1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. O Ralo das Bets: Apostas Passaram a Drenar Renda, Elevar a Inadimplência e Sufocar o Varejo
Forbes Money

O Ralo das Bets: Apostas Passaram a Drenar Renda, Elevar a Inadimplência e Sufocar o Varejo

Impacto sobre o endividamento das famílias já é três vezes maior do que o dos juros e provoca perda de 0,7% no faturamento do varejo

12 min

O Brasil entrou em 2026 com um paradoxo econômico difícil de ignorar. O desemprego caiu, a inflação perdeu força e o crédito voltou a circular. Ainda assim, as famílias brasileiras nunca estiveram tão endividadas. Segundo dados do Banco Central, o comprometimento da renda das famílias atingiu 49,9% em fevereiro, o maior nível da série histórica iniciada em 2005. Ao mesmo tempo, o país alcançou a marca de 73 milhões de inadimplentes. Em circunstâncias normais, a melhora do mercado de trabalho e a desaceleração inflacionária tenderiam a aliviar a pressão financeira doméstica. O que ocorreu foi o oposto.

No centro dessa deterioração está um fenômeno que deixou de ser apenas comportamental para assumir dimensão macroeconômica: a explosão das apostas online. Em apenas três anos, as chamadas bets passaram de nicho digital a um dos maiores canais de drenagem de renda da economia brasileira. Impulsionado pela regulamentação e pela popularização do Pix, o setor movimenta hoje entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês e já transformou o Brasil no quinto maior mercado global de apostas online.

Mais do que um novo segmento de entretenimento, economistas começam a enxergar as bets como uma força que reorganiza o orçamento das famílias, desloca consumo, piora a inadimplência e enfraquece setores inteiros da economia real. “O avanço das apostas online deve ser visto como mais do que um fenômeno conjuntural”, afirma Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de Macroeconomia da Tendências Consultoria. “O que observamos é uma nova dinâmica de competição pelo orçamento disponível, especialmente nas faixas de menor renda.”

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mais de 25 milhões de brasileiros realizaram apostas em 2025 – cerca de um em cada seis adultos do país. Já um estudo da parceria entre a Tendências Consultoria e a Peers Consulting estima que o mercado de bets deve gerar receita bruta de R$ 37 bilhões neste ano. Mas o dado que mais preocupa economistas não está no tamanho da indústria, e sim no impacto dela sobre as finanças das famílias.

O crescimento do mercado de apostas coincide com uma deterioração persistente dos indicadores financeiros das famílias, mesmo em um ambiente macroeconômico teoricamente benigno. Dados analisados pela CNC, com base em 59 observações mensais da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), mostram que, sem o crescimento das bets, o nível de endividamento das famílias teria subido de 65% para 67% após 2023. O observado, porém, foi um salto para 70%. Mais preocupante do que o aumento das dívidas é a piora da capacidade de pagamento. Os indicadores de inadimplência severa – famílias que afirmam simplesmente “não conseguir pagar” as contas – aumentaram de forma significativa após a expansão das apostas. O tempo médio de atraso também cresceu. Parte desse processo ocorre por meio da expansão do crédito fácil.

“O aumento da inadimplência está muito ligado ao tipo de crédito que as famílias passaram a acessar, como rotativo do cartão e cheque especial. Mas as apostas contribuem para piorar essa situação porque desviam parte da renda disponível”, afirma Myrian Lund, planejadora financeira e professora da FGV.

O governo federal já começou a tratar o avanço das apostas como questão macroeconômica. O Novo Desenrola Brasil prevê o bloqueio temporário de acesso às plataformas de apostas para pessoas que aderirem ao programa de renegociação de dívidas. A medida revela uma percepção crescente dentro do governo: o problema extrapolou o debate regulatório e passou a afetar consumo, crédito e atividade econômica. “O governo percebeu que existe relação entre apostas e deterioração financeira das famílias”, diz Ribeiro, da Tendências.

Os economistas acreditam, contudo, que a medida terá efeito limitado enquanto questões estruturais permanecerem sem solução. “O crescimento das bets também revela problemas mais profundos da economia brasileira, especialmente desigualdade de renda e baixa mobilidade social”, afirma Ribeiro. “Muitas pessoas recorrem às apostas buscando renda rápida porque não enxergam perspectiva concreta de melhora financeira sustentável”, diz Lund. Outro fator relevante é a fragilidade regulatória do setor. O mercado cresceu muito rapidamente e ainda há uma parcela relevante operando sem controle efetivo.

