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Por Que o Petróleo Venezuelano Pode Não Tornar a Ação da Chevron uma Boa Compra

Controversa invasão dos Estados Unidos à Venezuela gera instabilidade política significativa, o que torna improvável que os papéis se valorizem rapidamente

8 min

De acordo com o Google Finance, as ações da Chevron subiram modestos 6% no último ano — bem abaixo da alta de 16,4% registrada pelo índice das 500 maiores empresas americanas, o S&P 500.

A gigante do petróleo é a única grande empresa petrolífera dos Estados Unidos presente na Venezuela — país que foi invadido pelos EUA no dia 3 de janeiro — e, com quase um século de atuação no território venezuelano, é “o maior investidor estrangeiro do país”, segundo o The Wall Street Journal.

A incursão americana na Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa levantaram sérias preocupações, observou o The New York Times.

Afinal, conforme destacou o jornal, o Congresso — que, segundo a Constituição dos EUA, deve ser consultado antes de o país entrar em guerra — não tinha conhecimento da operação. O secretário de Estado, Marco Rubio, descreveu a ação como uma “operação de aplicação da lei” até o fim da manhã de sábado, já depois do início da ofensiva, informou o The Washington Post.

Além disso, o principal democrata do Comitê de Relações Exteriores da Câmara afirmou que Rubio enganou o Congresso. Como isso ocorreu? “Rubio disse que não havia qualquer intenção de invadir a Venezuela”, afirmou o deputado Gregory W. Meeks, de Nova York, ao The Post. “Ele mentiu descaradamente ao Congresso”, acrescentou Meeks.

Agora que o presidente Donald Trump declarou que os Estados Unidos vão administrar a Venezuela, as implicações econômicas da tomada desse país rico em petróleo estão no centro das atenções. A Venezuela possui uma estimativa de 300 bilhões de barris de petróleo, superando a Arábia Saudita, e responde por cerca de 17% das reservas globais, segundo dados da Opep divulgados pelo MSN.

“Vamos fazer com que nossas enormes empresas petrolíferas dos Estados Unidos, as maiores do mundo, entrem no país, invistam bilhões de dólares, consertem a infraestrutura gravemente deteriorada — a infraestrutura petrolífera — e comecem a gerar dinheiro para o país”, disse Trump em uma coletiva de imprensa em Mar-a-Lago.

Isso levanta uma questão para os investidores:

A incursão dos EUA na Venezuela transforma as ações em uma oportunidade?

Se o objetivo for renda com dividendos — a empresa oferece um retorno com dividendos (dividend yield) de 4,5%, com décadas de aumentos anuais — a Chevron pode ser uma boa opção. No entanto, o controle americano da Venezuela não significa que o preço do papel deva subir rapidamente. Há três motivos principais para essa conclusão:

  • Risco geopolítico. A exposição à Venezuela e ao Oriente Médio pode resultar em confisco de ativos ou interrupções operacionais. Após a invasão, a Venezuela continua sendo um ambiente de altíssimo risco.
  • Dependência do preço do petróleo. Se o petróleo cair abaixo de US$ 60 por barril (R$ 342), o fluxo de caixa livre destinado à recompra de ações e ao pagamento de dividendos pode desaparecer. Além disso, caso a produção venezuelana aumente de forma relevante, o acréscimo de oferta pode pressionar os preços para baixo, reduzindo ainda mais as perspectivas de geração de caixa da empresa.
  • Desafios de crescimento. A Chevron — que registrou uma queda de receita de cerca de 1% a 2% em 2025 — enfrenta dificuldades para crescer de forma orgânica sem aquisições caras, como a da Hess. Além disso, o tempo e o capital necessários para modernizar a capacidade produtiva de petróleo da Venezuela — caso a Chevron participe — podem atrasar qualquer retorno potencial sobre o investimento.

A Chevron recuou de uma declaração inicial segundo a qual trabalharia com o governo dos EUA durante a transição. A nova posição é: “A Chevron continua focada na segurança e no bem-estar de seus funcionários, assim como na integridade de seus ativos”, afirmou um comunicado de 3 de janeiro citado pela Newsweek. “Seguimos operando em total conformidade com todas as leis e regulamentos aplicáveis.”

A instabilidade política na Venezuela pode continuar

Ainda não está claro o que significa, na prática, os Estados Unidos administrarem a Venezuela. Por enquanto, a vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez, permanece no poder, segundo o The Times. No entanto, seu mandato durará enquanto ela “fizer o que queremos”, afirmou Trump.

Mesmo assim, sua reação inicial à ação americana não foi animadora, já que Rodríguez acusou os Estados Unidos de invadirem “seu país sob falsos pretextos”, acrescentou o The Times.

Segundo informações, os EUA não pretendem realizar uma ocupação formal como a Autoridade Provisória da Coalizão fez no Iraque. “Vamos dizer a eles: ‘Olha, é isso que vocês precisam fazer para que não haja outro ataque’”, afirmou ao The Post um ex-assessor do Senado que mantém contato com Rubio. “É assim que [Trump] enxerga administrar o país.”

