Em um dia nublado de abril, no meio da Baía de Narragansett, em Rhode Island, Paul Lwin parece estar jogando um videogame antigo. Curvado sobre um laptop no convés da embarcação simples que conduz naquele dia, ele observa pequenos ícones de barcos se moverem pela tela. Lwin desenha uma caixa ao redor deles, seleciona alguns parâmetros e clica em “Start Play”. Segundos depois, um conjunto de barcos autônomos a mais de 1,5 quilômetro de distância começa a deslizar em paralelo aos ícones, deixando rastros azuis brilhantes na tela. Lwin abre um enorme sorriso.
Cada uma dessas embarcações autônomas é um “Rampage”, principal barco de 14 pés da empresa de Lwin, a HavocAI, sediada em Providence. A companhia equipa seus veículos com uma tecnologia que, teoricamente, permite que uma única pessoa controle milhares deles ao mesmo tempo. Lwin, de 40 anos, e o cofundador Joe Turner, de 42, ambos veteranos da Marinha americana, querem transformar a empresa na principal fornecedora de softwares especializados para embarcações não tripuladas — e também para drones aéreos e terrestres, após adquirirem pequenas startups desses segmentos recentemente.
“O objetivo aqui é garantir que você não precise entender nada de robótica ou autonomia”, explica Lwin enquanto repete o processo no laptop. “Se não for tão simples assim, vira um experimento científico. Operadores — especialmente soldados que não têm doutorado em robótica ou em algoritmos de busca — nunca vão usar isso se for mais complicado.”
A aposta em simplicidade para vencer gigantes
Lwin é do tipo que acredita que “ver para crer”. Como CEO, passa boa parte do tempo fazendo demonstrações para investidores e clientes em potencial. Ele chega a apresentar os barcos da Havoc para membros do Congresso americano durante viagens de lobby, exibindo transmissões ao vivo das embarcações.
A estratégia está funcionando. Na última segunda-feira, a empresa concluiu uma rodada Série A de US$ 100 milhões (R$ 490 milhões), liderada pelos fundos Cobalt e Boardman Bay. O aporte mais do que dobrou o total captado pela Havoc, que agora se aproxima de US$ 200 milhões (R$ 980 milhões), tornando-a uma das startups mais financiadas da categoria de barcos-drone em menos de dois anos e meio de operação.
Mas a Havoc disputa espaço com gigantes. O principal nome do setor é a Saronic Technologies, startup de três anos e meio que captou US$ 1,75 bilhão (R$ 8,57 bilhões) em março, alcançando uma avaliação de US$ 9,25 bilhões (R$ 45,32 bilhões). Lwin não revela o valuation da Havoc, mas admite que a estimativa de US$ 784 milhões (R$ 3,84 bilhões), feita pela PitchBook, está “um pouco acima” do valor real.
Ainda assim, a Havoc derrotou a Saronic em uma competição de inovação do Exército americano no ano passado, a xTechPacific.
As duas empresas atuam em áreas diferentes do mercado. A Saronic fabrica seus próprios barcos como parte de um esforço para reconstruir a indústria naval americana. Já a Havoc não produz os cascos: compra ou encomenda embarcações para equipá-las com aquilo que considera seu verdadeiro diferencial — o software.
Ao terceirizar a fabricação, Lwin evita “reinventar coisas que não preciso reinventar”. E isso faz sentido, já que a construção naval é conhecida por ser lenta e extremamente cara. “Somos realmente a única empresa marítima focada em software”, afirma. Segundo ele, os militares ainda estão se acostumando com a ideia de comprar tecnologia sem hardware, por isso a Havoc ainda precisa vender os dois juntos.
Como funciona a tecnologia da Havoc
A base tecnológica da empresa é um conjunto de algoritmos de planejamento de rotas e tomada de decisão executados em GPUs instaladas em caixas metálicas dentro de cada embarcação. Câmeras e sensores analisam o ambiente ao redor e alimentam esses modelos com informações.
