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A Nação do Golfo Que Está Alimentando a Máquina de Fazer Dinheiro de Trump

Acordos imobiliários e cripto podem render à Trump Organization mais de R$ 2,68 bilhões em 2025, impulsionando o império global da família

8 min

Em 11 de janeiro de 2017, nove dias antes de assumir a presidência pela primeira vez, Donald Trump revelou como pretendia administrar seus negócios multibilionários enquanto estivesse na Casa Branca.

Ele não venderia seus ativos, nem os repassaria aos herdeiros. Também não criaria um fundo fiduciário cego, tampouco entregaria o controle a um executivo independente. Havia, no entanto, uma linha que prometeu não cruzar: nada de novos negócios estrangeiros. “No fim de semana”, explicou o então presidente eleito, em uma coletiva na Trump Tower, “me ofereceram US$ 2 bilhões (R$ 10,74 bilhões) para fechar um negócio em Dubai, uma série de negócios. E eu recusei.”

A Ascensão dos Emirados Como Centro da Organização Trump

Oito anos depois, os Emirados Árabes Unidos, lar de Dubai e Abu Dhabi, tornaram-se o principal centro da expansão internacional da Organização Trump. Com os filhos Don Jr. e Eric à frente das negociações, a família firmou ao menos nove acordos com o país do Golfo. Parte deles envolve entidades governamentais, e muitos decorrem de relações construídas ao longo de duas décadas.

Esses empreendimentos, que incluem cinco contratos de licenciamento e três negócios ligados a criptomoedas, devem gerar cerca de US$ 500 milhões (R$ 2,68 bilhões) em 2025 e outros US$ 50 milhões (R$ 268,5 milhões) anuais nos próximos anos. E há mais por vir. A família trabalha em um projeto ainda não anunciado em Abu Dhabi, possivelmente localizado no bairro de Al Raha Beach. Também estuda novas formas de aproveitar a febre das criptomoedas para extrair mais valor de seus ativos imobiliários.

Eric Trump, responsável pelas operações diárias da Trump Organization, é só elogios ao país. “Os Emirados Árabes Unidos são o maior sonho dos empreendedores, porque eles nunca dizem ‘não’ a nada”, afirmou em Abu Dhabi no ano passado. “Eles sempre incentivam você a ir além dos limites. Não há lugar que tenha crescido mais rápido, nem onde tenha sido mais divertido trabalhar. Se você quer construir e consegue sonhar, eles permitem que faça.”

Parece ser ainda mais fácil quando o sobrenome é Trump. “Os líderes do Golfo sabem como lidar com este presidente americano”, afirma um ex-diplomata com experiência na região. “Eles aprenderam na primeira vez. Antes ele era limitado na forma como podia pedir dinheiro. Agora, não há mais restrições.”

O Primeiro Contato Com o Golfo

A incursão dos Trump no Oriente Médio começou há cerca de 20 anos, justamente nos Emirados. Na época, Dubai vivia uma onda de megaprojetos, com ilhas artificiais em formato de mapa-múndi e de palmeira. Para promovê-los, executivos da estatal Nakheel organizaram em 2004 um almoço no lendário “21 Club”, em Nova York, com 75 potenciais investidores, entre eles Donald Trump. “Eles estão enchendo o oceano. Incrível!”, exclamou.

Quatro anos depois, ele fechou um contrato de licenciamento com a Nakheel, comandada por Ahmed bin Sulayem, empresário influente com conexões nos Estados Unidos, inclusive com Jeffrey Epstein. O Trump International Hotel and Tower seria o edifício mais alto da ilha em forma de palmeira, com 4.600 m² de área comercial, 378 quartos e 399 apartamentos. O timing, porém, foi desastroso. A crise financeira de 2008 devastou o mercado imobiliário de Dubai, e o projeto acabou cancelado em 2011.

No mesmo ano, o empresário Hussain Sajwani iniciou o megacomplexo Damac Hills. Um de seus assessores, Ziad El Chaar, procurou a família Trump e firmou um acordo de licenciamento para um clube de golfe. Em 2014, El Chaar buscou Trump pessoalmente no aeroporto de Al Maktoum, o único com capacidade para o avião particular do então magnata. Durante a viagem, Trump perguntou sobre a política americana no Oriente Médio, o que levou o executivo a suspeitar que ele tinha ambições políticas.

Dois anos depois, Trump se tornou o 45º presidente dos Estados Unidos. Sajwani celebrou a vitória no Trump International Hotel, em Washington, e, em fevereiro de 2017, os filhos Eric e Don Jr. inauguraram o Trump International Golf Club em Dubai. Durante o mandato, os novos negócios internacionais pararam. Só após deixar o cargo, em 2021, as engrenagens voltaram a girar.

Em 2022, a Trump Organization assinou um novo acordo em Omã, em parceria com a Dar Al Arkan, empresa saudita liderada justamente por El Chaar. Quando a perspectiva de um retorno de Trump à Casa Branca ganhou força, os contratos se multiplicaram.

