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Trump e Xi: Encontro em Pequim Deve Selar Trégua Estratégica, Não um Acordo Definitivo

Pressionados por indicadores de recessão, líderes das duas maiores economias do mundo buscam "coexistência tática" para evitar colapso do sistema financeiro global

4 min

O encontro entre os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, marcado para os dias 14 e 15 de maio, ocorre em um momento turbulento para as economias das duas maiores potências globais. Na visão do professor do Ibmec, Ricardo Hammoud, a reunião pode ser a oportunidade para a criação de uma trégua estratégica. A reunião originalmente marcada para ocorrer entre os dias 31 de março e 2 de abril, foi adiada por conta do conflito no Oriente Médio.

Os dados mais recentes da economia americana flertam com a recessão: a produção manufatureira que registrou decréscimo de 0,1% no último mês de março; o dólar que aumula queda de 9,04% no ano ante ao real (uma das principais moedas dentre os países emergentes); e a expectativa de 99,5% do mercado na manutenção da atual taxa de juros (faixa entre 3,50% a 3,75%) de acordo com o Fed Watch.

Do outro lado, a China, embora tenha reportado um crescimento de 5% no primeiro trimestre de 2026, enfrenta o que pode ser seu pior desempenho anual em décadas, com projeção de PIB entre 4,5% e 5%. O consumo interno dá sinais de fadiga e as vendas no varejo em março subiram apenas 1,7%, frustrando a projeção de 2,4% dos economistas.

Segundo o professor do Ibmec, o encontro em Pequim deve ser lido como um ajuste de expectativas. “A disputa econômica e geopolítica da China e dos Estados Unidos está dada. O que eles podem fazer agora é criar uma espécie de coexistência como superpotências”, explica Hammoud. 

Toma Lá da Cá

É inegável que a dinâmica entre os dois países sofreu uma mutação drástica com a deflagração do conflito no Oriente Médio e o bloqueio das últimas semanas no Estreito de Ormuz. Grande parte do petróleo que passa por lá vai para a China. “É do interesse de ambos que o estreito esteja aberto”, pontua o professor. Em contrapartida, Xi Jinping detém cartas importantes. A China pode pressionar pela redução do apoio militar americano a Taiwan, utilizando sua influência no Oriente Médio como contrapeso.

No entanto, Hammoud alerta para as limitações desse toma-lá-dá-cá: “A China é mais competitiva que os Estados Unidos em vários setores industriais. A ideia de ‘vamos diminuir o déficit comercial’ é muito difícil de obrigar a China a cumprir, porque os EUA perderam essa capacidade de competir em diversos elos da cadeia produtiva.”

Guerra Fria 2.0 e a Desdolarização

Para além do comércio imediato, o encontro serve como palco para a chamada “Guerra Fria 2.0”. O termo, cunhado pelo historiador Niall Ferguson, descreve uma disputa de hegemonia travada não por armas diretas, mas por influência tecnológica, financeira e monetária.

Um dos pilares dessa nova guerra é a desdolarização. A China tem reduzido sistematicamente a compra de títulos do Tesouro Americano, financiando cada vez menos o déficit fiscal dos EUA, enquanto promove o uso de moedas alternativas.

O professor destaca que este é um dos pontos que mais incomoda Washington: “o dólar ser a moeda global cria o que o economia Barry Eichengreen chama de ‘privilégios exorbitantes. Se os EUA imprimem dólares, geram inflação e flutuações globais. A China quer que o dólar seja apenas uma parte do sistema, não o todo. Essa disputa hegemônica envolve quem chegará primeiro a uma Inteligência Artificial mais poderosa e quem controlará os fluxos financeiros.”

Para Donald Trump, o tempo é um inimigo. Com as eleições de novembro no horizonte e a pressão de uma dívida interna crescente, o encontro com Xi Jinping é a sua chance de declarar vitória: “ele está tentando de todas as maneiras declarar vitória para que os efeitos da guerra diminuam e a incerteza do futuro melhore”, afirma Hammoud.

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