Com carregamentos de petróleo e gás natural retidos no Estreito de Ormuz, países pressionados pela crise energética voltam a apostar no carvão — abundante, confiável e altamente poluente. Para a maior mineradora de carvão dos Estados Unidos, isso significa lucros em alta.
“Não dá para simplesmente abrir a torneira”, afirma Jim Grech, CEO da Peabody Energy. Segundo ele, clientes no Japão, Coreia do Sul e Taiwan estão pressionando a empresa por mais fornecimento para evitar escassez de energia, substituindo o gás natural por carvão na geração elétrica.
Grech diz que gostaria de atender todos os operadores de usinas na Ásia que buscam substituir cargas de gás natural liquefeito (GNL) presas no estreito, mas a Peabody já opera suas minas em New South Wales, na Austrália, no limite da capacidade. “É preciso mais equipes, mais equipamentos escavando. Não há como aumentar a produção rapidamente”, afirma. A empresa já conduz uma expansão de longo prazo na mina de Wilpinjong, que deve dobrar a produção para 10 milhões de toneladas por ano até 2030. Também produz 3,5 milhões de toneladas anuais na mina de Wambo, em joint venture com a Glencore, e amplia a produção da mina de carvão metalúrgico Centurion. (Quase todo o carvão australiano é vendido para usinas no Japão, Índia, Filipinas, Coreia do Sul, Taiwan e Vietnã.)
Nos últimos anos, o Nordeste da Ásia vinha reduzindo a dependência do carvão em favor do gás natural, considerado mais limpo. Agora, a região voltou ao mercado em busca de milhões de toneladas adicionais por ano. “Quando surgem problemas de segurança energética, o mundo recorre novamente ao carvão”, diz Grech, de 59 anos, nomeado em janeiro presidente do Conselho Nacional do Carvão do governo Trump. “Não há outras opções.”
O Japão já sinaliza flexibilizar restrições ao uso de carvão; Taiwan prepara a retomada da usina a carvão de Hsinta; a Coreia do Sul suspendeu limites de poluição; e a Índia ordenou que usinas acelerem a manutenção de primavera para suportar maior carga quando o gás escassear. Até a Europa avalia reativar usinas desativadas.
Com o Catar alertando que pode levar anos para normalizar suas exportações de GNL, traders elevaram os preços do carvão em 20% no último mês, para US$ 150 por tonelada (R$ 772,50). Até onde pode ir? “Se o conflito se estender além de maio, o carvão pode chegar a US$ 200 por tonelada (R$ 1.030)”, afirma Tony Knutson, chefe de pesquisa de carvão térmico da consultoria Wood Mackenzie. Ainda assim, o combustível seguiria relativamente barato. Os preços globais de GNL dobraram no último mês, para US$ 20 por milhão de BTUs — o equivalente a US$ 460 por tonelada (R$ 2.369) de carvão de Newcastle.
“Não vendemos com seis meses ou um ano de antecedência. A maior parte dos nossos carregamentos não tem preço definido. Então, quando os preços sobem, nossa receita sobe junto”, afirma Grech. Ele acredita que o efeito dominó do bloqueio de Ormuz também deve impulsionar a demanda doméstica pelo carvão da Peabody extraído em Wyoming.
Resultados e valorização acelerada
Com sede em St. Louis, a Peabody registrou receita de US$ 3,8 bilhões (R$ 19,57 bilhões) e EBITDA de US$ 455 milhões (R$ 2,34 bilhões) em 2025. Para este ano, o analista Matthew Key, da Texas Capital, projeta vendas de US$ 4,6 bilhões (R$ 23,69 bilhões) ou mais, com EBITDA podendo chegar a US$ 870 milhões (R$ 4,48 bilhões). O lucro por ação deve atingir US$ 2,39 (R$ 12,31), revertendo prejuízo de US$ 0,46 (R$ 2,37) no ano anterior. Com as ações a US$ 35,70 (R$ 183,86), isso implica um múltiplo preço/lucro futuro de 15 vezes.
Mesmo assim, novos investidores já perderam uma valorização expressiva: os papéis da empresa subiram 130% no último ano e 400% desde que Grech assumiu, em junho de 2021. Antes, ele foi CEO da Wolverine Fuels e presidente da Nexus Gas Transmission. Quando chegou à Peabody, a empresa ainda era uma gigante, mas vinha fragilizada após uma década enfrentando a concorrência de energias renováveis e do gás de xisto, além de dívidas elevadas (já quitadas). A companhia saiu de recuperação judicial em 2017, mas foi novamente impactada pela pandemia, que derrubou a demanda e levou as ações a mínimas históricas no fim de 2020.
