A Copa do Mundo tem escancarado uma mudança econômica no futebol. O desempenho dos jogadores, antes avaliado quase só pelo olhar de técnicos, olheiros e dirigentes, virou dado. E dado, nesse mercado, pesa no caixa.
Durante o Mundial, a Fifa passou a usar os Power Rankings, que dão notas individuais aos atletas com base em informações coletadas durante as partidas. O craque francês Kylian Mbappé, o norueguês Erling Haaland e o argentino Lionel Messi são os três jogadores mais bem avaliados da competição.
O ranking não muda o placar dos jogos. Mas mostra como a avaliação de atletas entrou em uma fase mais numérica. Contratações, renovações, empréstimos, vendas e apostas na base dependem cada vez mais de informação para reduzir risco.
O tamanho desse mercado ajuda a explicar a mudança. Segundo o FIFA Global Transfer Report 2025, as transferências internacionais movimentaram US$ 13,11 bilhões no ano passado, o maior valor da história (R$ 67,5 bilhões). No futebol masculino profissional, os clubes gastaram US$ 13,08 bilhões em taxas de transferência (R$ 67,4 bilhões). O Brasil liderou o volume global, com 1.190 jogadores chegando e 1.005 saindo em negociações internacionais.
Nesse ambiente, errar menos na avaliação de um atleta virou uma questão financeira. Arsène Wenger, ex-técnico do Arsenal e atual chefe de desenvolvimento global do futebol da FIFA, responsável pelo ranking, resumiu a mudança ao apresentar o projeto recentemente. Para ele, “o desempenho não será mais julgado apenas pela opinião”. Os Power Rankings usam dados de partida e algoritmos de Enhanced Football Intelligence para medir jogadores em ataque, criatividade e defesa.
Na prática, a Enhanced Football Intelligence é o pacote de dados avançados da FIFA. Ele mede não só o que acontece com a bola, mas também movimentos, pressão, ocupação de espaço e interações entre jogadores. Essa base ajuda a transformar o jogo em métricas comparáveis, usadas agora para explicar o desempenho individual na Copa.
Como funciona o ranking da FIFA
Todos os jogadores de linha que atuam por pelo menos 20 minutos recebem notas de 0 a 10 em três categorias: ataque, criatividade e defesa. Os goleiros são avaliados em dois critérios: desempenho com a posse de bola e defesa do gol.
A FIFA divulga um ranking para cada categoria depois das partidas, com os 100 melhores jogadores em cada critério. As notas ficam disponíveis cerca de quatro horas após o fim de cada jogo.
O sistema considera a atuação em uma partida específica e o desempenho acumulado no torneio. Assim, um jogador pode aparecer por uma atuação decisiva ou pela regularidade durante a competição.
Na categoria ataque, entram ações ofensivas decisivas. Em criatividade, a FIFA considera visão de jogo e qualidade na construção das jogadas. Na defesa, pesa a capacidade de antecipar perigos e fazer ações defensivas relevantes.
Entre os goleiros, a defesa do gol mede intervenções decisivas e domínio da área. Já a avaliação com posse de bola considera leitura de jogo, tomada de decisão e qualidade na saída, especialmente nas transições da defesa para o ataque.
O cálculo não considera apenas o número bruto de ações. Os dados são ajustados pelo tempo em campo e pelo período em que o time teve a posse de bola. Depois, as informações são agrupadas até formar a nota final de cada categoria.
Isso evita que um jogador seja favorecido apenas por ter atuado mais minutos ou por jogar em uma equipe que fica mais tempo com a bola.
Por que isso importa para o dinheiro dos clubes
Para os clubes, dados servem para errar menos em um mercado caro e incerto. Uma contratação malfeita pode comprometer folha salarial, orçamento e planejamento esportivo. Um jovem identificado cedo pode virar reforço, venda futura ou ativo de formação. Um atleta em queda de desempenho pode perder valor em uma janela de transferências.
A Deloitte mostra o tamanho da indústria. Na temporada 2024/25, os 20 clubes de maior receita do mundo faturaram juntos €12,4 bilhões (R$ 72,9 bilhões). Foi uma alta de 11% sobre a temporada anterior. A receita comercial chegou a €5,3 bilhões (R$ 31,2 bilhões), acima das receitas de transmissão e de estádio.