Os barcos da Havoc foram projetados para operar em enxames. Eles possuem rádios e antenas da Starlink que os conectam em uma malha de comunicação integrada. Assim, se algumas embarcações forem derrubadas, as demais continuam conectadas.
“Posso pegar qualquer barco militar e transformá-lo em um barco autônomo”, diz Lwin. “Abstraímos motores e atuadores específicos. Construímos tudo em módulos. Se você me der um motor aleatório, provavelmente levaremos duas semanas para descobrir como conectá-lo.”
Essa abordagem coloca a Havoc em rota de colisão com outras empresas de defesa focadas em tecnologia, incluindo a gigante Anduril Industries, que estaria levantando recursos com uma avaliação de US$ 60 bilhões (R$ 294 bilhões).
O argumento otimista para a Havoc não é substituir o Lattice, plataforma da Anduril que conecta sistemas e fluxos de dados militares e os organiza em um panorama operacional central com análise por inteligência artificial. Em vez disso, a Havoc aposta que pode se tornar a melhor empresa em um nicho específico: o comando de drones autônomos. Seu software poderia ser integrado a outras plataformas, inclusive ao próprio Lattice.
Até agora, a Havoc ainda não vendeu seu software de forma independente para os militares dos EUA. Mas já entregou 32 barcos-drone — alguns alugados e outros vendidos — além de drones aéreos. A 1ª Divisão de Cavalaria do Exército americano está treinando atualmente com quadricópteros da empresa.
Segundo um alto funcionário do Exército, os comentários dos soldados sobre a Havoc têm sido positivos. Como esse feedback ajuda a definir quais produtos receberão contratos futuros, a chance de a empresa conquistar novos acordos é “muito alta”.
“É uma plataforma muito fácil de usar”, explica o oficial. “Isso é fundamental, porque temos muita tecnologia por aí. Existem inúmeros sistemas diferentes. Até nossos sistemas legados são extremamente complicados. Precisamos que um soldado consiga pegar isso e usar como um iPhone.”
Sobre o Lattice, da Anduril, ele comenta: “É um pouco mais complicado”.
O mercado bilionário dos barcos-drone
A corrida dos barcos autônomos ainda está em seus estágios iniciais. Nenhuma embarcação autônoma de superfície foi usada em combate até agora, embora barcos controlados remotamente estejam sendo empregados na guerra da Ucrânia.
A Havoc já acumula mais de 20 mil horas de testes, mas só é possível comprovar determinados resultados em situações reais. Os maiores testes da empresa envolveram 25 barcos simultaneamente; a Saronic já operou mais de 30 ao mesmo tempo, e a Anduril, mais de 50. A Havoc espera chegar a 50 embarcações neste verão americano.
Mesmo assim, o entusiasmo em torno do setor é enorme. O investimento em tecnologia de defesa já vinha crescendo nos últimos anos, impulsionado pela guerra na Ucrânia, pelo aumento do interesse do Pentágono em tecnologias comerciais e pela expansão dos orçamentos militares.
Depois, a guerra no Irã escancarou as limitações das capacidades navais dos EUA. Desde o início do conflito, a rodada média de investimento para empresas americanas de defesa aeroespacial subiu para US$ 20 milhões (R$ 98 milhões), segundo a PitchBook, contra US$ 5 milhões (R$ 24,5 milhões) nos 12 meses anteriores.
Os barcos-drone são considerados especialmente atrativos por serem não tripulados — mantendo soldados americanos longe do perigo — e por poderem executar missões variadas, como remoção de minas, vigilância, escolta e combate. Todas essas funções poderiam ser relevantes em um eventual confronto no Estreito de Ormuz. A Havoc afirma ter 55 barcos prontos para envio imediato à região.
