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Como Não Cair na Malha Fina do IR

Receita Federal já recebeu mais de 25 milhões de declarações do IR 2026; cerca de 1,4 milhão acabaram retidas em malha fiscal

5 min

A Receita Federal já recebeu 25 milhões de declarações do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) 2026 até 18 de maio. Desse total, cerca de 1,4 milhão ficaram retidas em malha fiscal, o equivalente a 5,6% das declarações enviadas. O número ainda é elevado, mas representa uma queda importante em relação ao início do prazo de entrega: em março, o percentual de retenções chegava a 10,78%.

A redução ao longo das semanas reflete, em parte, o comportamento dos contribuintes, que passaram a revisar mais cuidadosamente as informações antes do envio, além do uso crescente da declaração pré-preenchida. Mas também mostra uma mudança estrutural na forma como a Receita opera: o sistema está cada vez menos dependente de fiscalização manual e mais baseado em cruzamento automático e instantâneo de dados.

Na prática, isso significa que inconsistências que antes poderiam passar despercebidas agora são identificadas quase em tempo real – especialmente em casos que envolvem múltiplas fontes de renda, investimentos, operações financeiras, patrimônio elevado e despesas dedutíveis. Especialistas afirmam que o ambiente tributário se tornou mais sofisticado nos últimos anos, e as mudanças recentes nas regras ampliaram a complexidade da declaração, sobretudo para contribuintes de renda mais alta.

Fonte: Receita Federal

O que mudou na prática

A Receita hoje cruza informações enviadas por bancos, corretoras, cartórios, planos de saúde, imobiliárias e até exchanges de criptomoedas. Isso reduziu drasticamente o espaço para inconsistências.

“O Fisco passou de um modelo amostral para um monitoramento massivo e automatizado”, afirma João Pedro Ramos Garcia, advogado tributarista do Ballstaedt Gasparino Advogados. “Hoje, a Receita compara, em tempo praticamente real, os dados declarados pelo contribuinte com as informações prestadas por terceiros.”

Além do avanço tecnológico, mudanças recentes na tributação aumentaram o nível de atenção exigido dos contribuintes mais ricos. A Lei nº 14.754/2023 alterou regras para aplicações financeiras no exterior, offshores e fundos exclusivos – estruturas usadas principalmente por investidores de alta renda.

“Quem tem investimento no exterior, trust ou estrutura offshore precisou reaprender a declarar”, afirma Garcia. “O terreno para erro técnico aumentou justamente entre contribuintes de maior renda, que são também os mais fiscalizados”, diz Caio Ramos Báfero, advogado do Fabio Kadi Advogados.

O presidente do Sescon-SP, Antonio Carlos Santos, afirma que as mudanças nos sistemas de fiscalização também elevaram o risco de inconsistências. “O fim da DIRF e a integração com eSocial e EFD-Reinf aceleraram o fluxo de informações para a Receita. Hoje, o monitoramento é muito mais contínuo e integrado”, afirma.

Segundo ele, isso também aumentou os riscos para quem depende exclusivamente da declaração pré-preenchida. “Muitos contribuintes passaram a confiar cegamente na automação do sistema. O problema é que, se houver erro na origem – vindo de empresas, bancos ou planos de saúde – ele pode ser importado automaticamente para a declaração”, diz.

Os erros que mais levam à malha fina

Apesar da sofisticação da fiscalização, os erros mais comuns continuam concentrados em poucos pontos:

  • omissão de rendimentos;
  • despesas médicas inconsistentes;
  • erros com dependentes;
  • declaração incorreta de investimentos;
  • divergências entre informes financeiros e valores declarados.

Entre os casos mais recorrentes estão:

  • esquecer renda de aluguel;
  • não incluir ganhos de dependentes;
  • declarar despesas médicas sem documentação adequada;
  • informar ações e criptomoedas pelo valor atual de mercado, e não pelo custo de aquisição.

Outro ponto de atenção envolve a declaração pré-preenchida.

Embora ela facilite o preenchimento, especialistas alertam que confiar cegamente no sistema pode gerar problemas. Isso porque erros enviados por empresas, bancos ou planos de saúde podem ser importados automaticamente para a declaração do contribuinte.

Como evitar cair na malha fina

Especialistas recomendam alguns cuidados básicos, mas que se tornaram essenciais no novo ambiente digital da Receita.

1. Confira todos os informes

Os valores declarados devem ser exatamente iguais aos documentos enviados por bancos, corretoras, empresas e planos de saúde. Pequenas divergências já podem gerar retenção automática.

2. Revise despesas médicas

Recibos precisam conter CPF ou CNPJ válido do profissional ou clínica. Medicamentos comprados em farmácia, por exemplo, não entram como dedução médica.

3. Atenção aos dependentes

Se o dependente teve renda própria – estágio, aposentadoria, pensão ou aplicações – isso precisa ser incluído na declaração principal.

4. Não ignore investimentos isentos

LCI, LCA, poupança e alguns dividendos podem ser isentos de imposto, mas ainda precisam ser declarados. O mesmo vale para criptoativos e ativos no exterior.

5. Use a pré-preenchida, mas confira tudo

A declaração automática reduz erros de digitação, mas não substitui revisão manual.

Corrija rapidamente se identificar erro

Caso encontre inconsistências após o envio, a recomendação é fazer uma declaração retificadora antes de qualquer intimação da Receita. Além de reduzir riscos de multa, isso evita que o problema evolua para fiscalização mais profunda. “O maior risco hoje é o contribuinte confiar integralmente na automação sem validar os documentos”, afirma o presidente do Sescon-SP.

A transformação digital da Receita mudou a lógica da fiscalização no Brasil. O desafio deixou de ser apenas “pagar menos imposto” e passou a ser declarar corretamente em um sistema muito mais integrado e detalhado.

Para contribuintes com patrimônio mais sofisticado – investimentos internacionais, renda variável, criptoativos e múltiplas fontes de receita – o IR deixou de ser apenas uma obrigação anual e passou a exigir planejamento e organização contínuos.

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