Desde a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por parte dos Estados Unidos, há grande incerteza sobre o que acontecerá com o mercado de petróleo global. O plano do presidente Donald Trump é que as empresas americanas voltem a operar no país latino e que a maior reserva da commodity do mundo volte a servir o mercado e demanda global.
No momento da captura, no sábado, dia 3 de janeiro, os preços do petróleo subiram devido à escalada das tensões, seguido por queda ou estabilização após o ataque. Na segunda-feira (5), a commodity voltou a iniciar o dia contida, com leve queda, à medida que os investidores ponderaram o aumento do risco político na Venezuela frente a uma oferta global ainda abundante do óleo. Contudo, ao longo da sessão o petróleo reverteu o movimento e encerrou em alta firme, de mais de 1,6%, contrariando os mais pessimistas que acreditavam em uma forte queda quase que imediata nos preços.
O vai e vem dos preços é explicado por incertezas em relação às exportações e pelo risco de interrupções na produção, embora nenhuma mudança direta na produção tenha se materializado até o momento, aponta Gustavo Vasquez, responsável por precificação de petróleo nas Américas da Argus, empresa especializada em análises de commodities.
Curto prazo
Analistas do BTG Pactual apontam que o impacto do ataque será marginal no curto prazo no setor de óleo e gás. “A Venezuela já vinha perdendo produção nos últimos meses devido a restrições na infraestrutura de exportação, e acreditamos que isso dificilmente será um fator relevante de mudança no equilíbrio global”.
A produção da Venezuela representa cerca de 1% da oferta global e suas exportações são majoritariamente absorvidas pela China, por mais que o país seja dono das maiores reservas do planeta. Com a OPEP+ mantendo a produção estável e as condições gerais de oferta confortáveis ainda no domingo, as manchetes geopolíticas aumentaram o vai e vem dos preços, mas não sustentaram sua alta.
Portanto, não há perspectiva realista de aumento imediato da produção venezuelana, que foi de 934 mil barris por dia em novembro, segundo a média de fontes secundárias da OPEP, incluindo a Argus. Investimentos significativos de empresas internacionais, no médio e longo prazo, serão necessários para que a produção retorne ao nível pré-sanções dos EUA — 1,2 milhão de barris por dia em 2018 — ou acima disso. Isso exigiria o fim das sanções e mudanças relevantes no ambiente legal e de negócios da Venezuela, algo improvável diante da instabilidade que deve seguir à deposição do presidente Nicolás Maduro pelos EUA.
Sem contar que uma ampla oferta global de petróleo bruto deve impedir uma alta consistente nos preços. “O petróleo caiu nas últimas sessões. Portanto, o movimento de hoje pode ter sido apenas uma correção”, aponta Fabiano Vaz, analista da Nord Investimentos. João Lorenzi, analista de commodities da WHG, destaca ainda que o movimento da commodity pode estar atrelado ao de outras, como o ouro e a prata.
Médio e longo prazo
Os impactos tendem a ser mais negativos para os preços do petróleo no médio e longo prazo por conta de uma possível alta da oferta de barris no mercado. Isso deve ocorrer assim que as rotas de navegação se estabilizarem e as vias de suspensão das sanções se tornarem mais claras, aponta Thomas Haugaard, gestor de portfólio da equipe de dívida em moeda forte de mercados emergentes da Janus Henderson Investors.
Mas isso deve demorar para acontecer: levando em conta um um cenário construtivo, os analistas do BTG estimam que levaria cerca de dois a três anos para a Venezuela voltar a ser um país com oferta relevante de petróleo. Isso porque não se trata apenas de “autorizar e reiniciar” a produção: uma recuperação sustentável exige um arcabouço fiscal e legal crível, além de um ecossistema funcional de serviços e infraestrutura. Sem isso, a retomada tende a ser lenta e sujeita a retrocessos.
Além disso, a Venezuela permanece membro da OPEP, o que implica que qualquer aumento relevante de produção precisaria ser discutido no contexto de cotas, adicionando incerteza ao ritmo de expansão.
A qualidade do petróleo é outro fator limitante. A produção venezuelana é majoritariamente de óleo pesado, o que dificulta a ampliação da produção. Normalmente, é necessário misturá-lo com petróleo mais leve ou nafta e diluentes para viabilizar transporte, processamento e exportação. Ou seja, o gargalo não é apenas “reativar poços”, mas também de qualidade e logística.
Além disso, a petrolífera estatal venezuelana, a PDVSA, teria solicitado a algumas joint ventures a redução da produção devido à estagnação das exportações, enquanto estoques em terra aumentam. A empresa também enfrenta escassez de diluentes, o que pode levar a paralisações de campos.
Empresas beneficiadas
No exterior, as empresas que podem ser afetadas por mudanças no setor de óleo e gás na Venezuela são: Repsol, Chevron, ExxonMobil e ConocoPhillips. Enquanto a Repsol e a Chevron tem certa de 10% da produção ligada à Venezuela, a ExxonMobil e a ConocoPhillips têm uma disputa legal com o governo venezuelano no valor de cerca de US$ 1 bilhão e US$ 10 bilhões, respectivamente.
No Brasil, os analistas do BTG apontam impactos mais localizados do que sistêmicos. Qualquer efeito deve se concentrar em óleos pesados que competem nos mesmos mercados, como Peregrino (PRIO), Papa-Terra (Brava) e Atlanta (Brava). O óleo de Papa-Terra é vendido no mercado doméstico para abastecer refinarias da Petrobras, enquanto o óleo de Atlanta é exportado para a Ásia para uso como bunker.
Já o portfólio da Petrobras é estruturalmente mais leve, devido à exposição ao pré-sal, o que reduz efeitos amplos. Os analistas do BTG esperam, no máximo, ruídos em graus e mercados específicos.