O Banco Central afirmou que a decisão de sinalizar um corte de juros na reunião de março foi tomada após análise de informações como a dinâmica recente da inflação e os “sinais mais claros” de transmissão da política monetária para a economia, considerando suas defasagens. É o que mostrou nesta terça-feira a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).
Na semana passada, a autarquia decidiu manter a taxa Selic em 15% ao ano e indicou que iniciará um ciclo de corte de juros em março, mas enfatizou que manterá “a restrição adequada” para levar a inflação à meta.
Repercussão
Após a divulgação do documento, o economista do ASA, Leonardo Costa, optou por manter sua aposta de corte de 0,25 ponto percentual em março, com risco de corte de 0,50 ponto percentual. “Em prol de uma postura mais cautelosa, o BC segue citando, principalmente, a resistência do mercado de trabalho e as expectativas de inflação ainda distantes da meta. Milita a favor do BC, conforme escrito na ata, o arrefecimento da inflação (índice cheio e medidas subjacentes) e a redução das incertezas de curto prazo (em seu balanço de risco)”. Costa projeta que a Selic encerre o ano em 12,5%.
Para Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, a ata do Copom foi neutra em relação ao comunicado: deixa em aberto o ritmo e também o tamanho do ciclo, mas ressaltando que é unânime a avaliação da necessidade de uma Selic restritiva – o que é um limitante para debate de taxas mais baixas.
“Nos pareceu uma ata que fortalece o cenário-base do Focus, de corte de 0,50 ponto percentual. O BC optou por não dar sinais mais fortes de que a discussão de 0,25 ponto percentual está na mesa. Ademais, seguimos com a visão de que o fluxo de dados ao longo de fevereiro tende a fortalecer o debate de aceleração em algum momento do ciclo. Seguimos projetando a Selic em 13% ao final de 2026”.
O Itaú BBA reforça essa visão e analisa que embora a ata não descarte a possibilidade de iniciar o ciclo de flexibilização com um corte de 0,25 ponto percentual em março – indicando o mercado de trabalho como a principal fonte de desconforto – o texto também não rejeita a opção de 0,50 ponto percentual. “Se as próximas divulgações vierem em linha com nossas projeções, acreditamos que a alternativa de 0,50 ponto percentual se tornará ainda mais dominante na visão do mercado”.
Reforço do comunicado
O comitê reforçou na ata o que havia dito no comunicado da decisão: que a magnitude e a duração do ciclo de flexibilização monetária serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às suas análises. Também enfatizou necessidade de juros ainda restritivos para domar a inflação.
“Essa decisão é compatível com o cenário atual, no qual sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços ainda dificultam a identificação de tendências claras”, disse o BC no documento, reafirmando seu compromisso com a meta de inflação de 3%.
O documento da reunião apontou que todos os membros da diretoria reafirmam a necessidade da manutenção do patamar de juros em níveis restritivos, até que se consolide não apenas o processo de redução da inflação como também a ancoragem das expectativas de mercado para os preços ao consumidor.
Essa visão, segundo a ata, se deve à “resiliência de fatores que pressionam preços tanto correntes quanto esperados, em especial do dinamismo ainda observado no mercado de trabalho”, com rendimentos reais médios que têm mantido a tendência de elevação acima do crescimento da produtividade.
Na discussão sobre a calibração dos juros, o BC destacou a melhora na inflação corrente e disse que as expectativas de mercado estão “menos distantes” da meta.
O mercado financeiro tem melhorado as projeções para os preços no país, mas com maior resistência em períodos mais longos, sempre em níveis ainda fora do centro do alvo. A previsão para o IPCA de 2026 no boletim Focus caiu de 4,16% antes do encontro do Copom em dezembro para 4,00% antes do Copom da semana passada, ficando inalterada em 3,80% para 2027 e em 3,50% para 2028.
Na reunião, o Copom manteve seu balanço de riscos para a inflação à frente, citando chances mais elevadas tanto de baixa quanto de alta. No entanto, passou a apontar “alguma redução das incertezas concentradas nos horizontes mais próximos”.
Para o BC, o cenário externo segue incerto, mas condições recentes sugerem algum arrefecimento na incerteza.
“Elevações das tensões geopolíticas e seus desdobramentos seguem sendo monitorados, porém no contexto atual os preços das principais commodities permaneceram contidos, e as condições financeiras, favoráveis”, disse.