Em 2 de abril de 2026, a presidente do conselho da Victoria’s Secret, Donna James, comprou aproximadamente US$ 100 mil em ações (R$ 522 mil) ao preço de US$ 46,23 por papel (R$ 241,32), aumentando sua participação em 4%. A compra foi cerca de cinco vezes maior do que sua única aquisição anterior da companhia e ocorreu a um preço mais de duas vezes superior ao pago anteriormente.
Também representou o maior investimento pessoal que ela realizou entre todas as empresas de capital aberto em cujos conselhos atua. No mesmo dia, a conselheira Anne Sheehan adquiriu aproximadamente US$ 29 mil em ações (R$ 151,38 mil) ao preço de US$ 45,86 (R$ 239,39), elevando sua participação em 2%.
Foi sua primeira compra de ações da Victoria’s Secret e representou uma mudança em relação às vendas anteriores realizadas em momentos considerados oportunos.
O aspecto relevante não foi apenas o fato de duas conselheiras terem comprado ações. Ambas faziam parte do conselho desde 2021, conheciam os desafios da companhia e acompanharam sua recuperação de dentro da sala de reuniões. As compras ocorreram enquanto o mercado ainda discutia se a melhora seria sustentável.
Dois meses depois, os resultados apareceram. A Victoria’s Secret divulgou vendas trimestrais de US$ 1,56 bilhão (R$ 8,14 bilhões), alta de 15% em relação ao mesmo período do ano anterior. O lucro ajustado ficou acima das expectativas, e a empresa elevou sua projeção para o ano inteiro.
As ações dispararam em torno de 47% em um único dia após a divulgação dos resultados.
As compras dos insiders não causaram a melhora nos lucros nem garantiram o sucesso da recuperação. Mas apontaram para uma mudança que já estava acontecendo.
Segundo especialistas, a administração estava se tornando mais disciplinada, a estratégia da marca estava melhorando e as duas conselheiras decidiram investir mais capital próprio antes que o mercado reconhecesse plenamente esse progresso. Na prática, o relatório de resultados confirmou a mudança, mas o sinal de alinhamento apareceu primeiro.
Por que o alinhamento da gestão pode criar oportunidades?
Os mercados costumam ser eficientes para projetar resultados financeiros. O que nem sempre conseguem captar com a mesma rapidez são as mudanças de comportamento dentro das empresas.
Um novo CEO pode iniciar um programa de corte de custos antes que as margens melhorem. O conselho de administração pode reformular os incentivos dos executivos antes que os retornos apareçam. Insiders podem ampliar suas participações antes que o mercado perceba o potencial da companhia. Da mesma forma, decisões mais eficientes de alocação de capital costumam anteceder seus reflexos nas demonstrações financeiras.
Essas transformações raramente aparecem nos filtros tradicionais utilizados pelos investidores. Por isso, alguns dos melhores investimentos surgiram a partir da observação do comportamento da gestão, e não das projeções de lucro.
Os números continuam sendo fundamentais, mas nem sempre representam o ponto de partida. Em muitos casos, o primeiro sinal de uma mudança relevante é perceber que os executivos passaram a agir de forma diferente porque seus incentivos também mudaram.
As estimativas de lucro mostram o que o mercado espera de uma empresa. Já o alinhamento entre a gestão e os acionistas ajuda a avaliar se a companhia tem condições de superar essas expectativas.
Para isso, algumas perguntas são essenciais: qual é a participação da administração no capital da empresa? O que precisa acontecer para que os executivos sejam recompensados? Como a companhia pretende investir seu próximo dólar? E o que acontece com a riqueza pessoal desses gestores caso os acionistas percam dinheiro?
O alinhamento da gestão não gera valor apenas porque os executivos adotam um discurso de donos do negócio. Ele se torna relevante quando participação acionária, incentivos e decisões de alocação de capital mostram que eles passaram, de fato, a agir como proprietários.
Em muitos casos, essa mudança ocorre antes da recuperação dos lucros e antes que o mercado compreenda o que está acontecendo, criando oportunidades para investidores atentos aos sinais internos da companhia.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com