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Por Que Empresas no Brasil Estão Trocando Compra de Tecnologia por Assinatura

Impulsionado por juros altos e o encarecimento de componentes, o modelo de locação de hardware e software virou estratégia financeira para companhias de todos os portes

7 min

O modelo tradicional de compra de computadores, servidores e licenças de software perdeu força nas empresas brasileiras. No lugar de desembolsos altos de uma só vez, cresce a contratação de tecnologia por assinatura, em contratos que incluem equipamentos, manutenção, suporte e atualização.

A mudança tomou forma em um momento em que o dinheiro segue caro no Brasil, os componentes de computadores ficaram mais pressionados no mercado global e as empresas precisam renovar máquinas para rodar sistemas mais novos e ferramentas de inteligência artificial. Nesse cenário, modelos como HaaS, sigla em inglês para hardware como serviço, e SaaS, software como serviço, deixaram de ser uma alternativa de nicho e entraram no orçamento das áreas financeira e de tecnologia.

O HaaS funciona como uma assinatura de equipamentos. Em vez de comprar notebooks, desktops, servidores, impressoras ou outros dispositivos, a empresa paga uma mensalidade para usar esses ativos por um período determinado. O contrato pode incluir instalação, manutenção, troca, suporte técnico e descarte correto ao fim do uso.

O SaaS segue a mesma lógica, mas no software. Em vez de comprar uma licença definitiva e manter a estrutura por conta própria, a companhia paga uma assinatura para acessar sistemas de gestão, segurança, colaboração, atendimento ou análise de dados, geralmente pela nuvem.

A principal diferença está no caixa. A empresa deixa de concentrar o gasto na compra e passa a diluí-lo ao longo do contrato. Para companhias que precisam preservar capital, evitar equipamentos defasados e reduzir custos de manutenção, a conta passou a fazer mais sentido.

De acordo com Reinaldo Sakis, Consumer Director do IDC, o mercado geral de computadores no Brasil gira em torno de 4 milhões de unidades por ano, dividido de forma parecida entre consumidores e empresas.

A diferença está no comportamento de compra. No varejo, a troca costuma acontecer quando o equipamento quebra ou fica muito defasado. No mercado corporativo, a decisão é mais planejada, porque envolve orçamento, segurança, produtividade e padronização dos equipamentos usados pelos funcionários.

“Já faz alguns anos que esse mercado [de HaaS] cresce, e ele tem uma previsão de expansão para os próximos anos um pouco melhor do que a visão normal do mundo de computadores”, contextualiza Sakis.

Os juros altos ajudam a explicar essa mudança. Em vez de investir milhões de reais de uma vez em equipamentos que perdem valor em poucos anos, muitas empresas preferem transformar a compra em uma despesa mensal previsível.

Essa conta vai além do preço do computador. Quem compra também precisa considerar manutenção, suporte técnico, atualizações, segurança, troca de peças, parada de funcionários por falhas e descarte dos equipamentos antigos. É esse custo total, muitas vezes ignorado, que tem favorecido a locação.

Marco Vorrath, diretor de vendas B2B da Acer, diz que a alta de custos na indústria de hardware abriu espaço para contratos mais longos. “A indústria de hardware tem subidas e subidas de custos de componentes, e nesse sentido, o mercado oferece o serviço de locação que possibilita preços suaves e em linhas de meses: 36, 48, 60. Ainda tem serviço adicionado, de manutenção por exemplo. No final é uma solução, que resolve uma dor de TCO dentro de um cliente.”

A pressão sobre componentes também pesa. A alta global de memórias e outros insumos encareceu configurações usadas em PCs corporativos, justamente em um momento em que as empresas precisam de máquinas mais preparadas para segurança, colaboração e inteligência artificial.

“Uma empresa, se ela comprar um equipamento hoje, ela sofre 100% de impacto nessa decisão”, afirma Paulo Alouche, vice-presidente comercial da Simpress. “Se ela decidir alugar ao longo de 60 meses, ela vai ser impactada por uma fração do valor. Esse impacto vai ser diluído.”

