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A Queda de 36% das Ações da Microsoft Revela um Problema Mais Profundo na IA

Empresa enfrenta ceticismo em relação aos elevados investimentos em inteligência artificial e ao baixo retorno do Copilot

6 min

As ações da Microsoft recuaram 36% desde o pico histórico registrado em outubro de 2025. O primeiro trimestre de 2026 pode ser o pior desde 2008, no auge da crise financeira, quando os papéis da gigante de software caíram 27%, segundo a Bloomberg.

A desvalorização reflete a incapacidade da empresa de contrariar duas narrativas predominantes:

  • As grandes empresas de tecnologia estão ampliando os investimentos em capital sem gerar crescimento mais acelerado.
  • Agentes de IA da OpenAI e da Anthropic podem pressionar preços e margens dos softwares da Microsoft.

A companhia acredita estar em posição única para obter retorno sobre o capital investido ao oferecer softwares que reduzem o custo total de propriedade (TCO) dos clientes.

“Precisamos gerenciar um negócio intensivo em capital usando todas as alavancas que o software nos oferece — controlando o TCO, a utilização, otimizando os sistemas conforme a carga de trabalho e garantindo uma base diversa de clientes”, afirmou o CEO Satya Nadella ao Morgan Stanley Research. “Tudo isso deve gerar um forte retorno sobre o capital investido, e isso é algo provavelmente único”, acrescentou.

Embora Wall Street veja potencial de valorização de até 57%, o autor do texto mantém uma visão cética sobre a ação. Para ele, Nadella repete movimentos do antecessor Steve Ballmer ao tentar prender clientes ao maior número possível de serviços da Microsoft.

No campo dos chatbots de IA, a estratégia parece semelhante — sem entregar aos usuários finais um produto superior ao dos concorrentes pelo preço cobrado.

Além disso, há dúvidas sobre a capacidade da Microsoft de alcançar e superar o Claude, da Anthropic, que vem liderando o avanço de agentes de IA realmente úteis para os usuários.

Como a Microsoft perdeu a liderança inicial em IA

A Microsoft — que investiu US$ 13 bilhões (R$ 67,34 bilhões) na OpenAI — vem gastando US$ 30 bilhões por trimestre (R$ 155,4 bilhões) em infraestrutura de IA.

Analistas projetavam grande retorno com os chatbots. Em 2023, o Credit Suisse estimou que o Copilot geraria US$ 40 bilhões (R$ 207,2 bilhões) em receita até 2028.

A realidade ficou muito abaixo. Embora a empresa não divulgue números oficiais, estimativas indicam que a receita anual do Microsoft 365 Copilot em 2025 ficou entre US$ 1,4 bilhão (R$ 7,25 bilhões) e US$ 3,2 bilhões (R$ 16,58 bilhões).

Isso se deve à baixa adoção: apenas entre 2% e 3,3% dos 450 milhões de usuários comerciais do Microsoft 365 pagam o adicional de US$ 30 por usuário ao mês (R$ 155,40).

A maioria das empresas não enxerga retorno sobre o investimento. Em termos simples, o tempo economizado ou o valor gerado não compensam o custo adicional de licenças.

O motivo? A Microsoft buscou acelerar receita aplicando um chatbot genérico em toda sua linha de produtos — do Bing ao Windows e ao Office.

O problema é que o Copilot não trouxe funcionalidades organizacionais básicas, como fixação de conversas, recuperação de contexto em projetos longos ou execução de tarefas complexas em múltiplas etapas.

Um exemplo extremo: um contador relatou que usa Claude ou ChatGPT fora do trabalho para refazer tarefas feitas no Copilot e depois envia o resultado por e-mail, já que sua empresa proíbe ferramentas externas.

Por que o Claude entrega mais valor

A própria Microsoft reconhece isso de forma implícita. Ao recorrer aos modelos do Claude para melhorar o Copilot — com a introdução do Copilot Cowork — a empresa admite a superioridade da Anthropic em inteligência artificial, colocando em risco seu investimento na OpenAI.

