg.IA atingiu 67,85 sacas de 60 quilos por hectare, 15,14% acima da média nacional. No caso do milho, a produtividade chegou a 243,22 sacas de 60 quilos por hectare, superando em 145,97% a média nacional.
No total, foram produzidas 149.110 toneladas de soja e 9.208 toneladas de milho. Se essa produtividade fosse aplicada à produção nacional, seria possível mais que dobrar a produção de milho sem expandir a área plantada.
A meta, porém, é atingir 200 mil hectares até 2028 e fazer com que, no futuro, um em cada dez grãos de soja produzidos em sistemas regenerativos no País carregue o selo desenvolvido pelo consórcio.
Mas afinal, o que é agricultura regenerativa?
No Reg.IA, a agricultura regenerativa (que pode ser compreendida por pecuária regenerativa, ou agropecuária regenerativa, dependo se a produção tiver bovinos ou bovinos e agricultura) é tratada como um modelo de produção que busca recuperar a saúde do solo sem abrir mão da produtividade.
O protocolo combina práticas como plantas de cobertura, diversificação de culturas, menor revolvimento do solo e uso mais eficiente de insumos para aumentar a atividade biológica, melhorar a infiltração e a retenção de água, reduzir a dependência de fertilizantes e defensivos e tornar as lavouras mais resilientes às mudanças climáticas.
A lógica é que um solo mais saudável também se torne um ativo econômico para o produtor ao reduzir riscos e custos de produção ao longo do tempo.
O prêmio é apenas o começo

Para convencer o produtor a iniciar essa transição, o primeiro incentivo foi financeiro. Segundo Charton Locks, cofundador e diretor de Operações da Produzindo Certo, o Reg.IA estabeleceu uma bonificação equivalente a 2% sobre o valor da soja e do milho comercializados pelas empresas participantes.
Na prática, o agricultor recebe o preço de mercado pelo grão e ainda um prêmio por comprovar o cumprimento do protocolo regenerativo e a rastreabilidade socioambiental da produção.
“O prêmio pelo grão regenerativo sozinho não vai dar conta de mover o mercado na escala que a gente espera”, afirma Charton.
A experiência dos dois primeiros anos mostrou, porém, que apenas remunerar a venda do grão não seria suficiente para ampliar o modelo. A estratégia evoluiu para transformar o Reg.IA em uma plataforma capaz de conectar empresas interessadas em compartilhar o custo da transição para uma agricultura baseada na regeneração do solo.
“O Reg.IA tem começado a se tornar um ímã de iniciativas e empresas que conseguem agregar valor real no campo”, diz o executivo.
Além da bonificação paga pela soja e pelo milho produzidos dentro do protocolo, o consórcio passou a reunir parceiros capazes de oferecer seguros rurais com condições diferenciadas, acesso facilitado a linhas de crédito, tecnologias voltadas à recuperação da fertilidade do solo e novos mecanismos de remuneração ligados aos atributos ambientais da produção, como carbono, rastreabilidade e indicadores socioambientais.
“O que buscamos é construir uma cesta de benefícios para que a agricultura regenerativa faça sentido economicamente para o produtor. O prêmio é importante, mas ele é apenas uma parte dessa equação.”
Charton lembra até de uma entrega gratuita de pó de rocha, insumo que ajuda no manejo de fertilização do solo. “O produtor pagou apenas o frete.”
A travessia da “vala da morte”

Se Charton explica como o produtor começa a ser remunerado, João Shimada, head de Agricultura Regenerativa do Reg.IA, mostra por que esse apoio financeiro se tornou decisivo.
Segundo o agrônomo, o maior desafio da agricultura regenerativa não está na tecnologia disponível, mas na capacidade do agricultor de atravessar os primeiros anos da mudança de manejo convencional para o regenerativo.
É nesse período que a fazenda passa a investir em plantas de cobertura, maior diversificação de culturas, recuperação da biologia do solo e redução gradual da dependência de insumos químicos. Os investimentos chegam antes dos ganhos de produtividade e da redução dos custos.
“Os dois primeiros anos da transição para a agricultura regenerativa são a ‘vala da morte’. O produtor precisa de fôlego financeiro para bancar essa passagem.”
O momento econômico da soja ajuda a explicar esse cenário. Depois de um período de elevada rentabilidade, os produtores passaram a conviver com uma forte compressão das margens. Nas safras 2019/20, 2020/21 e 2021/22, sojicultores de Mato Grosso trabalharam com margens de aproximadamente 27, 37 e 34 sacas por hectare, respectivamente, enquanto o custo operacional total (COT) variava entre 23 e 32 sacas por hectare.
A partir da safra 2022/23, a equação mudou. O COT passou para um intervalo entre 45 e 59 sacas por hectare, enquanto as margens recuaram para 16 sacas, depois 15 sacas, sete sacas e apenas seis sacas por hectare na temporada 2025/26.
Para Shimada, é justamente nesse ambiente de rentabilidade comprimida que mecanismos de incentivo à transição deixam de ser um diferencial para se tornar uma necessidade.
“Hoje as margens da atividade agrícola estão extremamente apertadas. Nós não temos mais margem para erro. O uso da tecnologia é o que vai separar as crianças dos adultos”, diz Shimada.
Na avaliação do agrônomo, a agricultura regenerativa não deve ser encarada apenas como uma agenda ambiental, mas como uma estratégia para aumentar a eficiência econômica da propriedade.
Depois da fase inicial de adaptação, o solo recupera parte de sua atividade biológica, melhora a infiltração e o armazenamento de água, amplia o aproveitamento dos nutrientes e reduz gradualmente a dependência de fertilizantes e defensivos, tornando a produção mais resiliente às oscilações climáticas e de mercado.
“Eu me atrevo a dizer que a agricultura regenerativa seja a próxima fronteira agrícola brasileira e não mais o desmatamento”, diz Shimada.
A aposta da Produzindo Certo é justamente encurtar essa travessia. Ao combinar o prêmio pago pelo grão regenerativo com instrumentos financeiros, seguros, crédito, rastreabilidade e remuneração por atributos ambientais, o Reg.IA pretende reduzir o custo da transição até que os ganhos agronômicos passem a aparecer no caixa da fazenda.