“Para todo o setor de novos entrantes da indústria de fabricação de drones, isso é muito positivo para os modelos financeiros”, afirma Rockford Weitz, professor de estudos marítimos da Fletcher School, da Tufts University. “Isso valida fortemente a tese de negócios dessas empresas: muitos aspectos do futuro da guerra naval envolverão sistemas autônomos sofisticados.”
Brad Harrison, da Scout Ventures e maior acionista não fundador da Havoc, acrescenta: “O desafio do Estreito de Ormuz é positivo para a Havoc no longo prazo, porque ela poderá fornecer tecnologia para ajudar a criar corredores marítimos seguros. E isso será uma prioridade global maior do que nunca.”
A história do refugiado que virou veterano da Marinha
Para Lwin, a ameaça chinesa é algo profundamente pessoal.
Ele cresceu em Burma, atual Myanmar, no fim dos anos 1980, período marcado pela repressão violenta do regime militar após levantes populares. Aos 10 anos, fugiu para os Estados Unidos com a família.
O fato de a China apoiar e vender armas ao governo birmanês, enquanto os EUA apoiavam movimentos pró-democracia, deixou marcas duradouras nele.
“A China é a razão de Burma ser tão ruim”, diz. “Eu sei quem é o inimigo.”
O governo chinês sancionou a Havoc em dezembro de 2024 e abril de 2025. Lwin acredita que isso ocorreu porque ele falou publicamente sobre o fortalecimento das defesas de Taiwan. Algumas semanas atrás, embarcações da Havoc foram usadas pelos militares americanos durante o exercício Balikatan, realizado nas Filipinas como demonstração de força próxima à China.
Lwin quer que a Havoc desempenhe um papel importante na contenção da expansão chinesa no Mar do Sul da China.
“Isso afeta os EUA, mas pense também no Vietnã, no Camboja e em todos aqueles países periféricos. Eles estão nos procurando por ajuda — especificamente a Havoc. Temos relacionamento com eles”, afirma. “Acho que isso é o que me move. Eu vi de perto o que o outro lado quer fazer.”
A embaixada dos EUA em Burma ajudou a retirar Lwin clandestinamente do país em 1995. Ele, a mãe e dois irmãos viajaram para se reunir ao pai, que havia fugido cinco anos antes.
O primeiro americano que Lwin viu na vida foi um fuzileiro naval da embaixada — experiência que ajudou a inspirá-lo a ingressar nas Forças Armadas no futuro.
“Quando você é criança, isso fica marcado”, diz. Lwin tornou-se cidadão americano em 2000.
Sua família teve dificuldades financeiras ao se estabelecer na Califórnia. O pai trabalhava como caminhoneiro, enquanto a mãe era auxiliar de enfermagem.
Ainda no ensino médio, Lwin encontrou uma maneira pouco convencional de ganhar dinheiro. Inspirado pelo crescimento do NetZero, ele e o irmão criaram um serviço de internet chamado “Freest”, oferecendo acesso discado gratuito financiado por publicidade.
Seis meses depois, os irmãos já faturavam entre US$ 4 mil e US$ 5 mil por mês (R$ 19,6 mil a R$ 24,5 mil), atendendo mais de 100 clientes. Eles decidiram procurar um banco para financiar a expansão do negócio.
“Eles ficaram muito interessados”, lembra Lwin, rindo. “Até perceberem que eu ainda estava no ensino médio.”
Da Marinha à criação da Havoc
Lwin cursou graduação na Academia Naval dos EUA. Seu antigo professor Andrew Roy, hoje executivo da Havoc, afirma que ele era um excelente aluno, com “mente de engenheiro”, embora não conseguisse manter o quarto arrumado ou colocar a camisa para dentro da calça.
Depois da faculdade, passou 11 anos na Marinha americana — incluindo dois no Golfo Pérsico —, tornou-se oficial de voo e recebeu três medalhas aéreas por combate.
Foi sua esposa quem o apresentou a Joe Turner, cofundador e diretor de operações da Havoc. Os dois se conheciam desde a infância em Connecticut, embora Turner tenha passado boa parte da juventude viajando pelo mundo devido ao trabalho do pai na indústria de serviços petrolíferos.