O impacto das bets já supera o dos juros

Um dos aspectos mais alarmantes da explosão das apostas online é que elas passaram a exercer influência sobre o endividamento das famílias maior do que variáveis historicamente associadas à inadimplência, como juros e expansão do crédito. “O impacto das bets é três vezes maior do que o juros sobre o endividamento das famílias”, afirma Claudio Felisoni, economista da FIA e presidente do IBEVAR, que desenvolveu um estudo para medir os principais vetores da deterioração financeira das famílias brasileiras.

Felisoni explica que o modelo econométrico desenvolvido por ele tenta identificar quais fatores estão mais associados ao avanço do endividamento das famílias brasileiras. Para isso, o estudo analisou três variáveis principais: a oferta de crédito em relação à renda das famílias, as variações da taxa de juros e o avanço das plataformas de apostas online. A lógica do modelo é medir o “peso” que cada um desses fatores exerce sobre o crescimento do endividamento.

No caso dos juros, o efeito esperado já é conhecido pela economia tradicional: quanto maior a taxa de juros, maior tende a ser a dificuldade das famílias em pagar dívidas, elevando a inadimplência e o comprometimento de renda.

Já a oferta de crédito poderia, em tese, produzir dois efeitos diferentes. Em um cenário de crédito saudável e barato, ela poderia ajudar famílias a organizar consumo e fluxo de caixa. Mas, no Brasil atual, marcado por juros elevados, rotativo do cartão caro e linhas emergenciais de crédito, o aumento da oferta acabou ampliando o endividamento.

O peso da oferta de crédito sobre o endividamento foi estimado em 0,04. O impacto dos juros atingiu 0,07. Já o efeito das bets alcançou 0,23. Para facilitar a interpretação, Felisoni compara os resultados a uma balança de pesos. A oferta de crédito teve impacto equivalente a “4 quilos” sobre o endividamento. Os juros, cerca de “7 quilos”. Já as bets apresentaram peso equivalente a “23 quilos”.

Na prática, isso significa que o impacto das apostas sobre o avanço do endividamento das famílias foi mais de três vezes superior ao efeito isolado dos juros.

E mesmo quando se somam os efeitos da oferta de crédito e dos juros – cerca de 11 quilos no total – o peso das bets continua sendo significativamente maior.

Segundo o economista, o dado é ainda mais relevante porque parte do efeito do crédito já incorpora indiretamente o peso dos juros, já que crédito caro e juros elevados estão interligados. Ou seja: mesmo considerando essa sobreposição, o impacto das apostas continua muito superior. “As apostas deixaram de ser apenas um fenômeno comportamental. Elas se tornaram um fator estrutural de deterioração financeira”, diz.

A renda saiu do varejo e migrou para as apostas

O avanço das bets já deixou de ser apenas um fenômeno digital para produzir efeitos concretos sobre a economia real, especialmente sobre o varejo brasileiro. Entre janeiro de 2023 e março de 2026, as apostas online drenaram cerca de R$ 143,8 bilhões do comércio nacional, segundo estimativas da CNC. O montante equivale, aproximadamente, ao faturamento somado dos Natais de 2024 e 2025, tradicionalmente o período mais relevante para o setor varejista.

O dado ajuda a dimensionar a velocidade da transformação. Não houve geração de nova riqueza, mas uma migração da renda das famílias para plataformas digitais de apostas. Recursos que antes circulavam na compra de roupas, eletrodomésticos, alimentação, lazer ou serviços passaram a alimentar um mercado baseado em alta recorrência, estímulo constante e consumo instantâneo.

Pesquisas da entidade mostram que 23% dos apostadores reduziram gastos com vestuário para manter o hábito das apostas. Outros 19% diminuíram despesas em supermercados. O movimento ajuda a explicar por que segmentos ligados ao consumo discricionário – especialmente moda, varejo popular, móveis e eletrodomésticos – passaram a operar sob pressão mesmo em um ambiente de desaceleração inflacionária e melhora parcial do mercado de trabalho.

A cada R$ 1 bilhão direcionado às bets, o faturamento do varejo recua cerca de 0,7%, segundo cálculos da CNC. “O setor varejista é potencialmente um dos mais impactados”, afirma Ribeiro, da Tendências. “Estamos observando uma mudança estrutural no padrão de consumo das famílias.”

Os sinais dessa deterioração já aparecem nos indicadores mais recentes do comércio. O varejo brasileiro recuou 3% em termos reais em abril de 2026 na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA). O macrossetor de bens duráveis e semiduráveis registrou queda real de 4,9%. Os segmentos de vestuário e artigos esportivos lideraram as contribuições negativas para o resultado, seguidos por móveis, eletrodomésticos e lojas de departamento, exatamente os setores mais dependentes da renda disponível e do consumo discricionário das famílias.

