O então governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro atuou de forma ilícita para viabilizar aportes de R$3,6 bilhões do fundo de previdência do Estado no Banco Master, segundo investigações citadas pelo ministro do STF André Mendonça em decisão na qual autorizou busca e apreensão contra o ex-governador, nesta terça-feira, em nova fase da Operação Compliance Zero.
De acordo com as investigações, Castro tinha um vínculo estreito com o banqueiro Daniel Vorcaro, que está preso, o que supostamente contribuiu para aportes bilionários do RioPrevidência no Banco Master, de propriedade do banqueiro.
“A relação de Daniel Bueno Vorcaro e Cláudio Bomfim de Castro e Silva trazida aos autos ultrapassou o mero contato institucional, alcançando indícios concretos da ocorrência de tratativas ilícitas que viabilizaram a captação de um total de R$3.691.000.000,00 em investimentos no Banco Master, somando-se os montantes aplicados em fundos e Letras Financeiras”, escreveu Mendonça, citando manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Segundo a representação da Polícia Federal que embasou a operação desta terça, a atuação do ex-governador não se limitou a contatos institucionais, mas envolveu vínculo estreito com Vorcaro, caracterizado por “encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do RioPrevidência”.
A decisão destaca que esse relacionamento teria viabilizado o alinhamento político necessário para a liberação dos investimentos bilionários, bem como a nomeação estratégica de dirigentes do RioPrevidência em cargos-chave. Em fase anterior da mesma operação, dirigentes da entidade já tinham sido presos e alvos de outras medidas cautelares.
A PF informou que, entre outubro de 2023 e julho de 2024, o RioPrevidência realizou aportes de R$970 milhões em Letras Financeiras do Banco Master e, posteriormente, entre dezembro de 2024 e outubro de 2025, foram realizados aportes no montante de R$2 bilhões por meio de fundos estruturados pelo mesmo grupo “em decorrência de entraves regulatórios que dificultaram a continuidade das aplicações naquela modalidade de investimento”.
“Tudo em contexto de crescente dificuldade do banco, diante de aparente crise de liquidez, tornando essencial, no entender da autoridade policial, a captação de aplicações junto a RPPSs e de substituição de instrumentos por novos produtos financeiros”, de acordo com a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal.
A defesa de Castro confirmou à Reuters que seu cliente foi alvo da busca e apreensão e que ele teve dois celulares apreendidos.
A Operação Compliance Zero investiga crimes como gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado, lavagem de dinheiro e organização criminosa no âmbito do Master, que foi liquidado pelo Banco Central.
Outra operação
Essa é a segunda operação da PF contra Castro — que deixou o governo do Rio para tentar se viabilizar candidato ao Senado — em menos de 10 dias. Nesta fase, a PF cumpriu ao todo 10 mandados de busca e apreensão no Rio e em Brasília.
No último dia 15, a PF havia cumprido busca e apreensão contra ele e contra o dono da refinaria Refit, Ricardo Magro, em uma investigação sobre esquema bilionário relacionado a fraudes fiscais, ocultação patrimonial e inconsistências relacionadas à operação da empresa, informaram autoridades.
Na ocasião, Castro divulgou um vídeo em que rebateu as acusações, disse estar à disposição da Justiça e informou que seu advogado iria a Brasília para esclarecer o que chamou de “ilações irresponsáveis apresentadas pela autoridade policial”.
Castro renunciou ao cargo de governador do RJ em março. No mesmo mês, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o tornou inelegível por oito anos por abuso de poder político e econômico, conduta vedada e captação ilícita de voto nas eleições gerais de 2022.
Ainda assim, Castro tenta reverter a decisão do TSE e se viabilizar politicamente para concorrer a uma vaga ao Senado nas eleições de outubro.