Assim como Lwin, Turner também é veterano da Marinha e possui histórico empreendedor. Em 2016, ele e o pai criaram a empresa de veículos submarinos Exocetus, encerrada em 2023, mas que lhe trouxe aprendizados importantes.
“Fomos lentos”, admite Turner. “Tentamos construir um veículo perfeito e extremamente personalizado, sem focar em software ou no desenvolvimento de mercado. Estávamos criando algo perfeito sem saber se o mercado realmente queria aquilo.”
Na Havoc, a lógica foi oposta desde o início: primeiro o mercado.
No fim de 2023, Lwin e Turner trabalhavam na fabricante de seagliders elétricos REGENT quando ouviram um discurso de Heidi Shyu, então subsecretária de Defesa dos EUA. Ela apresentou o plano “Hellscape”, do Pentágono, para lançar uma enxurrada de drones no Estreito de Taiwan em caso de invasão chinesa.
Segundo Lwin, a reação foi imediata: “Joe e eu olhamos um para o outro e pensamos: ‘Vamos fazer isso’”.
Naquele momento, os dois já vinham experimentando barcos-drone nas horas vagas. Inspirados pela guerra da Ucrânia e pela percepção de que “era possível transformar produtos comerciais em robôs complexos”, passavam fins de semana na garagem de Lwin adaptando canoas, barcos infláveis e peças compradas na Amazon e em outros sites.
Lwin programava tudo em Python. Os testes aconteciam na casa de lago dos pais de Turner.
Após o discurso de Shyu, eles deixaram seus empregos e fundaram a Havoc em janeiro de 2024.
Embora os barcos tenham evoluído bastante desde a época em que os dois amarravam canoas com tábuas de madeira na garagem, as oito embarcações da empresa ainda estão longe de serem sofisticadas visualmente.
Fabricadas por sete estaleiros americanos, elas foram projetadas para serem simples, baratas e, francamente, descartáveis.
“O barco não importa”, afirma Lwin. “O software é a parte sofisticada aqui.”
O preço é parte essencial do apelo comercial. Os modelos Rampage custam US$ 200 mil (R$ 980 mil), incluindo o software. Já a Marinha americana tradicionalmente investe centenas de milhões ou até bilhões de dólares em navios extremamente avançados.
“Quem se importa se explodirem um barco de US$ 200 mil?”, questiona Lwin. “Ótimo! Eles desperdiçaram mísseis!”
O risco de ser engolida pelas gigantes
Ainda existe a possibilidade de uma gigante como a Anduril Industries acabar tornando a Havoc irrelevante. Isso poderia acontecer se o Lattice, já amplamente utilizado pelas Forças Armadas americanas, conseguir replicar as especialidades da startup.
Grande parte das dezenas de startups de barcos-drone que hoje tentam fechar contratos com o Pentágono aposta justamente na criação de nichos específicos.
“O cenário pessimista para a Havoc”, afirma o especialista em tecnologia marítima Tobias Stapleton, “é que, no fim das contas, a Marinha conclua que não precisa de dez soluções diferentes, mas apenas duas ou três. Aí haverá consolidação e eliminação de empresas no setor.”
Howard Morgan, investidor da Havoc e presidente da B Capital, não parece preocupado com a possibilidade de a Anduril ocupar esse espaço.
“Normalmente é mais fácil crescer de baixo para cima do que o contrário”, diz.
Ele acredita que a filosofia de simplicidade da Havoc está alinhada ao momento atual do Pentágono, cansado de gastar fortunas em equipamentos extremamente complexos e demorados de fabricar.
“Um almirante disse certa vez a um colega meu: ‘Queremos comprar Hondas, não Bentleys’”, lembra Morgan. “‘E queremos comprar muitos deles.’”
*Matéria originalmente publicada em Forbes.com