Durante mais de uma década, o sobrenome Diniz esteve associado ao Carrefour, um dos maiores grupos varejistas do mundo. Essa trajetória foi encerrada na última quarta-feira (12), com o anúncio da saída da Península Participações, gestora da família do patriarca Abílio, falecido em 2024, do negócio. A venda da fatia marca simbolicamente o fim de um ciclo.
Na prática, o movimento encerra a presença da família no conselho de administração e, com isso, abre espaço para um novo protagonista no capital do grupo francês: a família Saadé, dona do conglomerado CMA CGM, que agora passa a deter cerca de 4% do capital social do Carrefour.
Na dança das cadeiras da saída dos Diniz para a entrada dos Saadé, quem agora ocupará a lacuna será Rodolphe Saadé, que assumirá o posto no conselho a partir de dezembro deste ano, 2025.
Se, por um lado, esse movimento marca o fim da dinastia da mais representativa família do varejo brasileiro, por outro, abre um novo capítulo no mercado global. Pelo que foi anunciado por Rodolphe, esse é só o primeiro passo de uma parceria que, no que depender dele, deve ser de longo prazo.
E ele não poupou elogios aos seus conterrâneos franceses. “Tenho o prazer de me tornar acionista do Carrefour, um grupo que combina inovação, disciplina operacional e responsabilidade ambiental”, disse.
No comunicado distribuído à imprensa, Alexandre Bompard, atual CEO do Carrefour, também comemorou a chegada do novo investidor, sem esquecer o legado do brasileiro Abílio Diniz e de sua família. “Abílio deixou sua marca na história do nosso grupo”, disse Bompard.
As contas do Carrefour
Segundo o relatório relativo ao terceiro trimestre, as vendas globais do Carrefour chegaram a 22,614 bilhões de euros (R$139,3 bilhões), crescimento de 2,1% no comparativo com as mesmas lojas (LFL) no ano anterior. Segundo o CEO Alexandre Bompard, em comunicado emitido para investidores, o resultado reflete a resiliência do modelo de negócios, com destaque para o bom desempenho da França (+0,7% LFL) e da Espanha (+1,3% LFL).
No Brasil, mesmo diante de um cenário de juros altos e menor poder de compra, o grupo registrou avanço de 1,1% LFL, superando as expectativas do mercado e sustentando o ritmo do formato de atacarejo.
O grupo ressaltou que a reestruturação financeira da dívida do Carrefour Brasil está “quase completa” e que o refinanciamento dessa dívida é a principal projeção futura, já que a estimativa é de um impacto positivo de cerca de 100 milhões de euros (aproximadamente R$ 616 milhões) no lucro líquido do grupo a partir de 2026. Ou seja, essa medida saneadora no Brasil pode vir a fortalecer as finanças globais no próximo ano.
Saída da B3
O grupo estreou na B3 em julho de 2017, com um IPO de R$ 5,12 bilhões, o maior desde 2013. Quem também estava debaixo da chuva de papel picado era Abílio Diniz, investidor do negócio por meio da Península.
O movimento foi fundamental para que a empresa se capitalizasse e ampliasse sua rede de atacarejo, o Atacadão.
A saída recente dos Diniz também encerra o último laço de brasileiros com o grupo francês e com o mercado financeiro brasileiro, já que o Carrefour Brasil se despediu da B3 em maio deste ano, fechando seu capital, e, em outubro último, encerrou seu programa de BDRs. A operação foi uma decisão da matriz francesa.
A era dos Diniz no varejo brasileiro
Abílio Diniz cravou seu nome na história do varejo brasileiro. Filho dos imigrantes portugueses Valentim e Floripes Diniz, Abílio ajudou o pai a transformar uma doceria de bairro em uma potência nacional. Em 1959, nascia o Pão de Açúcar, primeiro supermercado do país a adotar o modelo de autosserviço.
Foi o embrião para que ele construísse um império. Nos anos 1970, lançou o Jumbo, o primeiro hipermercado do Brasil. Nos anos 1990, abriu o capital do grupo na Bolsa de Valores de São Paulo e em Nova York, atraindo investidores internacionais e consolidando o seu GPA (Grupo Pão de Açúcar) como líder do setor.
Nem tudo foi sucesso na vida do empresário. Um dos grandes desafios de sua trajetória foi a disputa pelo controle do GPA com o Grupo Casino, parceiro francês na empreitada, em uma das mais ruidosas batalhas corporativas da história recente do Brasil. A situação esquentou a tal ponto que levou Abílio a deixar, de forma forçada, o GPA em 2013. Os franceses deixaram o controle da empresa em 2024, em meio a uma complicada
Enquanto os sócios franceses tomavam conta do negócio que fundou, Diniz decidiu se associar a outro francês, o Carrefour, adquirindo, via Península, uma fatia que chegou a representar cerca de 7% do capital global da empresa.
Corte, concentre e simplifique
Um dos lemas mais famosos de Abílio foi “corte, concentre e simplifique”, que ele colocou em prática para tirar o GPA da quase falência em 1990.
Além do GPA e do Carrefour, ele também foi presidente do conselho da BRF. Grande incentivador do esporte, Abílio era um entusiasta da atividade física. Foi dele a ideia de criar a Maratona Pão de Açúcar de Revezamento, que, neste ano de 2025, realizou sua 31ª edição com o novo nome de Corrida do Pão de Açúcar.
Ele também publicou livros sobre o assunto e ajudou a fundar o Núcleo de Alto Rendimento em São Paulo, voltado a atletas olímpicos.