O cessar-fogo temporário entre Estados Unidos e Irã trouxe um alívio imediato aos mercados, mas abriu uma nova camada de incerteza sobre o que vem pela frente. Em poucas horas após o anúncio, o petróleo voltou a custar menos de 100 dólares por barril, o custo do diesel caiu e moedas emergentes, como o real, ganharam força. Para o Brasil, o efeito começa a aparecer rápido. Mas pode não durar.
A queda das cotações internacionais já reduziu o custo do diesel importado e abriu espaço para recuos nos preços internos nos próximos dias. Segundo Bruno Cordeiro, especialista em inteligência de mercado da StoneX, o movimento foi relevante. “A gente viu um recuo de quase R$ 0,90 por litro desse produto importado”, afirma. Ainda assim, o combustível segue acima da referência doméstica, cerca de R$ 2,30 superior aos preços praticados pela Petrobras.
Mesmo com essa defasagem, o cenário aponta para alívio no curto prazo. “É muito provável que a gente veja efeitos sobre o consumidor final, tanto pela queda dos preços no mercado internacional quanto pelas subvenções anunciadas pelo governo”, diz. Na segunda-feira (06), o governo divulgou uma medida provisória que combina subsídios ao diesel e ao gás de cozinha, linhas de crédito para o setor aéreo, além de ajustes tributários.
Alívio imediato, mas com limites
O movimento de queda nos preços reflete a retirada, ainda que parcial, do prêmio de risco geopolítico. A sinalização de reabertura do Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo global, foi suficiente para mudar rapidamente as expectativas de oferta.
Mas há um ponto mque começa a ganhar peso nas análises: o problema não é só o volume de petróleo, mas a qualidade do que está disponível no mercado.
Um relatório divulgado pela Vortexa nesta quinta-feira (09) mostra que apesar a reabertura, o estrago no mercado foi feito, e bloqueio da região retirou do mercado asiático cerca de 8 milhões de barris por dia de petróleo do tipo “medium-sour”, considerado ideal para a produção de diesel e querosene de aviação. Esse tipo de óleo não tem substituto fácil.
“O desafio é que essa mudança não se reverte imediatamente, mesmo quando o Estreito de Hormuz voltar a ser navegável. Há indícios de danos relevantes à capacidade produtiva no Golfo do Oriente Médio, algo amplamente reconhecido pelo mercado, apesar da ausência de dados oficiais ,e os reparos devem levar bem mais tempo do que a simples retomada do tráfego na região”, diz o relatório assinado por
Essa alteração na qualidade do petróleo disponível tem implicações diretas para o equilíbrio dos derivados. Em geral, os óleos do Oriente Médio geram cerca de 60% de destilados médios (como diesel e querosene de aviação) e 20% de produtos leves. Já o petróleo WTI dos Estados Unidos produz aproximadamente 40% de destilados e 40% de produtos leves.
Com as refinarias asiáticas processando uma proporção maior de petróleo leve e doce, a produção de destilados médios tende a permanecer estruturalmente mais baixa, enquanto a oferta de produtos leves aumenta.
Esses efeitos já começam a aparecer nos preços dos derivados na Ásia: as margens de diesel e querosene dispararam, enquanto as de nafta e gasolina se mantiveram estáveis, sustentadas pela maior disponibilidade de produtos leves, mesmo com menor volume total de petróleo processado.
A conclusão é que mesmo com a reabertura do fluxo, o mundo pode continuar produzindo menos diesel do que antes da crise, o que limita quedas mais intensas de preços.
Bolsa sobe, real se fortalece e risco diminui, por ora
O alívio também reorganizou os mercados financeiros. Com a redução das tensões, o dólar perdeu força globalmente e o capital voltou a buscar ativos de maior retorno. O real foi um dos principais beneficiados, enquanto a Bolsa brasileira entrou em forte alta.
Para Danilo Coelho, economista e especialista em investimentos, a reação foi generalizada. “O mercado teve uma expectativa muito positiva com o anúncio do cessar-fogo. Isso deu uma arrefecida não só nos mercados mais voláteis, mas no mundo como um todo”, afirma.
O Ibovespa avançou mais de 2% em um pregão e seguiu em alta, com ganhos disseminados entre empresas. Até mesmo petroleiras passaram a ter uma leitura mais favorável, beneficiadas por um cenário que combina preços ainda elevados do petróleo com menor pressão de curto prazo.
Do diesel ao IPCA: o impacto chega em tempos diferentes
No Brasil, se o efeito nos combustíveis é imediato, outros impactos devem aparecer com atraso. Durante o período mais crítico do conflito, houve interrupções relevantes no transporte de fertilizantes, insumo essencial para a produção agrícola. Isso tende a afetar o ritmo de plantio e colheita, com reflexos mais à frente nos preços dos alimentos.
“Pode vir uma inflação mais forte na parte de alimentos porque atrasou muita entrega de fertilizantes, o que acaba impactando safras”, afirma Coelho. Segundo ele, esse efeito deve ser sentido de forma gradual, ao longo de dois a quatro meses, pressionando o IPCA.