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Petróleo, Inflação e Juros: o Que o Goldman Sachs Vê para a Economia Americana com a Crise no Irã

Relatório revela que o impacto da tensão entre EUA e Irã vai além do preço nas bombas; aperto nas condições financeiras e resiliência do setor de energia redesenham o cenário de 2026

5 min

Há pouco mais de um mês, o mercado financeiro global opera com cautela. Uma análise do banco de investimentos Goldman Sachs detalhou os possíveis efeitos de uma escalada no conflito entre Washington e Teerã e a conclusão é que, embora a economia americana esteja mais resistente do que em crises passadas, o custo da incerteza virá na forma de juros mais altos por mais tempo e crescimento mais fraco em 2026

O Retorno da Geopolítica ao Centro do Palco

O impacto primário começa, invariavelmente, pelo petróleo. No entanto, o Goldman Sachs introduz mais uma camada de análise ao observar o Índice de Condições Financeiras (FCI).

O indicador já registrou um aperto de 0,2 ponto percentual, refletindo uma digestão tardia, porém severa, do mercado. O Índice de Risco Geopolítico (GPR) do Federal Reserve saltou para quatro vezes a sua média histórica, sinalizando que a aversão ao risco não é apenas um ruído passageiro, mas um fator estrutural que paralisou decisões de investimento (capex) em diversos setores da economia.

A grande questão para os estrategistas de commodities reside na logística do Estreito de Ormuz e o banco analisou alguns possíveis desdobramentos. No cenário-base do banco, o Brent pode atingir média de US$ 98 até o fim de abril e recuar para US$ 71 no fim do ano.

Em um cenário de interrupção severa de 60 dias no fluxo marítimo da região, o barril poderia disparar para US$ 145, forçando uma reconfiguração completa das cadeias de suprimento globais. Na segunda-feira (30) os futuros do Brent fecharam a US$ 112,78 por barril e o WTI fechou a US$ 102,88, o seu maior valor desde julho de 2022.

Diferente do choque da OPEP em 1973 ou da Guerra do Golfo em 1990, os EUA possuem hoje um “colchão” interno e a intensidade de petróleo necessária para gerar cada dólar de PIB caiu drasticamente nas últimas décadas.

Além disso, o investimento doméstico no shale oil (petróleo de xisto) atua como um estabilizador econômico: enquanto o consumidor sofre com a perda de renda real, o setor de energia acelera o capex, mitigando parte da retração do PIB.

graf 1: preços do petróleo em conflitos passados e vulnerabilidade econômica dos EUA

Inflação Persistente e o Recuo no Cronograma do Federal Reserve

Se o crescimento é parcialmente protegido pelo setor energético, a inflação é o maior risco.

O Goldman Sachs revisou para cima suas projeções para o índice de preços preferido do Fed, o PCE. A expectativa é que o PCE Headline atinja 2,9% em dezembro de 2026, uma revisão de 0,8 p.p. Em cenários mais pessimistas, esse índice pode atingir picos de 5,0% durante a primavera do Hemisfério Norte.

O núcleo da inflação (Core PCE), que exclui itens voláteis como alimentos e energia, também foi afetado, subindo para 2,4%. Essa contaminação dos custos de energia para o restante da economia é o que mais preocupa os analistas de política monetária.

Como resultado, o banco sugere o cenário da taxa de juros: o primeiro corte, anteriormente esperado para junho de 2026, foi adiado para setembro. Um segundo corte é previsto apenas para dezembro, mantendo a taxa terminal no intervalo de 3,0% a 3,25%. Essa postura hawkish, ou mais rígida, do Fed é um reflexo direto do relatório de CPI de fevereiro, que já indicava uma inflação subjacente.

O conflito, portanto, não cria o problema inflacionário, mas o exacerba em um momento em que a autoridade monetária esperava ter mais margem de manobra. A única ressalva para essa projeção é o mercado de trabalho. Se os sinais de arrefecimento vistos em fevereiro se transformarem em uma deterioração rápida, o Fed pode priorizar o emprego em detrimento da meta de inflação, antecipando a tesoura nos juros.

graf 2: projeções de inflação: índice PCE e núcleo PCE 2026

Resiliência Estrutural vs. Risco de Recessão

Apesar dos mecanismos de defesa da economia moderna, o risco de uma recessão nos próximos 12 meses subiu de 20% para 25%.

Embora o nível ainda esteja em linha com o consenso de mercado, ele representa um sinal amarelo para o investidor de renda variável. O Goldman destaca que a produção de defesa americana, embora em alta devido aos novos pedidos governamentais, já opera próxima à capacidade máxima, o que limita o papel do setor militar como motor de crescimento substituto.

Outro ponto de atenção é a exposição comercial. Mesmo com o declínio de 40% no tráfego pelo Mar Vermelho desde o início das tensões com os Houthis em 2023, o impacto de novas interrupções é considerado baixo. Como o frete representa apenas entre 1% e 2% do valor dos bens importados, uma alta de 25% nas taxas globais de transporte adicionaria menos de 0,05 p.p. à inflação doméstica.

O que realmente dita o ritmo agora é o efeito multiplicador: quando o risco geopolítico e o choque do petróleo ocorrem simultaneamente, o impacto negativo sobre contratações e investimentos tende a dobrar.

Para o investidor brasileiro a mensagem é de vigilância por que a manutenção de juros altos nos EUA exercem uma pressão sobre os mercados emergentes, forçando o Brasil a lidar com uma importação indesejada de volatilidade. A lição dos conflitos passados é que a capacidade de resposta do Fed é o que define se um choque energético se transforma em uma depressão prolongada ou em uma correção técnica.

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