O investidor brasileiro entrou em 2026 convivendo com duas forças simultâneas de instabilidade: a escalada do conflito no Irã, que pressiona commodities e cadeias globais, e a corrida eleitoral no Brasil, marcada por dúvidas fiscais e forte polarização política. Nesse ambiente, a volatilidade deixou de ser um evento passageiro, e passou a integrar estruturalmente as estratégias de alocação.
A percepção de risco já aparece no fluxo financeiro. Apenas em maio, a bolsa brasileira registrou retirada líquida de R$ 9,64 bilhões, segundo a Elos Ayta, depois de renovar máximas históricas em abril, quando o índice atingiu 192.201 pontos e movimentou mais de R$ 32 bilhões.
A rápida mudança de direção dos mercados reacendeu a preocupação dos investidores com preservação de capital e exposição excessiva ao risco. Sob essa ótica, a volatilidade amplia a possibilidade de perdas em janelas curtas de tempo, especialmente para quem concentra posições ou reage impulsivamente ao noticiário.
O que está causando a volatilidade
O cenário é alimentado pela combinação entre tensão geopolítica e incerteza doméstica. A guerra no Irã vem provocando choques na oferta global de petróleo, enquanto o ambiente eleitoral brasileiro tem ampliado oscilações no câmbio, levando o dólar a alternar entre picos de R$ 5,33 e recuos abaixo de R$ 5,00.
Para João Arthur, diretor de investimentos da Suno Consultoria, as eleições fazem parte de uma “narrativa recorrente” dos mercados em ciclos de quatro anos. Embora o período eleitoral costume elevar a percepção de risco, ele avalia que o foco central dos investidores continua sendo a trajetória fiscal do país. “O risco que pode ser subestimado é o fiscal brasileiro se degringolar de maneira muito veloz, caso não haja uma diretriz clara no próximo mandato presidencial”, afirma.
Apesar do ambiente de incerteza, a Suno mantém uma visão otimista para a Bolsa brasileira, avaliando que o mercado local ainda oferece uma perspectiva atrativa de retorno. Ao mesmo tempo, a casa segue posicionada em títulos de renda fixa indexados à inflação, aproveitando os juros reais elevados para capturar prêmio de risco no mercado brasileiro.
Onde buscar proteção
Na visão de Adrian Carvalho, planejador financeiro e CEO da Quartavia, a proteção contra a volatilidade não deve estar restrita apenas ao mercado financeiro. Segundo ele, o investidor precisa olhar também para setores da economia real com demanda estrutural e menor risco de obsolescência.
Carvalho defende o conceito de “Engenharia Patrimonial”, baseado em ativos considerados essenciais, como agronegócio, setor imobiliário e energia. Para ele, esses segmentos funcionam como instrumentos de preservação patrimonial em ciclos de maior instabilidade econômica.
O executivo também destaca o uso da “alavancagem correta” como ferramenta estratégica de proteção. A lógica envolve adquirir ativos da economia real com capital financiado, como imóveis ou usinas solares, preservando o capital próprio diante da inflação e potencializando retornos em mercados resilientes.
Para André Matos, CEO da MA7 Negócios, o cenário atual de juros elevados – com a Selic em 14,50% e expectativas inflacionárias ainda pressionadas – exige uma carteira de renda fixa mais sofisticada e diversificada, em vez de apostas concentradas.
Segundo ele, a estratégia passa por estruturar a carteira em diferentes camadas de prazo, liquidez e proteção inflacionária. “Uma parcela em pós-fixado atrelado ao CDI ou à Selic para liquidez imediata e reserva de emergência; uma fatia em prefixados de prazo intermediário, entre 2028 e 2032, com taxas acima de 13,60%, capturando a tese de juros altos por mais tempo; e uma parcela relevante em IPCA+, especialmente nos vencimentos de 2029 a 2035, com taxas reais acima de IPCA mais 7,56%, oferecendo proteção real estrutural caso a desancoragem das expectativas se consolide”, explica.
Oportunidades em meio ao ruído
Para Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, momentos de forte volatilidade costumam abrir oportunidades justamente porque parte dos investidores toma decisões motivadas pelo ruído de curto prazo. “O investidor que toma decisões apenas baseado em manchetes normalmente aumenta risco e reduz previsibilidade da carteira”, afirma.
Segundo Assis, entre os setores mais resilientes ao ambiente político estão utilities, como energia elétrica, saneamento e transmissão, além de empresas com receitas previsíveis e demanda recorrente. “São segmentos menos dependentes do ciclo econômico e que tendem a apresentar maior estabilidade mesmo em momentos de incerteza”, diz.