Em relatório assinado pelo economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, o banco adota uma visão mais cautelosa sobre os efeitos das bets no varejo. Segundo o banco, se as bets estivessem efetivamente retirando uma fatia muito grande do orçamento destinado às compras, seria esperado um enfraquecimento mais intenso das vendas do varejo – algo que, na avaliação do Itaú, ainda não pode ser observado de forma consistente nos dados.

A leitura da instituição é que os indicadores de consumo seguem relativamente alinhados aos modelos econômicos tradicionais, baseados em fatores como renda, mercado de trabalho, crédito, confiança do consumidor e poupança. Em outras palavras, o banco não identifica, até o momento, uma distorção suficientemente forte no varejo que possa ser atribuída diretamente ao avanço das apostas.

Ainda assim, o Itaú reconhece que o fenômeno já produz impacto relevante sobre a renda disponível das famílias, e foi justamente isso que o banco tentou medir em um estudo específico sobre o setor.

O estudo do Itaú buscou separar o volume total movimentado nas plataformas do gasto efetivamente perdido pelos apostadores. Isso porque uma parcela do dinheiro apostado retorna aos usuários na forma de prêmios, fazendo com que o valor “girado” nas bets seja maior do que a perda líquida real das famílias.

Pelas estimativas do banco, as apostas online movimentaram R$ 68,2 bilhões em 12 meses até junho de 2024. Desse total, aproximadamente R$ 44 bilhões teriam retornado aos usuários em ganhos. Assim, o custo líquido efetivo das bets para as famílias foi estimado em R$ 23,9 bilhões. Na prática, esse cálculo representa o quanto da renda familiar efetivamente deixou de circular em outras formas de consumo, poupança ou investimento para permanecer com as plataformas de apostas na forma de perdas líquidas.

Efeito viciante

Apesar das medidas do governo para barrar apostadores inadimplentes no novo programa de renegociação de dívidas, o problema ultrapassa a esfera financeira e tem forte componente emocional. Segundo Felisoni, o caráter viciante das bets está mais ligado aos mecanismos psicológicos das decisões do que à racionalidade econômica clássica. “As bets aprisionam o consumidor no sistema emocional da mente, e não no racional”, afirma Felisoni. “A facilidade do Pix, as apostas de baixo valor e a propaganda massiva criam um ambiente permanente de estímulo”, diz.

A dinâmica se aproxima das conclusões do psicólogo e economista comportamental Daniel Kahneman, Nobel de Economia e autor da teoria dos dois sistemas de decisão. Kahneman descreveu como decisões impulsivas são frequentemente comandadas pelo chamado “Sistema 1” – rápido, automático e emocional – enquanto escolhas racionais e de longo prazo dependem do “Sistema 2”, mais lento e analítico.

As plataformas de apostas parecem operar exatamente sobre esse primeiro mecanismo: estímulo instantâneo, promessa de recompensa rápida, reforço intermitente e facilidade extrema de transação. O modelo é potencializado por notificações constantes, bônus promocionais e apostas de baixo valor que reduzem a percepção de risco. O usuário não sente que está realizando uma decisão financeira complexa, apenas repetindo pequenos impulsos digitais sucessivos.

Na prática, isso produz um efeito semelhante ao observado em outros mercados de comportamento compulsivo: o cérebro passa a perseguir recompensas imediatas mesmo diante de perdas acumuladas.

A percepção é compartilhada por especialistas em finanças pessoais e renegociação de dívidas, que relatam crescimento acelerado dos casos de superendividamento associados diretamente às apostas.

“A aposta é vício. A pessoa não consegue parar, mesmo quando percebe que destruiu a própria vida financeira”, afirma Lund. Ela relata que o problema já aparece inclusive entre profissionais de alta renda.

Uma advogada especializada em renegociação de dívidas descreve o caso de um médico que precisou transferir o patrimônio para o nome da esposa para evitar recaídas. “Se o dinheiro ficar na mão dele, ele volta a apostar. E ele está em tratamento psiquiátrico”, diz a fonte que preferiu não se identificar.

Segundo Lund, as plataformas operam com mecanismos desenhados para ampliar recorrência e dependência emocional. “Elas te fazem ganhar no começo, criam a sensação de que aquilo funciona e depois passam a capturar emocionalmente o usuário. É um algoritmo pensado para que você nunca ganhe para sempre.”

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.