Desde então, Grech tem priorizado a expansão do carvão metalúrgico na Austrália, mais rentável. Em 2024, tentou adquirir minas da Anglo American por US$ 3,8 bilhões (R$ 19,57 bilhões), mas um incêndio em uma das unidades inviabilizou o negócio.
O carvão nunca saiu de cena
Apesar da má reputação ambiental, o carvão nunca deixou de ser relevante. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo global atingiu recorde de 9 bilhões de toneladas no ano passado. É o principal responsável pelo aquecimento global, reconhece a própria Peabody em seus documentos à SEC, mas o consumo segue crescendo.
A China responde por mais da metade desse volume, embora avance em energias alternativas. Nos Estados Unidos, o consumo caiu para 500 milhões de toneladas por ano — metade do nível de uma década atrás –, mas subiu 13% no último ano, impulsionado por políticas do governo Trump.
A revolução do gás de xisto foi o principal fator por trás da queda do carvão. Há 15 anos, ele respondia por 47% da geração elétrica nos EUA; hoje, caiu para 16%, pouco acima da participação combinada de energia eólica e solar.
Wyoming e o potencial subexplorado
Um dos ativos que ainda não atingiu seu potencial é a mina North Antelope Rochelle, em Wyoming — a maior do país em volume. Trata-se de uma mina a céu aberto, com escavadeiras gigantes carregando carvão em caminhões do tamanho de mansões. A produção foi de cerca de 80 milhões de toneladas no último ano, abaixo das 100 milhões de toneladas registradas uma década atrás.
Com a nova demanda impulsionada pela guerra, esse cenário pode mudar. Os preços subiram para US$ 15 por tonelada (R$ 77,25), ante US$ 11,50 (R$ 59,23) durante a pandemia, e a lucratividade avançou para US$ 2 por tonelada (R$ 10,30), ante menos de US$ 1 (R$ 5,15).
Hoje, não há uma rota viável de exportação para o carvão de Wyoming, devido à distância dos portos. Os EUA exportam cerca de 40 milhões de toneladas por ano — uma fração de um mercado global marítimo de 1 bilhão de toneladas, dominado pela Indonésia.
A Peabody tenta há anos viabilizar exportações. Um projeto de terminal de US$ 500 milhões (R$ 2,58 bilhões) em Seattle foi barrado por oposição ambiental. A empresa agora aposta em um plano em Oakland, na Califórnia, e em um projeto portuário de US$ 700 milhões (R$ 3,60 bilhões) em Guaymas, no México, com capacidade de 30 milhões de toneladas anuais.
Energia, guerra e o retorno do carvão
Grech defende uma visão ampla do mercado: quanto mais outras empresas exportam, maior o espaço para a Peabody no mercado doméstico. Como as minas de Wyoming conseguem expandir produção com menor custo do que as operações subterrâneas do leste dos EUA, a empresa pode ganhar participação.
Ao mesmo tempo, a demanda por eletricidade cresce rapidamente, impulsionada por novos data centers de inteligência artificial — o que pode reforçar o papel do carvão. “Vamos precisar de todas as fontes disponíveis”, afirma.
Aliado de Trump, Grech apoiou o decreto de janeiro de 2025 que declarou emergência energética nacional, permitindo ao governo manter usinas a carvão em operação sem aprovação do Congresso. A medida enfrenta resistência: o procurador-geral do Colorado entrou na Justiça contra a extensão da vida útil de uma usina, enquanto o Sierra Club também contesta decisões semelhantes.
Um possível novo vetor de valor está na identificação de minerais raros associados ao carvão. A Peabody já coletou 800 amostras e identificou presença de germânio e gálio, usados em eletrônicos. Testes estão em andamento com o Departamento de Energia dos EUA e universidades. “É uma incógnita promissora”, diz Grech.
Para ele, quanto mais tempo o Estreito de Ormuz permanecer fechado, maior será a percepção do carvão como fonte emergencial de energia — fácil de estocar e disponível. “Nunca houve uma guerra por causa do carvão. O mundo nunca enfrenta uma crise energética por falta dele.”
- Reportagem originalmente publicada em Forbes.com