Piora no cenário fiscal alteraria política monetária e juro neutro, diz Campos Neto

Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

“Se percebermos que a estamos em uma trajetória de indisciplina fiscal obviamente tudo vai mudar: a política monetária, o juro neutro. Mas não achamos que estamos vendo isso”, afirmou Campos Neto

O presidente do BC (Banco Central), Roberto Campos Neto, disse hoje (14) que dados mais recentes têm mostrado aumento da confiança nos setores da economia e que as projeções do PIB (Produto Interno Bruto) para 2021 têm respondido em alta.

Campos Neto, porém, voltou a fazer ponderações sobre a situação fiscal do Brasil e alertou que uma mudança para pior nesse âmbito alteraria a política monetária e o juro neutro.

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Segundo ele, o país emerge da crise da Covid-19 como um dos piores entre emergentes no que tange a elevação da proporção dívida/PIB, o que deixou a curva de juros doméstica entre as mais penalizadas nesse universo.

O presidente do BC afirmou que um aumento injustificado das despesas públicas para fortalecer a economia teria efeito líquido oposto, uma vez que a leitura seria de quebra de compromisso de regras de sustentabilidade fiscal. Para Campos Neto, pode-se gastar mais para combater, por exemplo, a pandemia, mas é preciso que esses custos extras sejam bem explicados.

“Se percebermos que a estamos em uma trajetória de indisciplina fiscal obviamente tudo vai mudar: a política monetária, o juro neutro. Mas não achamos que estamos vendo isso”, disse, em inglês, durante evento virtual promovido pelo Bank of America.

Campos Neto rechaçou avaliações de que o Brasil esteja em dominância fiscal –quando o BC fica limitado a subir os juros porque o aumento dos custos de empréstimos deteriora ainda mais o cenário para as contas públicas. Ele justificou que os custos de emissão de dívida têm permanecido baixos a despeito das preocupações fiscais.

O chefe do BC citou “confrontos” desde o ano passado na política brasileira sobre como tirar o país da crise via aumento de gasto público.

“Acho que o que tem prevalecido é que podemos gastar um pouco mais se necessário, mas precisamos explicar bem e precisamos dizer às pessoas que quando olhamos para a frente somos sérios em relação à disciplina fiscal.”

“Se não tivermos isso, vamos ver (os impactos) nos preços do câmbio.”

Do lado da economia, Campos Neto disse que a confiança vem aumentando na expectativa de que o ritmo de vacinação contra a Covid-19 acelere nas próximas semanas, fortalecendo o cenário para a reabertura da economia. Ele previu que até 1º de julho boa parte das pessoas dos grupos de risco estarão imunizadas.

“Precisamos que a reabertura acelere para que os serviços possam voltar e vejamos a recuperação mais generalizada.”

CÂMBIO

Sobre o tema, o presidente do Bacen disse acreditar que a pressão cambial mais forte decorrente do desmonte do “overhedge” (proteção cambial adicional dos bancos) e de pré-pagamentos de dívidas em moeda estrangeira por empresas brasileiras ficou para trás.

“Quando você tira isso, vê a maior parte disso para trás, você tem a dinâmica melhor no câmbio. E também estamos tendo mais fluxo”, afirmou, lembrando revisões para cima em estimativas para o resultado das transações correntes, em parte pela melhora nas expectativas para a balança comercial em meio ao aumento dos termos de troca num contexto de commodities em alta.

“Isso está começando a se refletir nos preços do câmbio, e vemos isso no melhor comportamento do câmbio no Brasil em relação a seus pares.”

Questionado sobre um cronograma para a entrada em vigor da moeda digital do BC, Campos Neto respondeu que isso aconteceria nos próximos dois, três anos, “provavelmente menos”, sem dar mais detalhes. (Com Reuters)

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