É altamente incerto se os Estados Unidos conseguirão resolver os problemas da Venezuela antes de sair. Pelo menos até lá, a Chevron e outros executivos do setor — cientes de que a Venezuela confiscou ativos petrolíferos nas décadas de 1970 e 2000 — serão “forçados a avaliar a estabilidade no terreno em um país onde a indústria entrou em colapso após mais de duas décadas de má gestão e corrupção”, destacou o The Wall Street Journal.

Esse investimento — entre US$ 65 bilhões e US$ 100 bilhões (R$ 370,5 bilhões a R$ 570 bilhões), segundo Schreiner Parker, analista da consultoria energética Rystad, em entrevista ao Financial Times — parece intimidador. Como afirmou ao Journal o economista Orlando Ochoa, baseado em Caracas, a liberação do capital necessário para ampliar a extração de petróleo só deve ocorrer quando o país:

  • trouxer de volta dezenas de milhares de profissionais do setor que deixaram a Venezuela durante o governo Maduro;
  • elaborar um plano de estabilização econômica para atrair o financiamento necessário à “reconstrução da infraestrutura e das instalações petrolíferas enferrujadas”;
  • modificar as leis locais para permitir que empresas privadas de energia operem “sem interferência excessiva do Estado”;
  • reestruturar US$ 160 bilhões (R$ 912 bilhões) em dívida pública; e
  • convencer empresas estrangeiras a retornar, resolvendo disputas pendentes em processos de arbitragem.

É improvável que grandes companhias de petróleo tenham incentivo financeiro para realizar esses investimentos quando é possível produzir mais petróleo nos Estados Unidos com relativamente pouco capital adicional.

O preço do petróleo pode cair

Com a expectativa de aumento da oferta global e os preços do petróleo permanecendo abaixo de US$ 60 por barril (R$ 342), há pouco apetite por produção adicional que leve a maioria dos produtores americanos a investir na recuperação da infraestrutura petrolífera venezuelana.

Por quê? “Uma coisa que joga contra é o preço do petróleo”, afirmou ao Journal Ali Moshiri, ex-chefe das operações da Chevron na América Latina e na África. “No ambiente atual, se você vai investir, coloca o dinheiro no Permiano [bacia nos EUA] ou na Venezuela? Essa é uma escolha difícil”, acrescentou.

“Apesar de ser um enorme evento geopolítico que normalmente se esperaria que impulsionasse os preços”, disse Rasmussen, “o fato é que ainda há petróleo demais no mercado, e é por isso que os preços não vão disparar.”

Perspectivas fracas de crescimento da Chevron

Embora altamente lucrativas, as vendas de petróleo venezuelano da Chevron em 2025, de cerca de 150 mil barris por dia, representaram aproximadamente 2% da receita corporativa — entre US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões (R$ 11,4 bilhões a R$ 22,8 bilhões) de um total de US$ 190 bilhões (R$ 1,083 trilhão), segundo a Trefis.

Infelizmente, essa receita desapareceu quando a licença americana da Chevron para exportar esse petróleo expirou em 27 de maio de 2025, de acordo com a Zacks, sendo restabelecida apenas em julho, conforme noticiado pela Reuters. Mesmo que a produção venezuelana da Chevron dobrasse, isso não acrescentaria de forma relevante ao crescimento da empresa.

A receita da Chevron vem caindo de maneira consistente, com uma redução média anual de 6,2% nos últimos três anos. Ainda assim, enquanto o preço do petróleo permanecer acima de US$ 55 (R$ 313,5), a empresa consegue sustentar seus dividendos e manter as recompras de ações.

A expectativa é de que a receita da Chevron volte a um território levemente positivo em 2026. A estimativa média dos analistas para a receita da companhia em 2026 é de US$ 189 bilhões (R$ 1,0773 trilhão), um aumento de 1% em relação aos US$ 186,9 bilhões (R$ 1,06533 trilhão) registrados em 2025, segundo o Yahoo Finance.

O que dizem os analistas

A Chevron apresenta um potencial moderado de valorização. O preço-alvo médio em Wall Street, de US$ 177,61 (R$ 1.012,38), implica um ganho de 14%, segundo a TipRanks.

Devin McDermott, do Morgan Stanley, destaca a aquisição da Hess por US$ 53 bilhões (R$ 302,1 bilhões) — que garantiu à Chevron 30% de um campo petrolífero na Guiana com 11 bilhões de barris, segundo a Reuters — como “um passo estratégico importante… diversificando e fortalecendo as perspectivas de crescimento da empresa”, projetando um acréscimo de 3,5% no fluxo de caixa livre por ação em 2026, conforme apontado pelo Seeking Alpha.

As ações da Chevron podem subir em 2026, mas não por causa do petróleo venezuelano.

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