O PicPay carimbou seu passaporte e estreou na Nasdaq nesta quinta-feira (29). A cerimônia da oferta pública inicial (Initial Public Offering – IPO) ocorreu no edifício da bolsa na Times Square, no coração de Nova York, e marcou oficialmente a chegada da fintech ao mercado de capitais americano.
O tradicional toque da campainha — ritual simbólico que representa o início ou o fim das negociações do dia ou costuma celebrar momentos relevantes do mercado, como aberturas de capital — foi tocado pelo chairman José Antonio Batista da Costa e Eduardo Chedid, atual CEO do PicPay.
O banco brasileiro foi listado sob o código “PICS” e a operação marca oficialmente a retomada das ofertas de ações de empresas brasileiras após um período prolongado de seca, no Brasil e no exterior — essa é a primeira oferta inicial de ações desde 2021, quando o Nubank, outra fintech, também abriu capital em Nova York. No ano passado, a JBS migrou para NY, mas em um processo de dupla listagem.
Em entrevista à Forbes Brasil, Eduardo Chedid afirma que o momento de retomada das empresas brasileiras no mercado internacional é marcante. Ele ressalta, no entanto, que o processo também vem acompanhado de certa ansiedade até que tudo aconteça.
“No fim das contas, a gente está quebrando o gelo. Ao mesmo tempo, teve algo muito positivo, a sensação de que havia muita gente torcendo para dar certo. Se uma empresa brasileira reabre esse mercado e desempenha bem, isso é bom para todo mundo. Abre uma porta”, diz.
O PicPay precificou suas ações na bolsa a um preço estimado de US$ 19 (R$ 98,28) — ativos ordinários Classe A, segundo declaração de registro no Formulário F-1 apresentada à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (U.S. Securities and Exchange Commission – “SEC”). Com isso, a fintech levantou US$ 499 milhões (R$ 2,5 bilhões) com a venda de cerca de 22,9 milhões de papéis O valor ficou no topo da faixa de referência de preço da companhia, que pretendia arrecadar US$ 434,3 milhões (R$ 2,2 bilhões) com a oferta.
Segundo o executivo, a empresa vem se reunindo com investidores desde 2021. “Mesmo sabendo que não faríamos o IPO rapidamente, fomos fazendo um processo baseado na repetição e na execução do que era prometido. O que a gente fala que vai fazer, acabamos entregando”, afirmou, destacando que essa consistência foi fundamental para gerar confiança ao longo do tempo.
A oferta foi coordenada por Citigroup, BofA Securities e RBC Capital Markets. O PicPay também concedeu aos coordenadores uma opção, com prazo de 30 dias, para a compra de até 3.428.572 ações ordinárias Classe A adicionais, ao preço do IPO, descontados os abatimentos e comissões de subscrição.
Antes da liquidação da oferta, o PicPay pretende alterar seu nome de Picpay Holdings Netherlands B.V. para PicS N.V. Essa mudança de nomenclatura deverá entrar em vigor na Nasdaq em 30 de janeiro de 2026.
Novo momento
A abertura de capital ocorre após uma tentativa frustrada em 2021, quando as condições de mercado não permitiram que o plano fosse para frente. Agora, a fintech controlada pela família Batista, fundadora do conglomerado JBS, chega aos EUA após anos de preparação e maior presença junto a investidores internacionais.
Há alguns anos, o mercado acionário brasileiro convive com liquidez reduzida, juros elevados e concorrência da renda fixa. Na maioria dos casos, a listagem no exterior surge como alternativa para ampliar a base de investidores e melhorar a liquidez dos papéis. Nos últimos 10 anos, apenas 84 empresas abriram seu capital na B3 — com quase 80% das operações ocorrendo entre 2020 e 2021.
As operações de fusões e aquisições tiraram nove companhias da bolsa brasileira. Segundo um levantamento da consultoria Seneca Evercore, das restantes, apenas 17,9% tiveram um desempenho positivo em relação ao preço de seu IPO. Quando comparado ao desempenho do Ibovespa, apenas 9,5% tiveram uma performance superior ao índice.
Já a Nasdaq é a segunda maior bolsa de valores do mundo. Ela foi fundada na década de 1970, tornando-se uma grande força no mercado acionário mundial no fim dos anos 1990, com o surgimento do que conhecemos hoje como “big techs”.
Em geral, a principal vantagem das bolsas dos EUA é que elas reúnem muitos investidores institucionais e gestores orientados por estratégias de longo prazo. Para companhias em fase de expansão, esse ambiente costuma oferecer maior abertura do que o mercado brasileiro, especialmente em períodos de juros elevados.
PicPay e o ajuste de rota
Apesar das vantagens, o processo para IPO exige governança, transparência e comunicação. Para o CEO do PicPay, os principais desafios estiveram ligados à construção de credibilidade com investidores, à entrega de resultados e à formação de um time sólido.
Além disso, Chedid ressalta que, no atual ambiente de mercado, crescimento de receita, avanço do lucro líquido e escala tornaram-se requisitos mandatórios, especialmente no setor de fintechs. “Sem essa trinca, ou pelo menos uma visibilidade clara de quando a empresa vai se tornar lucrativa, hoje em dia é muito mais difícil. O mercado está mais seletivo”, disse.
O CEO também apontou a equipe como um pilar central do processo. “No final das contas, é o time que entrega todas essas histórias que a gente conta”, afirmou. Eduardo Chedid explica que os investidores valorizam não apenas a constância, mas também a capacidade da empresa de atrair talentos e demonstrar, ao longo do tempo, que a equipe está “cada vez mais robusta e sólida.”
Segundo ele, esse processo foi fundamental para ampliar a credibilidade da companhia. Com a listagem, a empresa passa a seguir todas as exigências da SEC, mas a preparação vem sendo feita há um bom tempo, com ajustes em áreas como controles internos, gestão de risco, alocação de capital e definição de prioridades.
“O IPO marca um momento importante na nossa jornada”, mas ressaltou que “listar na Nasdaq não é o objetivo final; é apenas o começo de um novo e empolgante capítulo da nossa história.”