O avanço dos preços do petróleo traduz, em números, o impacto da tensão no Oriente Médio e da guerra no Irã, que completou mais de um mês de duração. No fechamento de mercado de quinta-feira (02) , o óleo tipo Brent subiu 7,78%, a US$ 109,03 por barril, enquanto o WTI avançou 11,41%, para US$ 111,54, marcando o maior ganho diário absoluto desde 2020. A disparada reflete o aumento do prêmio de risco associado à região.
Com o prolongamento do conflito, o trânsito de navios pelo Estreito de Ormuz, uma das principais rotas do petróleo no mundo, começa a procurar por alguma adaptação. Em meio ao bloqueio no tráfego mantido pelo Irã, alguns navios passaram a utilizar trajetos menos usuais na travessia, indicando ajustes operacionais para reduzir a exposição às áreas mais sensíveis.
É o que revelam dados de rastreamento marítimo acessados pela agência de notícias chinesa Caixin Global. A agência informou que um comboio com dois superpetroleiros (VLCCs) e um navio de gás natural liquefeito cruzou a região por um caminho pouco usual, emergindo próximo a Mascate, em Omã. A conclusão é que o mercado já começa a testar alternativas dentro da própria rota.
No caminho habitual também há sinais de circulação seletiva, com regras informais que já influenciam o comportamento do mercado.
Desde quinta-feira, ao menos cinco embarcações conseguiram atravessar o estreito: três petroleiros operados por Omã, um navio porta-contêineres francês e um navio de gás natural liquefeito ligado ao Japão, segundo apurou a Reuters. As travessias refletem uma política adotada pelo Irã de permitir a passagem de embarcações consideradas “amigáveis”, sem vínculos com Estados Unidos ou Israel.
Segundo dados da empresa de inteligência Vortexa, que monitora em tempo real o transporte global de petróleo, o fluxo de óleo combustível pelo estreito estava praticamente interrompido desde o início do conflito. Em 2025, cerca de 580 mil barris por dia desse produto passavam pela região, sendo a maior parte de óleo pesado com alto teor de enxofre. Antes da escalada, o estreito concentrava cerca de um quinto do fluxo global de petróleo e gás natural liquefeito, o que ajuda a dimensionar o impacto do fechamento.
Queda nas exportações e choque nos combustíveis
Relatório da Vortexa mostrou que as exportações de combustíveis de transporte , como gasolina, diesel e querosene, caíram cerca de 1 milhão de barris por dia em março na comparação anual, puxadas principalmente pela redução de embarques no Oriente Médio e pela menor circulação em Ormuz.
Ao mesmo tempo, grandes produtores asiáticos passaram a restringir exportações para proteger o mercado doméstico. A China suspendeu vendas externas de combustíveis refinados, a Coreia do Sul limitou embarques e a Índia elevou tributos sobre exportações de diesel e querosene.
No Brasil, estudo do IBPT mostra que a alta dos combustíveis foi registrada em todas as regiões do Brasil e especialistas já apontam os efeitos nas próximas divulgações do índice que mede a inflação oficial do país, o IPCA. A pressão inflacionária pode, na visão dos economistas consultados, segurar os juros altos por mais tempo do que o esperado.
Desvios de carga
A reorganização dos fluxos já aparece nas rotas. Segundo um novo relatório divulgado pela Vortexa nesta quinta-feira (02), ao menos seis navios carregados com diesel no Golfo dos Estados Unidos, originalmente destinados à Europa, mudaram de rota no meio da viagem, passando a indicar destinos no Atlântico Sul e na África.
Cinco dessas embarcações passaram a sinalizar Durban, na África do Sul, enquanto outra permaneceu ancorada na costa oeste africana. Antes do desvio, os navios tinham como destino portos como Amsterdã e Gibraltar, indicando que as cargas ainda buscavam compradores.
O redirecionamento tem incentivo econômico. O diferencial de preços entre Ásia e Ocidente chegou a cerca de US$ 297 por tonelada, favorecendo o envio de combustível para mercados asiáticos.
Esse rearranjo logístico se traduz diretamente nos preços. Com menos oferta disponível e custos mais altos de transporte, o petróleo incorpora um prêmio de risco mais elevado, conforme ratificam as cotações recentes.
Relatório recente do Goldman Sachs projeta que em um cenário de interrupção severa de 60 dias no fluxo marítimo da região do Estreito de Ormuz, o barril poderia disparar para US$ 145, forçando uma reconfiguração completa das cadeias de suprimento globais.
Os efeitos já começam a aparecer fora do setor de energia. Dados da Food and Agriculture Organization mostram que os preços globais dos alimentos subiram em março, com o índice atingindo 128,5 pontos, alta de 2,4% no mês, pressionada principalmente pelo aumento dos custos de energia.