Enquanto a Microsoft apostou na distribuição, a Anthropic venceu pela qualidade e confiança.

Isso elevou sua participação no mercado corporativo de 18% para 40% em menos de dois anos, conquistando clientes como Goldman Sachs e Allianz.

Diferente do ChatGPT, o Claude não exige supervisão constante: consegue executar horas de trabalho autônomo sem falhas. Com janela de contexto superior a 200 mil tokens, consegue processar documentos de até 600 páginas e reduzir em 80% o tempo de tarefas que levariam 1,4 hora.

A confiança vem também da política de “retenção zero”: os dados não são usados para treinar modelos e são apagados após cada sessão.

Para setores sensíveis como saúde e finanças, isso abre oportunidades relevantes.

Retorno sobre investimento: Claude vs Copilot

Além da capacidade técnica, o retorno financeiro é determinante.

O Claude supera o Copilot nesse aspecto.

Embora o preço inicial do Copilot seja metade dos US$ 60 mensais (R$ 310,80) do Claude, ele exige licenças Microsoft 365 E3 ou E5, que custam entre US$ 36 (R$ 186,48) e US$ 57 (R$ 295,26) adicionais por usuário ao mês.

Além disso, a Microsoft cobra o mesmo valor independentemente do uso.

Se uma empresa compra 1.000 licenças de Copilot (US$ 360.000/ano — R$ 1.864.800) e apenas 5% dos funcionários utilizam diariamente, o custo efetivo sobe para US$ 600 por usuário ativo ao mês (R$ 3.108).

Já o Claude consegue se pagar ao reduzir custos de programação. Seus modelos têm taxa de sucesso de 72,5% e aumentam a produtividade em 55%.

Se uma empresa paga US$ 1.000 mensais (R$ 5.180) em APIs, esse ganho compensa o custo considerando um engenheiro que recebe US$ 150.000 por ano (R$ 777.000).

O Copilot, por sua vez, reduz tempo em tarefas simples, mas tem desempenho inferior em tarefas complexas e autônomas, com taxa de sucesso entre 45% e 55%.

Também apresenta limitações de contexto (30 a 60 minutos) e exige intervenção humana frequente.

A perda de espaço

Mesmo tentando avançar com IA baseada em agentes, a Microsoft perde tração.

Entre meados de 2025 e janeiro de 2026, a parcela de usuários que utilizam o Copilot como principal ferramenta caiu de 18,8% para 11,5%.

Uma pesquisa de 2026 aponta que o Claude Code lidera com 46% de preferência, contra apenas 9% do GitHub Copilot.

O que dizem os analistas

Apesar dos desafios, Wall Street segue otimista.

Segundo a Bloomberg, 67 analistas fixaram preço-alvo médio de US$ 592 (R$ 3.066,56), o que implica potencial de alta de 66%.

Nem todos concordam.

Jonathan Cofsky, da Janus Henderson, alerta que clientes podem migrar direto para fornecedores de IA, pressionando o modelo de negócios da Microsoft.

Ele também questiona o retorno dos investimentos:
“A Microsoft se tornou muito mais intensiva em capital. Para que as ações avancem, precisamos ter mais confiança de que o crescimento não vai desacelerar.”

Os gastos de capital devem crescer 29,5% ao ano entre 2025 e 2028, passando de US$ 88 bilhões (R$ 455,84 bilhões) para US$ 191 bilhões (R$ 989,38 bilhões).

Já Jake Seltz, da Allspring, mantém visão positiva de longo prazo, afirmando que a estratégia de IA será validada e que o momento atual pode ser oportunidade para investidores pacientes.

Ainda assim, persiste uma preocupação: o Microsoft 365 não apresentou aceleração de receita com o Copilot, segundo o UBS.

Se a empresa não conseguir reduzir sua dependência de um ecossistema fechado para seus 450 milhões de usuários, a Anthropic continuará ampliando sua participação no mercado de IA.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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