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Apoio Bilionário dos EUA a Milei Levanta Dúvidas Sobre Economia Argentina

Especialistas alertam que efeito depende de reformas e estabilidade política

6 min

Em 2025, a relação entre Argentina e Estados Unidos está cada vez mais próxima. Aliado estratégico para os americanos na América Latina, Buenos Aires recebeu de Washington a promessa de que “todas as opções estão na mesa” para que eles fossem apoiados. Uma delas já está em curso, a US$ 20 bilhões (R$ 106,6 bilhões) por meio de uma linha de swap cambial, realizada entre os bancos centrais, anunciada no mês passado.

Analistas dizem que o montante pode até aliviar momentaneamente a situação dos argentinos, mas seu êxito dependerá de outros fatores não relacionados a aportes significativos, confirmando ainda mais a dúvida sobre o país. “Basta um revés eleitoral, protestos contra a austeridade ou a percepção de ingerência externa para que a confiança se fragilize”, afirma Carlos Honorato, professor da FIA Business School.

O acordo bilionário a ser selado no dia 14 de outubro por meio de uma reunião entre Donald Trump e Javier Milei ocorreu sobre as bênçãos do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, famoso em Wall Street como um conhecido investidor e gestor de fundos hedge.

Seu efeito não foi pequeno. A frase de que “todas as opções estavam na mesa” para ajudar os argentinos, quando alardeada, no dia 22 de setembro, mexeu com o mercado. No dia, o peso se recuperou, refletindo o otimismo dos investidores na estabilização cambial, as ações argentinas negociadas nos EUA tiveram alta e os títulos internacionais em dólar subiram.

A costura de um aporte de US$ 20 bilhões para os argentinos é a segunda num intervalo de seis meses. A primeira foi aprovada pelo conselho do FMI (Fundo Monetário Internacional) em abril. Notadamente, os EUA, como maiores acionistas individuais e ainda membro fundador, têm um poder significativo em toda e qualquer decisão do fundo.

Os desafios

Apesar do montante bilionário, especialistas alertam que o efeito pode ser temporário se não vier acompanhado de reformas estruturais e governabilidade sólida, algo que está longe de ser conquistado pela Argentina.

A longa instabilidade na economia argentina não é novidade. O peso argentino teve o pior desempenho em relação ao dólar entre as principais moedas do mundo em 2025, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta.

Até 8 de setembro, o peso acumulou uma desvalorização de 27,4% frente à moeda americana. A baixa é reflexo da alta inflação, da falta de confiança dos investidores, da dívida externa sufocante e da excessiva dependência de commodities. Na variação acumulada do ano até agosto, a inflação da Argentina ficou em 19,5%, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censo (Indec).

Segundo Patrícia Krause, economista-chefe Latin America da Coface, apesar do otimismo inicial, o risco país voltou a subir para 1.264 pontos no dia 1º deste mês, após ter caído para 898 pontos em 24 de setembro.

A leitura dos analistas é a de que o novo socorro funciona mais como um paliativo, concedendo fôlego imediato ao peso, permitindo uma desvalorização controlada e evitando rupturas cambiais bruscas. O impacto inicial é sobretudo simbólico, como uma valorização de curto prazo.

“O aporte só se tornará divisor de águas se estiver articulado a reformas consistentes e ao programa do FMI”, afirma Carlos Honorato, professor da FIA Business School.

Num primeiro momento, os investidores devem ficar um pouco mais confortáveis com o risco do país. No entanto, desafios políticos e econômicos devem persistir.

“Segue o temor de uma situação política similar à de 2019, quando a confiança na economia argentina despencou devido à derrota nas primárias do presidente direitista Mauricio Macri para o peronista Alberto Fernández, que ganharia a eleição”, comenta Thomas Haugaard, gestor de portfólio de dívida de mercados emergentes em moedas fortes da Janus Henderson Investors.

Os analistas indicam que a percepção de risco pode melhorar no curto prazo, porque os spreads soberanos recuam, influxos de capital especulativo aparecem e algumas empresas sinalizam apetite por investimentos diretos. Ou seja, o swap fornece confiança técnica ao mercado com dólares rotativos para evitar calotes imediatos. “Porém essa melhora é volátil, porque depende da execução de Milei e do humor político em Washington”, explica Honorato.

Entre os setores beneficiados a curto prazo estão os nichos ligados à estabilidade cambial e à confiança de investidores, como o mercado imobiliário, o comércio exterior e os títulos soberanos. Com o câmbio menos pressionado, há espaço para retomada de transações imobiliárias, maior fluxo de exportações agrícolas e algum alívio no financiamento público.

Prova de fogo

As eleições de meio de mandato de 26 de outubro, nas quais será renovada metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado, são muito importantes para o governo de Milei.

“Um resultado favorável para o partido do presidente, Libertad Avanza, contribuiria para aumentar a sua governabilidade, melhorando a confiança dos mercados”, comenta Patrícia Krause.

Segundo Carlos Honorato, se Milei perder sustentação eleitoral ou congressual, 70% a 80% do efeito positivo desse aporte pode evaporar.

As declarações do governo americano, incluindo as do secretário do Tesouro, Scott Bessent, e do presidente Trump, foram fortes. Eles afirmaram que “todas as opções estão na mesa”. Bessent também disse que os EUA estão preparados para comprar títulos argentinos denominados em dólares americanos (primários e secundários). No entanto, detalhes sobre essas medidas ainda precisam ser confirmados.

Histórico turbulento

A história recente mostra que, na Argentina, a turbulência política costuma transformar dólares em fumaça em curto período de tempo. Em 2018, o governo argentino assinou um acordo com o FMI que envolveu um empréstimo de US$ 57 bilhões (R$ 303,81 bilhões), o maior da história da instituição.  Em 2022, o FMI emprestou mais US$ 44 bilhões (R$ 234,52 bilhões), como parte de um programa de reestruturação da dívida contraída anteriormente.

Porém, a política argentina frequentemente corrói até os melhores arranjos econômicos.

Na última semana, o peso argentino apresentou recuperação após o anúncio de apoio dos EUA e a suspensão temporária das retenciones, impostos sobre exportações. No entanto, a volatilidade cambial voltou desde a última sexta-feira (3), quando o governo implementou novamente medidas de controle cambial, proibindo operações no mercado financeiro de câmbio por três meses após operações no mercado oficial.

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