Esse dado ajuda a explicar por que rankings, métricas e comparações de desempenho ganharam espaço. O futebol precisa gerar receita antes, durante e depois do jogo. Os dados alimentam transmissões, redes sociais, debates, patrocínios e negociações de mercado.
O patrocínio da Aramco, maior petrolífera do mundo, no nome dos Power Rankings também aponta para essa frente. A análise de desempenho deixou de ser apenas uma ferramenta das comissões técnicas. Ela virou inventário comercial da Copa.
Informação virou proteção contra prejuízo
O futebol lida com ativos difíceis de precificar. Dois jogadores da mesma posição podem ter números parecidos de gols ou assistências, mas entregar coisas diferentes em pressão, cobertura, passe progressivo, intensidade defensiva ou tomada de decisão.
É aí que dados ganham peso. Eles não definem sozinhos o valor de um atleta. Mas ajudam clubes, agentes e investidores a sustentar uma tese de preço.
Em um mercado de US$ 13 bilhões em transferências (R$ 67 bilhões), isso importa. Uma escolha errada não afeta só o campo. Ela pesa na folha, na amortização do contrato, no orçamento e na margem de negociação do clube.
Wenger tem defendido que dados e inteligência artificial devem ampliar a leitura do jogo. Em evento da Lenovo, parceira tecnológica da Copa de 2026, ele afirmou que “a IA vai transformar nosso jogo”, assim como deve transformar a sociedade.
No caso da FIFA, o Power Ranking é apresentado como um sistema de dados e algoritmos de desempenho. Em outras áreas, como scouting e formação de atletas, a inteligência artificial aparece de forma mais direta.
Da Copa para a base
Enquanto a FIFA usa dados para medir jogadores que já estão na maior vitrine do futebol, empresas de tecnologia tentam levar a avaliação automatizada para uma etapa anterior da carreira: a descoberta de talentos.
É o caso do CUJU, aplicativo que usa inteligência artificial e visão computacional para avaliar jovens atletas por vídeos gravados pelo celular.
No aplicativo, os jogadores fazem exercícios técnicos usando apenas um smartphone. A partir dos vídeos, algoritmos analisam fundamentos como controle de bola, passe, condução, coordenação motora, velocidade e agilidade.
O resultado vira uma base de avaliação que pode ajudar clubes, olheiros e profissionais de scouting a identificar jogadores promissores.
“A inteligência artificial pode apoiar diferentes momentos da jornada de um jogador. No caso da FIFA, ela ajuda a transformar dados das partidas em avaliações de desempenho. Já no nosso caso, a tecnologia é aplicada para ampliar as oportunidades de descoberta de talentos, permitindo que jovens atletas sejam avaliados antes mesmo de chegarem ao futebol profissional”, afirma Vinícius Las Casas, gestor de marketing do CUJU no Brasil.
A tese é simples. Encontrar talento cedo pode significar economia em contratações, ganho esportivo e potencial de venda no futuro.
O CIES Football Observatory mostra o valor dessa aposta. O Benfica foi a academia mais lucrativa do mundo na última década, com €589 milhões gerados em transferências de jogadores formados no clube (R$ 3,5 bilhões). O Ajax aparece na sequência, com €454 milhões (R$ 2,7 bilhões). O Chelsea vem em terceiro, com €442 milhões (R$ 2,6 bilhões).
A tecnologia tenta reduzir parte da incerteza da base. Um jogador de uma cidade pequena pode executar o mesmo exercício que outro em um centro de formação estruturado. Isso não substitui o teste presencial. Mas ajuda a decidir quem merece uma avaliação mais profunda.
O mercado de análise esportiva também cresce fora dos clubes. A Grand View Research estima que o setor movimente US$ 7 bilhões em 2026 (R$ 36,1 bilhões) e chegue a US$ 23,1 bilhões em 2033 (R$ 119 bilhões).
“A IA não substitui treinadores, olheiros ou analistas. Ela organiza um grande volume de informações, identifica padrões e fornece indicadores que apoiam a tomada de decisão. No processo de scouting, isso significa ampliar o alcance da observação e criar oportunidades para atletas que, muitas vezes, estão fora dos grandes centros ou de competições com maior visibilidade”, explica Las Casas.