As novas tarifas americanas voltaram a colocar o mundo em alerta. Em 2025, o presidente Donald Trump já havia anunciado tarifas recíprocas contra o Brasil e uma lista de outros países. Ao longo do ano, as alíquotas oscilaram – chegaram a cair – mas agora se consolidam de forma definitiva sobre parte dos produtos brasileiros.
Enquanto Washington endurece sua política comercial contra Pequim, e eleva, ao mesmo tempo, a pressão tarifária sobre parceiros como o Brasil, uma nova camada da relação econômica sino-brasileira ganha espaço. Empresas que operam a cadeia de suprimentos entre os dois países deixam de disputar apenas a venda de produtos e passam a atuar também no financiamento das importações.
A JoomPro, plataforma europeia de comércio exterior, é uma delas. Com a demanda por produtos chineses em alta, a empresa lançou uma linha de crédito de US$ 100 milhões destinada a varejistas que operam em marketplaces como Shopee, Mercado Livre e Magalu, um movimento inédito para o setor. O objetivo é ampliar o acesso desses varejistas ao mercado chinês, num momento em que a reconfiguração das cadeias globais de comércio favorece rotas alternativas às americanas.
O movimento ainda é pequeno. Mas os primeiros exemplos acompanham uma lógica conhecida do comércio internacional: quanto mais integrada a cadeia de suprimentos, maior a tendência de que logística, pagamentos e crédito sejam oferecidos dentro de um mesmo ecossistema.
A lacuna do capital
A mudança ocorre em meio à expansão do comércio eletrônico brasileiro, e a um salto na base de importadores. Segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o número de empresas brasileiras que compram da China passou de 3.700 em 2000 para 40 mil em 2024, segundo o último levantamento mais recente. É mais que o dobro das 18.100 empresas que importam de toda a União Europeia, bloco de 27 países, e mais que a soma dos importadores dos Estados Unidos (12.400) e do Mercosul (4.000). Hoje, mais empresas brasileiras compram da China do que desses três parceiros combinados.
O crescimento não veio das grandes companhias. O número de microempresas importadoras chinesas aumentou seis vezes na mesma janela, chegando a 10.970; o de pequenas empresas cresceu 3,5 vezes, para 9.692. São justamente essas – sem tesouraria própria, sem linhas bancárias estruturadas – que mais sentem o intervalo entre pagar o fornecedor e vender o produto.
Nos últimos anos, milhares desses empreendedores passaram a comprar diretamente de fabricantes chineses para abastecer lojas virtuais no Mercado Livre, na Shopee, e no Magalu. A tecnologia reduziu a distância entre compradores e fornecedores; o acesso ao capital permaneceu como o principal obstáculo.
Importar exige pagar pela mercadoria muito antes de vendê-la ao consumidor final. Entre a compra na China, o transporte internacional, o desembaraço aduaneiro e a distribuição no Brasil, podem se passar meses, um intervalo que, para empresas menores, costuma limitar o crescimento mais do que a própria demanda.
É nesse espaço que o crédito ganha relevância. A multinacional europeia JoomPro, que conecta varejistas brasileiros a fabricantes chineses, anunciou uma linha de crédito – a primeira de sua história -, de US$ 100 milhões (R$ 506 milhões) para financiar importações de pequenos e médios varejistas que atuam em marketplaces.
A escolha do Brasil não é acaso. O país é hoje o principal mercado global da companhia. Até então, a JoomPro atuava apenas como intermediária, oferecendo sourcing, negociação e logística internacional. Agora financia parte dessas operações, permitindo que clientes postergem o pagamento da mercadoria em até 60 dias após a chegada ao Brasil. Na prática, a empresa assume uma função historicamente reservada a bancos.
“O fluxo de caixa é um dos maiores desafios do empreendedor brasileiro. Muitas empresas têm demanda para crescer, mas não conseguem expandir porque precisam imobilizar capital meses antes da venda”, diz Rafael Mandia, CEO da JoomPro Brasil. Segundo ele, o objetivo é reduzir essa necessidade de capital próprio e tornar mais eficiente o ciclo financeiro das importações.
À primeira vista, trata-se de um novo produto financeiro. A pergunta mais ampla é se a JoomPro representa um caso isolado ou o sinal de uma transformação maior.
Quanto maior o comércio, maior a oportunidade para quem financia
O interesse crescente pelo financiamento de importações acompanha a expansão do comércio entre Brasil e China. Em 2025, a corrente de comércio bilateral atingiu US$ 171 bilhões, quase quatro vezes o volume de 2010, e a China respondeu por cerca de 27% do comércio exterior brasileiro, segundo dados oficiais.
O crescimento não se limitou às exportações brasileiras. As importações provenientes da China somaram US$ 70,9 bilhões em 2025, alta de 11,5% sobre o ano anterior, impulsionadas pela demanda por máquinas, componentes eletrônicos e bens de consumo.
Esse fluxo maior cria também mais demanda por capital. Diferentemente das grandes exportadoras, que contam com linhas estruturadas de financiamento, boa parte dos pequenos e médios importadores depende de capital próprio para pagar fornecedores, fretes, impostos e custos logísticos antes de colocar os produtos à venda. Com 40 mil empresas brasileiras já importando da China – a maioria delas micro e pequenos negócios – a base de clientes para esse tipo de crédito cresce junto com o próprio comércio bilateral. É nessa lacuna que plataformas especializadas passam a enxergar uma oportunidade de negócio.
