Nesta sexta-feira (31), a bolsa de valores abriu com 2 horas e 30 minutos de atraso. O transtorno foi causado pela Câmara B3, departamento responsável por processar as operações da bolsa.
A função do órgão é garantir que cada ordem de compra ou venda emitida no pregão resulte, de fato, na entrega dos ativos e no correto fluxo de capital entre os investidores.
Na prática, a Câmara B3 lida com o risco sistêmico e blinda o investidor contra a inadimplência.
Caso uma das partes não honre o compromisso financeiro, o sistema aciona fundos de salvaguarda para garantir o cumprimento do contrato. É essa arquitetura que assegura a confiança institucional exigida pelas maiores gestoras e fundos globais para operar no país.
Tudo isso acontece por meio de algoritmos: a câmara calcula saldos líquidos, gerência margens de garantia e executa a custódia das operações em prazos estipulados, processando milhões de dados por segundo sem necessidade de intervenção humana direta.
No entanto, o fator humano é indispensável à governança.
Para Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital, o impacto pode ficar concentrado só no início do dia. “Durante o leilão prolongado, ordens se acumulam. Na abertura real há potencial de oscilação maior, gap ou overreaction, porque o volume reprimido da manhã é executado de uma vez”.
E aconteceu. Pedidos atrasados e volatilidade concentrada nos primeiros minutos impulsionaram o Ibovespa que registrou alta de 0,66%. Santander (SANB11) ganhou +13,15% e foi destaque ao puxar o índice.
Apesar do transtorno, o horário não deve ser estendido
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, comenta que a segurança é um fator crucial na operação e ajustar o tempo não é via de regra. “A extensão do horário de negociação não é inevitavelmente necessária, pois a prioridade é garantir a segurança e a integridade do processo de negociação”.
Sobre o horário de funcionamento, a B3 não respondeu o questionamento feito pela Forbes até o momento desta publicação.
Para Uarian, o episódio pode acontecer mais uma vez e o investidor deve estar preparado. “Sistemas de bolsa e clearing são complexos, falhas em processamento pós-negociação, arquivos, infraestrutura ou atualizações já ocorreram em outras praças e ocasionalmente no Brasil”, comentou.
“O investidor deve manter a calma e não forçar operações no leilão prolongado; acompanhar comunicados oficiais da B3 e da corretora; preferir ordens limitadas e evitar day trade ou alavancagem excessiva”, recomendou Uarian.
Episódio isolado não mina credibilidade da bolsa de valores
Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, pontua que o episódio não deve comprometer a credibilidade da B3.
“No exterior, um episódio isolado dificilmente representa perda estrutural de credibilidade da Bolsa brasileira. Investidores institucionais internacionais avaliam a qualidade da infraestrutura, mas também observam frequência, duração, transparência e capacidade de resposta a incidentes”.
Neste momento, a leitura do mercado é de um incidente operacional relevante, que precisa ser explicado tecnicamente pela B3, mas não de uma deterioração dos fundamentos ou da segurança do mercado brasileiro.
“O problema começaria a ganhar dimensão reputacional se falhas dessa natureza se tornassem recorrentes ou atingissem etapas críticas como compensação e liquidação”, completou Murad.