A mudança também altera a lógica para quem vende. No modelo tradicional, o fabricante entrega o equipamento e recebe pela venda. No serviço, precisa bancar os ativos, operar o contrato e receber ao longo do tempo.

Rodrigo Guércio, vice-presidente de Negócios Corporativos da Positivo Tecnologia, diz que esse é um dos principais desafios da indústria. “Vender hardware traz receita à vista no ato. Serviço é recorrente, inverte um pouquinho a lógica. Você imobiliza capital no equipamento, recebe diluído ao longo do contrato e precisa financiar esse giro. Esse é o desafio número um e é o que separa quem fala de HaaS de quem aguenta operar em escala.”

IA acelera a troca de computadores

A renovação dos computadores corporativos também ganhou um novo argumento: a inteligência artificial. As empresas começam a olhar para máquinas capazes de rodar parte das aplicações de IA localmente, sem depender tanto de processamento na nuvem. Isso pode reduzir custos, melhorar a segurança de dados e dar mais velocidade a algumas tarefas.

São os chamados AI PCs, computadores com processadores preparados para tarefas de inteligência artificial. São máquinas que conseguem executar recursos como transcrição, melhoria de áudio e vídeo, automação de tarefas e processamento local de dados com mais eficiência.

O problema é que essas máquinas ainda são mais caras. Para empresas com orçamento apertado, a assinatura pode ser uma forma de antecipar a renovação sem concentrar o gasto em uma compra única.

Para Sakis, o apelo das máquinas com IA existe, mas o preço ainda limita a adoção em massa. “O impulsionador existe e é válido, mas ele ainda não vira um campeão de vendas porque ainda é uma máquina mais cara. Como esse mercado corporativo está sem dinheiro, o que sai na sua maioria está indo como as-a-service para conectar uma coisa com a outra”, analisou.

Essa barreira financeira, segundo ele, acaba favorecendo o HaaS. “Se todo mundo está sem dinheiro, eu não vou ter para pagar R$ 4 mil ou R$ 5 mil em um computador, mas talvez eu tenha R$ 300, R$ 400 ou R$ 500 para pagar todo mês. Eu não preciso ter um investimento muito alto, sai do meu operacional – OpEx”, diz o diretor do IDC.

O modelo também atrai empresas médias, que nem sempre têm equipes grandes de tecnologia. Ao terceirizar parte da gestão dos equipamentos, essas companhias reduzem a necessidade de manter uma estrutura interna para compra, manutenção, troca e controle dos ativos.

Para Vorrath, um dos diferenciais está em oferecer equipamento e serviço no mesmo contrato. “Embora tenham várias empresas que falam de solução, a maioria é integradora ou empresa de locação pura, mas elas não são fabricantes”, destaca. “Acho que o diferencial é quando você pega uma multinacional que fabrica e oferece a solução de hardware mais serviço diretamente. Você elimina intermediários na cadeia e tem uma condição competitiva.”

Contrato não termina na entrega

No modelo de hardware como serviço, a entrega dos equipamentos é só o começo. O valor está em acompanhar o uso, antecipar falhas, reduzir paradas e garantir que os funcionários tenham tecnologia funcionando bem para trabalhar melhor.

Ao fim dos contratos, geralmente de 36 a 60 meses, os equipamentos podem voltar ao fornecedor, passar por manutenção e ser reaproveitados em outros perfis de cliente. Esse processo ajuda a reduzir lixo eletrônico e cria uma segunda vida para máquinas que ainda podem ser usadas.

A combinação de juros altos, pressão no preço dos componentes, necessidade de renovação tecnológica e avanço da inteligência artificial colocou o HaaS em outro patamar. O modelo deixou de ser apenas uma forma de aluguel de computadores e passou a disputar espaço nas decisões estratégicas de tecnologia e finanças das empresas.

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