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Inflação em Queda: o Que Muda nos Investimentos em Renda Fixa e Ações?

Com a Selic em 14% e a inflação projetada em 5,16%, a renda fixa segue oferecendo retornos elevados, mas o risco fiscal impede uma visão excessivamente otimista

7 min

O Boletim Focus do Banco Central, divulgado em 13 de julho, trouxe uma notícia que o mercado esperava há meses: a projeção de inflação para 2026 caiu de 5,30% para 5,16%, segunda semana consecutiva de redução. A Selic segue em 14% ao ano, o IPCA de junho registrou 0,58%, e o mercado começa a revisar para baixo suas estimativas de fechamento do ano.

A tentação natural é declarar vitória. Inflação caindo, juros ainda altos oferecendo retornos reais confortáveis, e a sensação de que o pior passou. Mas quem investe baseado em sensação costuma descobrir que sensação não é a melhor conselheira.

Você que me acompanha por aqui já sabe que o mercado não recompensa quem acerta o presente, mas quem antecipa o que os outros ainda não enxergam. E o que os dados atuais revelam, para quem olha com atenção, é um cenário mais complexo do que a manchete sugere.

Renda fixa: a janela que não fica aberta para sempre

Com a Selic em 14% e a inflação projetada em 5,16%, os títulos de renda fixa oferecem retornos reais acima de 8% ao ano. É um fenômeno raro nos ciclos econômicos brasileiros, e quem está posicionado em Tesouro Selic, CDBs e LCIs/LCAs sabe disso na prática.

O que muda quando a inflação cai de forma consistente é que os títulos prefixados ganham atratividade. A lógica é simples: se a tendência é de queda nos juros, travar uma taxa agora significa garantir um retorno que deixará de existir quando o Banco Central iniciar o ciclo de afrouxamento monetário.

Mas há um detalhe que não pode ser ignorado: o mercado mantém a projeção de Selic em 14% para o encerramento de 2026, ou seja, ninguém espera corte significativo este ano. O Banco Central prefere consolidar o controle inflacionário antes de mover a taxa, e essa cautela é uma informação relevante para o posicionamento.

  • Quem já está em pós-fixados (Tesouro Selic, CDBs atrelados ao CDI): continua bem remunerado, mas vale analisar se prefixados são aderentes à sua estratégia e, se for o caso, aproveitar antes que a janela feche.
  • Quem busca isenção fiscal: LCIs e LCAs prefixadas oferecem duplo benefício, taxa travada e isenção de IR, mas exigem atenção ao prazo de vencimento e à liquidez.
  • Quem está começando: o cenário atual é favorável para construir posição em renda fixa, mas não para concentração total. Não canso de repetir que a diversificação sempre será seu principal mecanismo de controle de risco.

Ações: o vento muda de direção

O primeiro semestre de 2026 deixou um legado de cautela para investidores em renda variável. A inflação voltou a ocupar papel central na alocação de investimentos, e quem estava exposto a ações sentiu a volatilidade.

Com a inflação caindo, duas coisas acontecem na ponta das ações: primeiro, as empresas que se beneficiavam de inflação alta, especialmente no segmento de commodities, tendem a perder protagonismo. Segundo, a taxa de desconto usada para avaliar ações diminui, o que melhora o valuation de empresas com lucros estáveis.

Na prática, isso significa que empresas com geração de caixa consistente, crescimento real de lucros e menor dependência de variáveis domésticas ganham espaço. A inflação em queda não é automaticamente boa para todas as ações, mas é particularmente boa para empresas cujos fundamentos foram penalizados por um ambiente de preços em alta.

Obviamente, isso não significa sair comprando ações de forma generalizada, afinal, inflação em queda não elimina riscos geopolíticos, cambiais ou fiscais. Significa, sim, que a seleção se torna mais importante que o direcionamento setorial amplo.

O detalhe que a manchete não conta

Aqui está o ponto que separa o investidor atento daquele que apenas reage ao noticiário: enquanto a projeção de inflação para 2026 cai, a projeção para 2027 subiu de 4,18% para 4,20%, marcando a oitava alta consecutiva.

Isso é a desancoragem de expectativas em tempo real: o mercado está dizendo que não acredita que o alívio de curto prazo se sustente, e o motivo é estrutural, não conjuntural:

  • Cenário fiscal preocupante: entre janeiro e maio de 2026, o governo registrou déficit primário de R$ 44,4 bilhões, revertendo o superávit do mesmo período do ano anterior. 
  • Despesas crescendo a 9,4%, quase o dobro do ritmo das receitas que cresceram apenas  4,9%. 
  • Dívida líquida do setor público subindo para 69,87% do PIB, e a dívida bruta deve alcançar 83,8% ainda em 2026.

Some-se a tudo isso o calendário eleitoral, que historicamente pressiona gastos, e o pano de fundo geopolítico do Oriente Médio, que mantém o risco de choques no preço de energia vivo. É essa combinação que explica por que o Banco Central segue cauteloso mesmo com a inflação cedendo, e é aqui que entra o conceito que dá nome ao problema: dominância fiscal.

Quando a política monetária fica sem saída

Quando a trajetória da dívida pública se deteriora ao ponto de o custo de carregá-la, hoje na casa de 13% ao ano, superar de longe o crescimento do PIB, o Banco Central perde parte da sua liberdade de manobra.

Segurar os juros para controlar a inflação eleva o próprio custo da dívida e piora o quadro fiscal. Cortá-los sem que o ajuste estrutural das contas públicas venha junto arrisca destravar a inflação de novo, porque o mercado passa a exigir prêmios mais altos para financiar um governo que gasta mais rápido do que arrecada.

O resultado é uma política monetária que perde eficácia nos dois sentidos, e é exatamente esse dilema, e não cautela burocrática, que mantém a Selic parada em 14% mesmo com o IPCA projetado cedendo.

Apesar do governo ter elevado sua projeção de PIB para 2,3%, citando o cenário de guerra como fator de aumento de arrecadação, o mercado mantém estimativa mais conservadora de 1,99%.

O recado dos dados é claro: a queda da inflação em 2026 é um alívio de curto prazo, não uma vitória estrutural. Quem posicionar a carteira como se o problema estivesse resolvido pode descobrir, em 2027, que a conta chegou.

O que o investidor deve fazer agora

Como sempre reforço por aqui, é essencial que você construa uma estratégia capaz de atravessar cenários diferentes sem se perder, e nisso, as ferramentas da Comunidade Mira podem te ajudar muito, pois sempre irão apontar quais tipos de investimento estão em linha com seus objetivos, além de ponderar sobre os ciclos de mercado.

O cenário atual sugere três movimentos:

  • Travar retornos reais enquanto a janela está aberta: a renda fixa prefixada oferece uma oportunidade que pode não se repetir no próximo ciclo. Considerar a alocação antes que o mercado precifique os cortes.
  • Ser seletivo em renda variável: buscar empresas com crescimento real de lucros, não apenas com narrativa de mercado. O valuation melhora com a queda da inflação, mas só para quem tem fundamentos.
  • Manter a diversificação como premissa: combinar renda fixa para segurança e ações seletivas para crescimento é a estratégia que sobrevive tanto a um cenário otimista quanto a uma frustração de expectativas.

A inflação caiu, e isso é positivo, entretanto, é fundamental que você não permita que a reação emocional, e eventualmente otimista, tire seu foco no contexto macro e, especialmente, nos seus objetivos.

A inteligência financeira passa por posicionar-se aproveitando janelas de oportunidades, mas sempre com a disciplina de não sair do plano individual traçado e, no atual momento, entendendo que o cenário é favorável, mas não definitivo.

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