Os primeiros sinais
Ainda é cedo para dizer que empresas ligadas ao comércio com a China disputarão o mercado brasileiro de crédito com a mesma intensidade com que hoje disputam clientes para importação. Os exemplos são poucos, mas indicam uma direção.
O Alibaba já oferece, em alguns mercados, o programa Pay Later for Business, que permite a compradores corporativos financiar importações e postergar pagamentos por até 90 dias. A corena Ant International, em parceria com a brasileira QI Tech, lançou uma solução de capital de giro para pequenos e médios vendedores do comércio eletrônico que, embora não financie especificamente importações da China, revela a mesma estratégia: empresas asiáticas ampliam sua atuação dos meios de pagamento para o crédito.
Em comum, esses movimentos mostram plataformas digitais integrando fornecedores, logística, pagamentos e financiamento num único ambiente.
O crédito entra na cadeia de suprimentos
O anúncio da JoomPro vai além da criação de uma nova linha de financiamento. Ele reflete uma mudança na forma como as cadeias globais de suprimentos passaram a funcionar.
Durante décadas, importar significava contratar diferentes empresas para cada etapa da operação. O fabricante produzia, uma trading negociava a compra, operadores logísticos cuidavam do transporte, bancos financiavam a operação e outras instituições processavam os pagamentos internacionais. Cada agente enxergava apenas uma parte da transação.
A digitalização começou a integrar essas etapas. Plataformas como a JoomPro passaram a reunir a busca por fornecedores, a negociação, a logística e o acompanhamento da entrega em um único ambiente. Ao incorporar também o crédito, elas deixam de apenas intermediar a importação e passam a participar de praticamente todo o ciclo comercial.
“O comércio internacional sempre foi acompanhado por instrumentos financeiros. O que muda agora é quem oferece esse financiamento”, afirma Theo Paul Santana, fundador do Destino China e especialista em negócios entre Brasil e China.
Segundo Santana, essa mudança decorre do volume de informações que essas plataformas acumulam sobre seus clientes. Diferentemente de um banco tradicional, elas acompanham o histórico de compras, a frequência das importações, os fornecedores utilizados, o volume negociado e a velocidade de reposição dos estoques.
“Quando uma plataforma acompanha toda a operação, ela avalia riscos a partir do comportamento comercial daquele cliente, não apenas das demonstrações financeiras. Isso abre espaço para soluções de crédito muito mais aderentes ao comércio exterior.”
Na prática, a informação torna-se parte da garantia da operação. Quanto mais uma plataforma conhece o fluxo comercial de um importador, maior tende a ser sua capacidade de precificar risco e oferecer financiamento para pequenas e médias empresa, um segmento historicamente pouco atendido pelas linhas tradicionais de comércio exterior.
O mesmo padrão já apareceu em outros setores da economia digital: marketplaces criaram meios de pagamento próprios, empresas de logística desenvolveram soluções financeiras para transportadores, plataformas de e-commerce lançaram linhas de capital de giro para vendedores. O comércio internacional é a etapa seguinte desse movimento.
A nova infraestrutura financeira do comércio Brasil-China
O avanço dessas soluções privadas acompanha uma transformação mais ampla na arquitetura financeira que sustenta a relação entre os dois países. Durante décadas, o comércio bilateral cresceu apoiado na infraestrutura tradicional – dólar, bancos internacionais, cartas de crédito e garantias bancárias. Nos últimos anos, porém, Pequim passou a construir mecanismos próprios para sustentar a expansão de seu comércio internacional.
Em 2023, Brasil e China firmaram um acordo que permite, em determinadas operações, a liquidação direta em reais e yuans, reduzindo custos de conversão cambial e a dependência do dólar como moeda intermediária. Paralelamente, a China ampliou o uso do Cross-Border Interbank Payment System (CIPS), sistema criado para processar pagamentos internacionais em yuan. Ainda distante da escala do sistema baseado no dólar, o CIPS integra uma estratégia mais ampla de internacionalização da moeda chinesa.
Isso não significa substituição do dólar, que segue respondendo pela maior parte das reservas internacionais, das operações cambiais e do financiamento do comércio global. O que se observa é outra dinâmica: à medida que a presença comercial chinesa cresce mundo afora, cresce também a infraestrutura financeira capaz de sustentá-la.
Nesse contexto, a linha de crédito da JoomPro não deve ser vista isoladamente, mas como parte de um ambiente em que comércio, pagamentos, logística e financiamento tendem a operar de forma cada vez mais integrada. Para Santana, trata-se de uma evolução natural das cadeias globais de valor: “O comércio não termina quando a mercadoria é embarcada. Ele depende de logística, seguros, pagamentos e crédito. Quanto mais essas etapas se conectam, mais eficiente tende a ser toda a operação.”
O momento não é coincidência. A guerra comercial entre Estados Unidos e China acelerou um processo já em curso: a diversificação das cadeias globais de produção e das fontes de financiamento. Num ambiente de maior fragmentação geopolítica, controlar apenas a produção ou a logística já não basta. Empresas e governos buscam oferecer uma infraestrutura completa, da fabricação ao crédito. É nesse contexto que iniciativas como a da JoomPro ganham significado: mais do que financiar uma importação, elas mostram que a competição global passou a incluir também os serviços financeiros que sustentam o comércio.