Quatro dias após o debate em que Joe Biden tropeçou no palco, em junho de 2024, a Dar Al Arkan anunciou um empreendimento com a marca Trump na Arábia Saudita. Semanas depois, veio outro em Dubai.  Após a eleição, mais dois na Arábia Saudita e um clube de golfe no Catar.

As receitas de licenciamento saltaram de US$ 7 milhões (R$ 37,59 milhões) em 2023 para US$ 45 milhões (R$ 241,65 milhões) em 2024, elevando o valor do negócio de branding de US$ 100 milhões (R$ 537 milhões) para US$ 500 milhões (R$ 2,68 bilhões) em apenas um ano.

“Muitas pessoas querem ter acesso a ele — inclusive líderes governamentais”, diz Joo Kim Tiah, ex-parceiro da família Trump no projeto de Vancouver. “Algumas empresas pensam: se eu tiver alguma associação com Trump, talvez o governo local seja mais gentil comigo ou abra portas.”

A Ponte Com o Setor de Criptomoedas

Em 7 de janeiro de 2025, treze dias antes da posse, o presidente eleito recebeu Sajwani em Mar-a-Lago. O empresário, que paga cerca de US$ 6 milhões (R$ 32,22 milhões) anuais à Trump Organization, anunciou um investimento de US$ 20 bilhões (R$ 107,4 bilhões) em data centers nos EUA. Trump respondeu que cuidaria dele. “Temos poderes ambientais não utilizados”, afirmou. “Se você investir mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,37 bilhões), daremos aprovações rápidas.”

Pouco depois, Eric e Don Jr. fundaram a American Data Centers, que logo se transformou na American Bitcoin. A empresa começou a negociar ações em 2025 e chegou a valer US$ 13 bilhões (R$ 69,81 bilhões), mesmo após perder US$ 100 milhões (R$ 537 milhões) no primeiro trimestre. Apesar da queda recente de 61%, Eric ainda mantém uma participação estimada em US$ 410 milhões (R$ 2,20 bilhões).

O Avanço da American Bitcoin e os Novos Aliados no Golfo

Recentemente, executivos da American Bitcoin estiveram em Dubai discutindo expansão com empresas de energia e investimento ligadas ao governo. A sobreposição entre negócios imobiliários, criptomoedas e diplomacia tornou-se a marca da nova era Trump.

Os Emirados Árabes Unidos desejam muito dos EUA — chips de IA, cooperação militar e influência diplomática. Steve Witkoff, amigo de Trump e novo “embaixador informal” da família, tem sido peça-chave nessa ponte. Ele cofundou a World Liberty Financial, empresa de criptomoedas que já atraiu bilhões de dólares, em grande parte do Golfo.

Em abril, a DWF Labs, uma empresa de trading que mudou sua sede para Dubai, comprou US$ 25 milhões (R$ 134,25 milhões) em tokens. Logo depois, a misteriosa Aqua1 Foundation adquiriu outros US$ 100 milhões (R$ 537 milhões). O resultado: cerca de US$ 94 milhões (R$ 504,78 milhões) para os Trump e US$ 16 milhões (R$ 85,92 milhões) para os Witkoff.

Eric Trump e Zach Witkoff subiram juntos ao palco de uma conferência sobre cripto em Dubai, onde anunciaram que a MGX, empresa presidida pelo vice-governador de Abu Dhabi, usaria a stablecoin da World Liberty para investir US$ 2 bilhões (R$ 10,74 bilhões) na Binance. Poucos dias depois, Trump perdoou o fundador da corretora, Changpeng Zhao, condenado por falhas em controles de lavagem de dinheiro. Questionado sobre possíveis conflitos de interesse, limitou-se a dizer: “Muitas pessoas dizem que ele não era culpado de nada.”

Trump e seus aliados minimizam as acusações. “O que chamam de conflito de interesse, nós chamamos de experiência e relacionamentos de confiança”, disse Jared Kushner em entrevista recente. Witkoff completou: “Falamos diretamente com quem toma as decisões.”

Tokenização: O Próximo Capítulo da Estratégia Trump

Agora, a família Trump mira um novo passo: tokenizar imóveis, oferecendo fatias digitais de seus edifícios a pequenos investidores. “Por que eu preciso ir ao Deutsche Bank?”, questionou Eric. “Por que não posso ir aos milhões de pessoas que amam Trump e vender partes da Trump Tower?”

O projeto pode começar justamente em Dubai, onde El Chaar, parceiro da família, defende a ideia de tokenizar imóveis desde 2023. Outra hipótese é Abu Dhabi, onde a própria Aqua1 Foundation acaba de abrir uma operação voltada à tokenização.

Eric Trump não esconde o entusiasmo. “Quem quer participar?”, perguntou. “Quem quer comprar um milionésimo daquele prédio e investir **US$ 1 mil (R$ 5.370)**? E então, quando se hospedarem, podem ganhar jantares grátis. Há pessoas que querem ter uma participação nisso.”

E, pelo visto, muitas delas estão nos Emirados Árabes Unidos.

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