Existe uma pergunta que atravessa o mercado de ouro desde o começo do ano e que ninguém consegue responder com uma frase só: se o mundo está em guerra, por que o metal que serve justamente para proteger o investidor da guerra está caindo?
Os números explicam o desconforto. O ouro cravou mais de 12 máximas históricas nos primeiros meses de 2026 e chegou ao recorde de US$ 5.405 por onça-troy no fim de janeiro, segundo o Conselho Mundial do Ouro (World Gold Council, WGC na sigla em inglês).
De lá para cá, desabou. Em junho, tocou a mínima de US$ 4.002 — uma queda superior a 25% do topo ao fundo, em pouco mais de quatro meses. No acumulado do ano, o metal opera com perda de cerca de 7%, e a volatilidade média subiu para 30%.
Se as variáveis macro globais se comportarem como o consenso hoje projeta, o WGC estima que o ouro deve navegar numa faixa de 5% para cima ou para baixo em torno de US$ 4.100 a onça até o fim do ano. Para furar o teto e voltar aos US$ 4.500, seria preciso uma reversão nas expectativas de juros, uma piora das condições geoeconômicas ou entrada sustentada de investidores de longo prazo. Testar os US$ 5.000 exigiria um sinal forte de desaceleração global.
Juarez Filho, fundador da Ourominas, maior corretora de ouro da América Latina, tem uma imagem que ajuda a entender o comportamento do metal. “O ouro é como se fosse uma febre. Quando ele começa a subir, você percebe que alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer”.
O que mudou é o tempo de permanência. Segundo Juarez, o dinheiro conservador entra no metal no susto e sai assim que percebe que a situação encontrou algum ritmo. “Óbvio que houve uma valorização a mais por conta de tudo que vem acontecendo. Mas o ouro sempre vai dar um pulo, pode ser que ele volte um pouco para trás, e depois volta a angariar o mercado novamente”, afirma.
O inimigo é outro
Ao contrário do que boa parte do mercado esperava no fim de 2025, o consenso hoje não é de corte de juros nos Estados Unidos. É o oposto: o temido aumento. O mercado projeta pelo menos uma alta de juros pelo Federal Reserve em 2026, provavelmente até outubro, com movimento parecido do Banco da Inglaterra, do Banco do Japão e do Banco Central Europeu. Para a inflação americana espera-se que atinja o pico perto de 3,9% no segundo trimestre.
Para o ouro, isso pesa por um motivo simples: o metal não paga juro nenhum.
Quando o título público americano rende bem, segurar ouro custa caro em rendimento abandonado. “De modo geral, taxas de juros mais baixas reduzem o custo de oportunidade de se investir em ouro, o que aumenta os fluxos de investimento e sustenta os preços”, explica Juan Carlos Artigas, CEO regional para as Américas e diretor global de pesquisa do World Gold Council. Segundo ele, a alta que o mercado já espera está no preço e não deve mexer com o metal caso se confirme. O que mexeria é uma virada de tom. “Se a trajetória de juros do mercado mudar para um tom mais dovish, especialmente se as preocupações sobre a independência do Fed voltarem à tona, como ocorreu em janeiro, isso seria um claro vento a favor.”
O risco geopolítico, por sua vez, continua no jogo e a análise quantitativa do WGC atribui cerca de 17% da variação do retorno do ouro no primeiro semestre exclusivamente a risco e incerteza. A modelagem da entidade também mostra que, historicamente, um avanço de 100 pontos no Índice de Risco Geopolítico em um mês empurra o metal para cima em torno de 2,5%. “Houve uma mudança estrutural no risco geopolítico desde o início desta década que dificilmente se reverterá no curto prazo”, diz Artigas.
Mas para os bancos, a correção de preço não muda absolutamente nada da função do metal.
Os bancos centrais compraram, em média, cerca de mil toneladas de ouro por ano desde 2022. A pesquisa anual de reservas do WGC mostra que os gestores seguem esperando ampliar posições nos próximos doze meses. “Vimos vendas táticas e swaps por parte de alguns bancos centrais no primeiro trimestre, mas nossa modelagem sugere que, mesmo que a demanda modere este ano, qualquer valor marginal acima da média de longo prazo, de cerca de 600 toneladas por ano, ainda deve fornecer um suporte estrutural significativo para o ouro”, afirma Artigas.
O Brasil está nessa fila. O Banco Central encerrou março de 2026 com 172,4 toneladas do metal, o equivalente a 7,1% das reservas internacionais do país e a maior posição da América Latina, à frente de México (120,1 toneladas) e Argentina (61,7 toneladas), segundo dados do WGC. Ainda é pouco perto dos Estados Unidos, que guardam 8.133 toneladas.
Para Juarez Filho, da Ourominas, há espaço para crescer, e parte do movimento global tem uma explicação prosaica: instituições que venderam papéis lastreados em ouro sem ter o metal em estoque agora precisam recompô-lo. “Isso vai demorar um tempo ainda para acabar de recolocar esses estoques”, diz.
O que observar daqui até dezembro
Os obstáculos à valorização são dólar mais forte, alta de juros acima do esperado e apetite a risco. Negociações sustentadas abaixo de US$ 4.000 podem destravar novas vendas. No entanto, o conselho pondera que uma queda superior a 10% em relação aos níveis atuais tende a atrair compra orgânica de investidores de longo prazo em várias regiões, como já aconteceu antes.
“O mercado de ouro deixou algo claro este ano: é um ativo genuinamente global“, resume Artigas. “O desempenho do ouro não é impulsionado por um único fator. O ouro sofreu pressão perto de US$ 4.000 este ano e se recuperou anteriormente, sustentado pela demanda orgânica de compradores de longo prazo.”
Juarez trabalha com um horizonte ainda mais elástico. Ele conta que comprou um apartamento há cerca de vinte anos por um valor equivalente, na época, a 12 quilos de ouro; hoje o imóvel foi avaliado em R$ 2,5 milhões, e a mesma quantidade de metal vale bem mais do que isso. A conclusão que ele tira não é sobre trimestre nenhum. “Às vezes você compra o ouro não é para você, é para a garantia da sua geração”, diz. “Você tem um produto que balança, mas não cai.”
Para o investidor, o Banco do Brasil (BB) não considera que as quedas são anomalia, e sim o comportamento esperado de um ativo que reage ao mundo inteiro ao mesmo tempo. “As oscilações recentes fazem parte da dinâmica natural de um ativo global, sensível a mudanças no cenário econômico e nos níveis de risco percebidos pelos investidores”, afirma Mário Perrone, head de Captação e Investimentos do BB.
Na avaliação dele, o metal segue cumprindo um papel estratégico de diversificação e proteção dentro do portfólio, funcionando como reserva de valor e instrumento de descorrelação, desde que a escolha esteja alinhada ao objetivo, ao momento de vida, ao horizonte de investimento e ao apetite a risco de cada investidor.