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Dia Mundial do Whisky: Barril Pode Valorizar Mais de 6.200% e Bebida Vira Investimento

Retirada de tarifas americanas sobre a bebida escocesa movimentou o mercado e deve aumentar as exportações

7 min

Neste sábado (16) o mundo comemora o Dia Mundial do Whisky. A data chega em boa hora para os produtores escoceses. Depois de alguns anos de turbulência, o mercado global da bebida voltou a crescer. As exportações do whisky escocês atingiram 5,3 bilhões de libras (R$ 36 bilhões) em 2025, uma leve queda em relação aos 5,4 bilhões de libras (R$ 36,7 bilhões de 2024).

A retração, no entanto, deveu-se às tarifas impostas pelo governo americano em abril do ano passado. Os Estados Unidos são o principal mercado para o “scotch”, com 17,6% do mercado. E o mercado global da “água da vida” – tradução do gaélico escocês uisge beatha, que dá nome ao destilado – movimentou US$ 38,67 bilhões (R$ 193,4 bilhões) em 2025 e deve alcançar US$ 69,62 bilhões (R$ 350 bilhões) por ano até 2034, com crescimento médio anual de 6,8%, de acordo com a Fortune Business Insights.

A comemoração dos escoceses, porém, começou antes do tradicional terceiro sábado de maio. Em 30 de abril deste ano, o presidente Donald Trump anunciou a remoção das tarifas de importação sobre o whisky escocês logo após a visita do Rei Charles III e da Rainha Camilla à Casa Branca. As tarifas de 10% que foram impostas em abril de 2025 tinham custado cerca de US$ 5,4 milhões (R$ 27,2 milhões) por semana à Escócia em exportações perdidas e derrubado em 15% o volume exportado para os EUA.

Investimento em barris

A decisão de Trump não apenas beneficia quem bebe o whisky. Beneficia também quem investe nos barris em que ele envelhece, os chamados “casks”. Há investidores que compram os barris de carvalho com a bebida recém-destilada ou já em processo de maturação, e aguardam de 10 a 20 anos para revendê-lo. O negócio é feito diretamente entre investidores, destilarias e corretores especializados em um mercado não regulado. O retorno depende, essencialmente, do que o mercado estiver disposto a pagar quando chegar a hora da venda.

Com o comércio desobstruído, o cenário para quem investe em barris melhora. John Kennedy, diretor da plataforma inglesa de negociação de ativos alternativos colecionáveis Decant Index, afirma que a reversão das tarifas deve ampliar a demanda americana pela bebida. “O maior impacto provavelmente será sentido no mercado premium. Os consumidores americanos têm demonstrado um forte apetite por whisky escocês envelhecido, colecionável e de luxo.”

Para os investidores em barris, isso se traduz em uma melhora no cenário de desinvestimento no longo prazo. “Um estímulo na demanda por estoques envelhecidos no maior mercado de whisky premium do mundo deve aumentar o preço e facilitar as vendas dos barris mais antigos, especialmente para destilarias reconhecidas no mercado internacional”, diz Kennedy.

Leilões milionários

Os preços alcançados nos leilões dos últimos anos dão uma dimensão do potencial desse mercado. Alguns casos se tornaram referência, como a venda de um barril da Macallan destilado em 1988.

Comprado por apenas 5 mil libras na época, o equivalente a 17,4 mil libras (R$ 118 mil) atualmente, o barril de 374 litros ficou esquecido em um armazém da Macallan até 2022. Provavelmente estaria lá até agora se a própria destilaria não tivesse avisado o comprador, um investidor americano que agiu por impulso. Leiloado na plataforma Whisky Hammer em abril de 2022, o barril foi arrematado pelo equivalente a US$ 1,49 milhão (R$ 7,45 milhões) em valores de 2026.

Barris históricos, como são chamados aqueles com mais de 30 anos, costumam valer muito. Em dezembro de 2025, outro “cask” da Macallan de 1988 foi arrematado por US$ 266 mil (R$ 1,33 milhão). Ele renderia 197 garrafas de uma bebida com teor alcoólico de 46,52%. O preço equivalia a US$ 1.352 (R$ 6,76 mil) por garrafa.

Ativos alternativos

Barris de whisky escocês são, em linguagem de mercado financeiro, um ativo alternativo. Assim como obras de arte, vinhos finos, carros clássicos, selos e moedas, eles pertencem a uma categoria de investimento que não circula nas bolsas de valores e não é regulada pelas autoridades financeiras convencionais. No Reino Unido, a Financial Conduct Authority (FCA) não regula esse mercado. No Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tampouco.

Breno Reis, COO da fintech brasileira de ativos alternativos Hurst Capital, afirma que tudo o que está no mercado privado e não foi chancelado por uma autoridade ou bolsa pode ser considerado um ativo alternativo. Isso inclui todos os itens colecionáveis, obras de arte, veículos – e whisky.

Apesar de não tratar especificamente dos barris, Reis indica algumas vantagens dos investimentos alternativos. A principal é a falta de correlação com os mercados tradicionais. O preço de um barril de whisky de 30 anos pode oscilar em função da demanda pela bebida, mas será pouco influenciado pela baixa ou alta dos juros ou da inflação.

Esse é um argumento frequente entre os especialistas. “Mesmo quando a economia vai mal, as pessoas bebem whisky e escutam música. Por isso os royalties musicais continuam sendo um investimento rentável, ainda que as ações estejam despencando”, diz Reis.

A tendência de crescimento desse tipo de investimento é global. Em 2005, apenas 5% da carteira dos investidores institucionais estava alocada em ativos alternativos como um todo. Em 2018, esse percentual chegou a 25%. A projeção é de que atinja 40% até 2030, segundo estimativas de mercado.

Evite a ressaca

Assim como ocorre com a bebida em sua forma líquida, escolher o rótulo errado ou exagerar na dose pode provocar fortes dores de cabeça. Barris de whisky escocês não são negociados como commodities em uma bolsa centralizada. São itens únicos, como obras de arte, e a demanda pode variar ao sabor das alterações do consumo ao longo do tempo.

É possível começar a investir em barris de destilados jovens ou recém-elaborados das destilarias menos conhecidas com cerca de 2 mil libras (R$ 13,6 mil). Barris de marcas mais estabelecidas, como Macallan, Dalmore ou Springbank, podem ser negociados por valores superiores a 100 mil libras (R$ 680 mil), dependendo da safra, da idade e do tipo de barril, segundo Kennedy.

A cada ano, cerca de 2% do líquido evapora naturalmente pelos poros do barril de carvalho, perda conhecida no setor como a dose dos anjos (“angel share”). Com o tempo, esse efeito pode reduzir o teor alcoólico para menos de 40%. Se isso ocorrer, a bebida não pode, legalmente, ser chamada de whisky escocês.

Também há regras rígidas sobre armazenamento e o registro da propriedade. “Ao contrário dos mercados de ações, os barris não são imediatamente vendáveis e a transparência dos preços pode variar significativamente entre destilarias e safras”, afirma Kennedy. Ele lista os principais riscos: proveniência, estrutura de propriedade, armazenamento, seguro e expectativas de retorno irrealistas.

Reis, da Hurst Capital, recomenda uma abordagem semelhante para qualquer colecionável: obter avaliações profissionais, entender o mercado e a liquidez, diversificar a carteira e considerar custos adicionais de seguro e armazenamento. “Investir em colecionáveis pode ser lucrativo, mas exige cuidados como verificar a autenticidade do ativo. Além disso, há o risco de a valorização projetada não se concretizar”, diz ele.

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