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Bitcoin Resistiu Melhor Ao Conflito no Oriente Médio do Que Ao Anúncio do Fed sobre Juros

Bitcoin sobe 3,60% após ataques no Oriente Médio, mas recua 5% com a a manutenção dos juros pelo FED; para analistas, inflação persistente e energia cara são novos desafios

5 min

O mercado de criptoativos viveu uma montanha-russa de narrativas na primeira quinzena de março. Enquanto o cenário geopolítico no Oriente Médio testou a tese do bitcoin como “ouro digital”, as decisões de política monetária do Federal Reserve (FED), o banco central americano, lembraram aos investidores que, no curto prazo, a liquidez do dólar ainda dita o ritmo dos preços.

As cotações da criptomoeda subiram 3,60% um dia após o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, sendo negociada a US$ 58 mil (R$ 302,7 mil). Em contraste, o anúncio da manutenção dos juros americanos na quarta-feira (18) provocou uma queda imediata de 5%, derrubando as cotações de US$ 73 mil para US$ 70 mil.

Por que os preços do bitcoin não caíram com a guerra?

Diferentemente de outros ativos de risco que sofreram com a escalada de tensões entre EUA e Irã, o bitcoin demonstrou uma resiliência inesperada. No início do conflito, o temor era que um bloqueio no Estreito de Ormuz provocasse um choque energético global. Isso fez o preço do barril petróleo do tipo Brent subir até 13%. Embora o bitcoin tenha sofrido uma volatilidade inicial de 9% devido à sua natureza de negociação 24 horas (permitindo que investidores fizessem negócios antes da abertura dos mercados tradicionais), a recuperação foi veloz.

Como explica Ana de Mattos, Analista Técnica e Trader Parceira da Ripio, essa queda inicial não foi perda de confiança, mas sim uma questão de disponibilidade de liquidez imediata. “Historicamente, guerras elevam déficits e pressionam a inflação global. É nesse cenário que a natureza do bitcoin se destaca: por ser um ativo de emissão controlada e independente de bancos centrais, ele atrai o investidor que busca proteção patrimonial diante da inevitável desvalorização das moedas fiduciárias em tempos de crise”, diz.

Enquanto os preço do ouro e da prata caíam, o bitcoin acumulou alta de 4,61% no último mês, impulsionado por um fluxo institucional robusto via Exchange Traded Funds (ETF) no mercado a vista, que injetaram cerca de US$ 1,53 bilhão no mercado entre os dias 2 e 18 de março.

O anúncio do FED e a sensibilidade à liquidez global

Se a guerra reforça a tese de reserva de valor, a política monetária do FED destaca a faceta de ativo de risco do bitcoin. Na reunião de 18 de março, a autoridade monetária americana manteve os juros inalterados (3,50% a 3,75%), mas adotou um tom conservador, ou “hawkish”. A revisão da projeção de inflação para 2,7% em 2026 e a sinalização de apenas um corte de juros para o ano todo mudaram o humor do mercado.

Segundo Paulo Camargo, CIO da Underblock, o comitê está muito mais confortável em manter os juros altos por mais tempo, o que impacta diretamente o apetite ao risco. Quando o Fed sinaliza que a liquidez global continuará restrita, o investidor “tira o pé do acelerador”. Camargo observa uma correção à frente “um pouco mais profunda para o bitcoin e para as criptomoedas em um movimento de aversão ao risco.”
O impacto foi visível nos preços. Segundo o portal de cotações CoinMarketCap: o BTC perdeu força logo após a coletiva de Jerome Powell, recuando de sua máxima diária de US$ 74.672 para a mínima de US$ 70.500. Esse movimento de “risk-off” mostra que, para o investidor de curto prazo, o custo do capital ainda fala mais alto que as tensões geopolíticas.

Ciclo de energia e inflação: o novo desafio para o momentum de alta

O cenário atual apresenta um paradoxo complexo. O conflito no Oriente Médio deixou de ser apenas um risco logístico para se tornar um risco de produção, com ataques a refinarias e infraestrutura energética.
Isso pressiona a inflação global e, como observa Mattos, reduz a probabilidade de cortes de juros, mantendo o dólar forte e os rendimentos das Treasuries elevados (4,25%). “Na sequência, o mercado cripto foi impactado pela reprecificação macro, especialmente via juros e inflação. Na reunião do Fomc, também em 18 de março, o Fed manteve as taxas inalteradas, mas revisou para cima a projeção de inflação para 2026, de 2,5% para 2,7%.”

Apesar da queda recente de 2,90% registrada no dia 19, os analistas gráficos ainda enxergam um momentum de alta sustentado por dois pilares: a demanda institucional ininterrupta (com destaque para as compras da Strategy) e uma possível rotação de capital do ouro para o bitcoin.

Com o metal precioso mostrando sinais de cansaço em US$ 4.900 e a inflação corroendo os retornos da renda fixa, o Bitcoin permanece no radar para um rali sustentado, desde que consiga manter o suporte na região de US$ 63.900.

No curto prazo, o mercado segue digerindo o impacto da energia cara sobre as próximas decisões do Federal Reserve.

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